16 março 2008

O FUTURO DA POLITICA PORTUGUESA...

Os acontecimentos das últimas semanas são um pequeno sinal do que caracterizará a política portuguesa nos próximos tempos.
A manifestação dos professores (com a quantidade de gente que nela participou), os protestos de Augusto Santos Silva contra as vaias de que foi alvo em Chaves (e a preparação da "contra-manifestação" do PS), e a conflitualidade interna no PSD (com Menezes e Santana reagindo às críticas com mais violência, do que aquela com que os críticos os atacam) deixam antever, uma significativa radicalização do debate político nos próximos tempos, sem que, ao mesmo tempo, haja entre as partes em confronto, uma verdadeira diferenciação, sem que apareça uma verdadeira alternativa ao caminho proposto pelo Governo.

A manifestação dos professores, aliada a outras cenários de participação da "rua", mostra como o Governo se encontra num equilíbrio precário: a sua propaganda assentava na sua "coragem", "firmeza" e recusa em "recuar". Mas, obcecado com nova maioria em 2009, está condenado a desiludir se recuar e a enfurecer se insistir.
O recurso à "rua", principalmente depois do precedente do afastamento de Correia de Campos, torna-se assim apetecível, o que fará cada vez mais gente sair para protestar, sem no entanto ter esperança num caminho alternativo. No entanto, o "barulho" que fazem é suficiente para incomodar o Governo, como se viu pela histeria de Augusto Santos Silva, que na mesma semana em que a Policia andou (mais uma vez) a espiolhar manifestantes, teve o desplante de acusar uns quantos cidadãos, de falta de democraticidade, só porque, desconhecedores das subtilezas da ciência política, cometeram o erro de o apelidar de fascista.

Apesar do seu ridículo, a intervenção de Santos Silva não é motivo de riso, mas sim um indicador de como o PS, à radicalização da "rua", responderá com a radicalização do seu próprio discurso, acusando, tal como no tempo da outra senhora, a oposição de "esquerda" de querer fazer uma ditadura comunista em Portugal, e a oposição de "direita" (se é que ela vai aparecer) de querer, tal como no Verão Quente de 1975, de "voltar ao 24 de Abril".
No meio de toda esta embrulhada, só falta mesmo Manuel Alegre e o seu movimento, para colocar "ordem na casa"!...

Enquanto isso, o maior partido da oposição, continuando a sua já longa travessia no deserto, encarrega-se de se anular a si próprio. Menezes, preocupadíssimo em conservar o poder interno, não se incomoda com o estrago que faz à imagem do partido junto dos eleitores. Ao querer apressar a votação das novas regras de funcionamento interno, apesar da fortíssima contestação de vários opositores, Menezes apenas mostrou que a manutenção desse poder interno é a sua prioridade política, e que mais importante que fazer oposição ao PS, é anular os críticos internos.

Com tal conduta e sem meias palavras, diz assim aos cidadãos e aos militantes de base, que dali não virá uma verdadeira alternativa, pois para Menezes parece haver coisas piores que um Governo PS. E quando Santana Lopes, vem acusar esses críticos de estarem "em conluio" com o PS, nota-se aqui, um fenómeno semelhante ao de Santos Silva: uma radicalização da linguagem provocada por uma percepção de fragilidade à qual é impossível dar a volta.
Ora, essa radicalização do confronto interno do PSD, apenas dificultará a sua afirmação como líder da oposição, perpetuando a ausência de uma verdadeira alternativa ao PS, que por sua vez, também fragilizado contribui para o sentimento de vazio dos portugueses, que os conduz à "rua", numa luta cada vez mais radicalizada, levando o partido do governo, a igualmente radicalizar o seu próprio discurso.
O debate, está assim a entrar num ciclo vicioso de degradação progressiva, que na ausência de uma oposição séria e eficaz, combinará no pior de dois mundos: teremos radicalização sem diferenciação, e homogeneidade sem estabilidade. A democracia ficará mais frágil, e nenhuma reforma que inverta o empobrecimento dos portugueses poderá ser promovida.

(DEVIDO AO PERIODO PASCAL, ESTA RUBRICA SOFRERÁ O PEQUENO INTERREGNO DE UMA SEMANA)

09 março 2008

1-ESQUIZOFRENIA POLITICA 2-EDUCAÇÃO-REFORMA OU CONTRA-REFORMA? 3-ONDE CHEGA O RIDICULO...

