
Começo por confessar que ando tão descrente com a política, que a única voz que me apetece ouvir é a do senhor Presidente da República. Pelo menos, este não engana ninguém!... Ou é, ou não é. Aliás, estou mesmo convicto, de que actualmente, poucas serão as vozes audíveis - porque credíveis -, neste nosso Portugal do século XXI.
Ora vejamos: Quando determinados gestores da nossa “
praça”, auferem salários mensais a rondar os 22.000 €, o que significa, 30 vezes mais que o vencimento médio nacional -
779 € nos serviços; 636 € na indústria, construção e energia; e 489 € na agricultura, silvicultura e pesca, segundo dados do INE -, quando 41% da população portuguesa tem vencimentos que variam entre os 310 e os 600 Euros, quando a justiça, a segurança e o desemprego, andam pelas ruas da amargura, e quando o CONFORMISMO REINANTE, de quem devia denunciar esta calamidade e não o faz, prolifera, é perfeitamente natural e normal, que o senhor Presidente da República se interrogue, se tais salários não serão desproporcionados à média nacional; do porquê de tantas injustiças no meio da justiça; do número de mortes que vão acontecendo, como consequência da insegurança em crescendo por este país inteiro e de tanta pobreza, cada vez mais enraízada na nossa sociedade.
Cavaco Silva, na sua mensagem de Ano Novo, demonstrou assim, as suas preocupações aos políticos, que da política fazem o seu ganha-pão e aos cidadãos do seu país, preocupações essas, que a meu ver, são aliás inteiramente legítimas. Tão legítimas, como igualmente outras, que também não esqueceu, designadamente o caminho traçado para os cuidados de saúde, que hoje constitui uma tremenda inquietação para toda a comunidade.
Neste seu discurso, o Presidente falou para os portugueses o entenderem. Aliás, falou pela voz dos portugueses, com quem tem contactado por esse País fora, apontando as mesmas preocupações do povo e os mesmos problemas por resolver, e falou pela voz daqueles, que antes da chegada ao poder tudo prometem e depois se vão esquecendo, e pela de outros, que outrora prometeram fazer oposição de manhã, à tarde, à noite, onde fosse necessário, mesmo que na rua, mas que hoje consideram populismo, fazer essa mesma oposição, à porta das fábricas, pactuando assim, com o sistema vigente ...
Em boa verdade, Cavaco Silva, quase parecia o líder da oposição!...
Face a todo este "entrelaçado", lembrei-me dum Sermão do Padre António Vieira que reza assim:
" uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros é dos pecados do tempo, porque fizeram no mês que vem o que se devia fazer no passado; porque fizeram amanhã o que havia de se fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo o que haviam de fazer já...e o tempo não tem restituição alguma."
Daqui se depreende, que na hora, o Presidente não se esconde nem tem medo das palavras. Não promete, nem inventa uma coisa de manhã e diz outra à tarde, para se contradizer à noite. O Presidente não mandou dizer por ninguém, de que é preciso explicar com verdade às pessoas; de que é preciso explicar porque são necessárias as mudanças; com que garantias elas se vão executar; e que benefícios delas virão a colher as populações.
É que pelo andar da carruagem, SÓCRATES JÁ NÃO TEM QUE SE PREOCUPAR EM CUMPRIR AS SUAS PROMESSAS. OS PORTUGUESES É QUE TERÃO QUE FAZER POR MERECÊ-LAS, uma coisa mais ou menos parecida, como ganhar o "reino dos céus"...
Mas vamos ao que interessa:
Serão razoáveis, vencimentos tão díspares, como aqueles que se verificam em Portugal, que o colocam nos primeiros lugares -pela negativa -, no ranking da UE?... Quando o nosso governo, vais buscar exemplos que lhe convém, a outros países da Comunidade, porque não faz o mesmo nesta matéria?... Porque não cita o caso alemão, francês, inglês e tantos outros?...
Será razoável, que o governo apenas saiba conjugar o verbo encerrar, no que respeita à área da saúde?... Se quanto aos SAP`s, até admito que alguns sejam encerrados, já que foram uma verdadeira aberração quando criados, consumidores de recursos e incapazes de acudir a uma situação verdadeiramente grave, que normalmente terá de culminar no hospital, certo é, que o Governo prometeu soluções alternativas, antes de os encerrar e não cumpriu!... Portanto, se não cumpriu... não os devia encerrar!...
Aliás tal como no caso dos SAP`s, o Governo antes de encerrar urgências de alguns hospitais concelhios, de maternidades, de blocos de partos, prometeu garantir reforços na área do socorro pré-hospitalar, ou não é verdade?... O Governo prometeu, mas não cumpriu... e se não cumpriu, não os devia encerrar!...
E na justiça?... Não há nada a fazer?.... É preciso o Presidente chamar o PGR, para que determinados escândalos, não se tornem ainda mais monstruosos?...
Vamos continuar a assistir aos atropelos por todos conhecidos?...
E quanto á segurança?... Vamos continuar passivos e serenos como até aqui, "metendo a cabeça na areia", como que nada se esteja a passar?...
Vamos ficar à espera de mais uma “presidência aberta para a inclusão” em áreas como o emprego?
Ora foi exactamente a estas situações que o Presidente da República se referiu, ao alertar ser "importante que os Portugueses percebessem para onde vai o País...”.
O que é certo, é que duvido que as suas palavras produzam qualquer efeito...
E é pena, porque quando um Povo se sente alheado, distante, sem se rever em lideranças, porque nelas já não acredita, prevê-se um futuro morno, num tipo de gestão imediata e de técnica de "navegação à vista". Na verdade há "LIDERES" e "LIDERES".