1-ESQUIZOFRENIA POLITICA
Sabiam por acaso, que o senhor da foto é ministro do Governo da República?... Sabiam que tem seu cargo as relações do Governo com o Parlamento e que já foi ministro da Educação?...
Pois bem!... O senhor da foto, foi aquele que na minha terra, proferiu estas inacreditáveis declarações (Click), e é o mesmo, que em plena campanha eleitoral para a Presidência da República disse que a eleição do Professor Cavaco Silva corresponderia a um golpe de Estado. Nem mais nem menos!... A um golpe de Estado.
Ao que consta, não se retratou nem pediu desculpa, e até foi á posse do Chefe de Estado de quem receava o dito golpe... Não estaremos, perante mais um caso de esquizofrenia politica?
Estou-me literalmente nas tintas, para o revolucionário passado mais ou menos remoto deste senhor, que não justifica os dislates. O que me incomoda isso sim, é ver nos mais altos cargos, pessoas sem um pingo de sentido de Estado e sem respeito, por aqueles que anos a fio, deram o "corpo ao manifesto"....
2 -EDUCAÇÃO - REFORMA OU CONTRA-REFORMA
Não é uma reforma mas uma contra reforma para a educação, as medidas políticas que estão a ser implantadas por este governo no nosso ensino. Os professores são culpabilizados, não por serem menos exigentes, mas por serem exigentes de mais; não por saberem de menos, mas por saberem de mais.

A “raiva” que esta contra-reforma sente pelos professores, é seguramente pela dimensão humanista que a maioria dos professores possuem, pela sua abnegação, pelo ensino que praticam, pelos valores éticos que transmitem aos seus alunos, por serem intelectuais e não apenas transmissores de conhecimentos desprovidos de valores de cidadania. O “desprezo” que a ministra manifesta por estes “professorzecos” - como os trata em privado -, é por sentir que estes professores possuem uma dimensão humana incompatível com a sua “reforma”. Uma contra-reforma, onde não se deseja que os professores sejam educadores mas sim apenas instrutores; onde não se deseja um ensino humanista e universalista mas ao contrário um ensino vazio e alheio aos valores da cidadania, um ensino puramente tecnicista e utilitário. Um ensino onde não se formem cidadãos mas consumidores. Um ensino onde a socialização do aluno não se faça por padrões éticos e morais, de fraternidade, solidariedade, tolerância, abnegação, mas por uma socialização em que apenas conte o espírito individualista, egoísta e utilitário. E neste projecto neoliberal do governo Sócrates para o ensino, a avaliação dos professores é apenas um pequeno fragmento do puzle. O Estatuto do aluno, a nova organização da escola, o Estatuto da carreira docente, a nova configuração pedagógica, são as outras peças que o complementam. É preciso competir, e uma sociedade moderna é aquela na qual só os melhores triunfam; a crise do ensino resulta assim, de um problema cultural provocado pela ideologia dos direitos sociais, e a falsa promessa de que uma suposta condição de cidadania, nos coloca a todos em igualdade de condições, para exigir o que só deveria ser outorgado àqueles, que graças ao mérito e ao esforço individual, se consagram como consumidores empreendedores. É este o pensamento neoliberal. É esta a “modernidade” que se pretende para o ensino em Portugal. Retirar a Educação do campo social e político e ingressá-la no mercado para funcionar à sua semelhança; adequar a escola aos mecanismos do mercado.
A manifestação de ontem, dos 80 ou 100.000 professores, não foi apenas uma lição de cidadania que os professores deram ao governo.Foi uma lição de cidadania que deram ao País.

3- ONDE CHEGA O RIDICULO...
Na corrente e deliciosa polémica em torno das alterações ao Regulamento de Disciplina Militar do PSD (RDM/PSD), terá sido agora suscitada uma das mais "extraordinárias" sugestões: um suposto novo sistema de pagamento de quotas, vir a ser manipulado como instrumento de branqueamento de capitais... Tanto quanto estou informado, a quota mensal paga pelos “militares” do PSD é de 1€... Quer isto dizer que se terá levantado a suspeita, de através do pagamento de 1€/mês efectuado por terceiro não co-obrigado nesse pagamento, poder estar - não apenas um gesto de cínica generosidade ou de aquisição mercantil de preciosos votos – mas um canal de branqueamento de capitais! A coisa foi ao ponto de na edição de hoje de um dos jornais gratuitos, aparecer como título de primeira página exactamente a ligação entre as alterações do RDM/PSD e o branqueamento de capitais... Segundo a sugestão em causa, o branqueamento de capitais ter-se-á transformado em fenómeno de tal modo popularizado ou democratizado que até as pessoas de baixíssimos rendimentos estarão a servir-se desta infamante prática! A possibilidade de se registarem operações múltiplas de branqueamento de capitais de €1/mês via quotas do PSD deverá assim constituir, doravante, mais uma preocupação para as Autoridades encarregadas da investigação criminal, quiçá como primeira prioridade... Admite-se até que as brigadas de combate ao banditismo tenham de ser consideravelmente reforçadas para atacar este novo e deletério fenómeno que ameaça a coesão social e nacional!... Diz-se às vezes que o ridículo mata...

Neste caso, suspeito de que a intensidade letal é de tal ordem, que justifica a adopção de providências extraordinárias para protecção do fenómeno...
Para os opositores de Menezes um conselho: Se não gostam do Homem, não divaguem, caso contrário, será pior a "ementa que o soneto..."

02 março 2008

1- “À BEIRA DE UMA CRISE SOCIAL..." 2- NA CAUDA DA EUROPA...

1) - “À beira de uma crise social de contornos difíceis de prever
Com a expressão que faz o título deste comentário, a Sedes-Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, sintetizou nesta última semana, uma longa reflexão em torno da situação política e social do País.

A Sedes é provavelmente a associação cívica mais prestigiada entre nós, reunindo no seu seio, um grupo de ilustres cidadãos, que são certamente dos que melhor pensam em torno dos problemas actuais da nossa sociedade e do sistema político e de governo que a incorporam.No período anterior ao 25Abril74, a Sedes notabilizou-se pelas tertúlias que organizou e das quais saíram importantes contributos para o diagnóstico da acentuada decadência do sistema de governo que então vigorava. Construiu ao longo do tempo, uma reputação ímpar dos acontecimentos políticos e sociais da sociedade portuguesa, mostrando-se mesmo capaz de prever com grande sagacidade, as grandes mudanças sociais, que viriam a ocorrer.Sem embargo do que antecede, a análise divulgada por esta prestigiada organização suscita-me no entanto duas reservas fundamentais:
- A primeira, quanto ao diagnóstico em si mesmo. Diz a Sedes:
Que "... nos encontramos à beira de uma crise social" ;
Que se "... sente hoje na sociedade portuguesa um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional";
Que “... outro factor de degradação da qualidade da vida política é o resultado da combinação de alguma comunicação social sensacionalista, com uma justiça ineficaz. E a sensação de que a justiça também funciona por vezes subordinada a agendas políticas”;
Que "... é também preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária – quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada – muito para além do que deve ser o seu espaço natural";
Que “...estas tendências são factores de empobrecimento do regime político e da qualidade da vida cívica. O que, em última instância, não deixará de se reflectir na qualidade de vida dos portugueses”;
Que " ... outro factor de degradação da qualidade da vida política é o resultado da combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma justiça ineficaz. E a sensação de que a justiça também funciona por vezes subordinada a agendas políticas";
Que " ... a criminalidade violenta progride e cresce o sentimento de insegurança entre os cidadãos. Mas a crescente ousadia dos criminosos transmite o sentimento de que a impune experimentação vai consolidando saber e experiência na escala da violência”;
E que “ ...mais cedo ou mais tarde, emergirá, uma crise social de contornos difíceis de prever ”.
Pela parte que me toca, considero que não nos encontramos à beira de uma crise social, mas... isso sim, “em plena crise”. Os próprios sintomas destacados na análise da Sedes, são tanto quanto percebo, provas claras da existência, hoje, que não amanhã, de uma séria crise social e política, que não pode ser escamoteada.

- A segunda quanto ao estilo apocalíptico da premonição.
Este tipo de premonições são muito típicas dos nossos analistas político/sociais, desde os mais vulgares aos mais brilhantes, como é manifestamente o caso dos autores do documento da Sedes. Não partilho no entanto, esta visão apocalíptica no caso vertente. Parece-me que o diagnóstico da Sedes está correcto, no essencial, com a primeira ressalva acima feita, mas não vejo que a próxima etapa seja o apocalipse social. Inclino-me a pensar, que a situação continuará – infelizmente - a degradar-se por mais alguns anos, sem por em causa o regime e o sistema de governo, no essencial – democracia política, de base parlamentar – embora admita, que possam ocorrer em futuro não muito distante, modificações orgânicas para reforço dos poderes presidenciais e também para um papel mais visível de alinhamentos sociais não partidários.
Não assistimos a um sinal dessa mudança, na famosa e recente controvérsia em torno da localização do novo Aeroporto, em que o Presidente e organizações sociais não-partidárias tiveram papel muit(íssim)o mais relevante do que o dos Partidos?
Quanto à tal “crise social de contornos difíceis de prever”, parece-me que, como acima disse, essa crise já existe e os seus contornos não só não são difíceis de prever, como foram muito bem analisados e identificados pela Sedes…
(O relatório da organização está disponível em: http://www.sedes.pt/)

2) - Outra vez na cauda da Europa...

Esta é uma situação que não me podia passar ao lado. E não me podia passar ao lado, porque sendo as crianças, do melhor que há em qualquer sociedade, é inconcebível, que no nosso país, um país da Europa, da Liberdade e dos Direitos Humanos, um quinto dessas mesmas crianças estejam em risco de pobreza. Segundo um relatório da Comissão Europeia, divulgado no passado dia 25FEV, Portugal é o segundo país da União onde o risco de pobreza infantil é maior (pior mesmo, só a Polónia), acrescentando mesmo que a situação havia piorado desde 2004.
Para mal dos nossos pecados, este retrato não apanhou de surpresa o País!...
Sentimos, percebemos, suspeitamos, temos a certeza, que por entre as famílias que nos rodeiam, nos bairros, nas aldeias, nas vilas e nas cidades, há pobreza. Ainda que porventura, não contactando directamente com ela, ela está lá, silenciosa, envergonhada, discreta, disfarçada, escondida. É que onde há pessoas, há crianças. E elas também estão lá.
Se os números e as estatísticas, para alguma coisa servem, é justamente para confirmarem o que muitas vezes aparentemente não se vê. O Instituto Nacional de Estatística tinha divulgado em Janeiro passado indicadores graves sobre o risco de pobreza ( a que nesta página fiz referência) e sobre a desigualdade dos rendimentos monetários aferidos. Este massacre de pobreza que rouba às crianças a possibilidade de serem crianças e condiciona o seu futuro como adultos, é desesperante e deve ser motivo de tristeza.
Vivemos num País, que não assegura os mais elementares direitos das crianças. Não podemos, ano após ano, constatar que não fomos capazes de atacar o problema e que os esforços para reduzir a pobreza infantil não foram suficientes.
Sejamos sérios e procuremos saber onde é que estão os erros cometidos e que medidas correctivas poderiam ser introduzidas nas actuais políticas de protecção social, num contexto de políticas fiscais sólidas, de modo a combater e a prevenir com maior eficácia a pobreza infantil. Discutamos estes assuntos com a mesma intensidade com que discutimos os “aeroportos” e os “TGVs” deste pobre País.
Ao escrever este pequeno texto, fui-me questionando sobre se alguém sabe - partindo do princípio que os nossos governantes e políticos sabem -, quais são as medidas em vigor que incidem sobre as crianças mais desfavorecidas e sobre os resultados que se esperam em concreto atingir?... Eu não sei. E não sei, porque das duas uma: Ou ando muito distraído, ou pura e simplesmente não existem...

24 fevereiro 2008

POLÍTICA RASCA / A ENTREVISTA DE SÓCRATES

A)-POLITICA RASCA...
Por fraqueza, muitas vezes os mais fracos, “falam grosso” na presença dos seus chefes. Por fraqueza, ou por uma incontrolável vontade de agradar ao chefe, é comum assistirmos a estes exercícios de adulação na política. O jovem presidente da Câmara de Alvaiázere, não fugiu à regra e nos últimos dias, na presença de Filipe Menezes, em jantar de acção política naquela vila, referiu-se a Sócrates afirmando: «António Oliveira Salazar era um aprendiz de ditador ao pé de José Sócrates». Naturalmente que há exageros na comparação!... Os momentos históricos do salazarismo e do sócretismo são inequivocamente distintos e não podem ser comparáveis seguramente. Contudo, sob a capa de uma democracia formal, não deixa de ser assustador os avanços de um certo “totalitarismo democrático” que Sócrates advoga e apadrinha. Avanços que se tornam visíveis e se concretizam na promulgação legislativa. O recente diploma sobre carreiras e vínculos da Função Pública, que me deixam cheio de interrogações, são disso um exemplo concreto. Sob a capa da modernidade, esconde-se nele um inequívoco “totalitarismo” partidário, numa nova concepção daquilo que é, e do que deve ser, a Administração do Estado, que pelos vistos, agora se pretende totalmente dependente dos partidos. Com a nova lei, o funcionário público, passa a ser um agente do governo e não do Estado. A independência política da Administração Pública deixa definitivamente de existir e passa a ser substituída pela dependência partidária governamental.
Neste sentido, e aí sim, tem razão naquilo que afirma, o presidente da Câmara de Alvaiázere. Por outras razões, a legislação relativa à Administração Pública do tempo de Salazar, colocava-a ao serviço do Estado, e assim, indubitavelmente mais democrata que esta agora parida pelos políticos desta segunda geração do 25 de Abril.
B)- A ENTREVISTA
O aspecto mais evidente da entrevista de José Sócrates à SIC e ao Expresso, para dissecar os seus três anos de governação, foi o de ter estado mais perto de ser "uma sessão de propaganda" do que verdadeiramente "uma entrevista". É verdade que ela abordou temas incómodos ao Primeiro-Ministro, como o emprego, a política fiscal, a Saúde, a Educação e a polémica em torno dos projectos do "engenheiro técnico da Câmara da Covilhã". Mas não sejamos ingénuos: Pela forma como a entrevista se desenrolou, serviu essencialmente para o Primeiro-Ministro "explicar" as suas políticas, isto é: Em vez de ser confrontado com resultados objectivos e dificuldades futuras, Sócrates pôde discorrer àcerca de como tudo era maravilhoso, e de como todas as críticas à política governamental não passam de "falsidades" e "demagogia".

Aliás, é de notar como o Primeiro-Ministro não teve de responder a qualquer questão sobre a conjuntura internacional, cujas perspectivas pouco entusiasmantes poderiam pôr a descoberto o irrealismo do discurso socrático.
Isto é mesmo, o que de mais relevante teve a entrevista. Ela mostrou, a quem ainda não tivesse percebido ou querido ver, o gigantesco abismo entre o Portugal dos portugueses e o Portugal da retórica governamental. No Portugal dos portugueses, o fisco dispara primeiro (presume a culpa primeiro) e faz perguntas depois. Os contribuintes, por seu lado, caso sejam prejudicados, têm de esperar anos por uma decisão do tribunal. No país de Sócrates, os contribuintes não perderam qualquer direito, têm "todas as garantias" e "meios de recurso" a tribunais no caso de se sentirem lesados.

No país dos portugueses, o desemprego sobe, e as pessoas ficam mais pobres, sobrecarregadas pela pesada carga fiscal imposta pelo Estado. No país de Sócrates, a despesa está a ser controlada (apesar do Estado gastar mais do que gastava anteriormente), a economia cria emprego e cresce como o feijão mágico da lenda (como se esse crescimento não se devesse a um efeito de arrasto, promovido pelo crescimento da economia internacional, e portanto particularmente frágil numa altura em que se teme um significativo abrandamento da dita).
No país dos portugueses, a educação não gera mais do que desempregados ignorantes. No país de Sócrates, a educação é uma "aposta no futuro" que está a "ser ganha" pelo Governo.
No país dos portugueses, àcerca do futuro, só há incerteza e desespero. No país de Sócrates, tudo corre às mil maravilhas e nada do que se passa "lá fora" nos afectará, de tão "bem preparados" que estamos (como a estagnação dos salários, o desemprego e as falências certamente comprovam).
No país do Primeiro-Ministro, só habitam os membros do seu Governo, assessores bajuladores e jornalistas receosos de o confrontarem com a realidade, e a única preocupação de Sócrates são as eleições às quais ele finge não saber se vai concorrer. No país real, cada vez mais devemos temer que Sócrates comece mesmo a acreditar na fantasia que quer vender aos eleitores. Pois serão estes últimos a pagar o preço.

17 fevereiro 2008

GOVERNO E “OPOSIÇÃO” VESTEM DE ROSA!...

Sócrates, está agora mais preocupado que nunca!...
Temendo a renascida alma socialista, que está a contagiar grande parte do Partido, e que por arrastamento se pode apoderar do Primeiro-Ministro, não deixa também indiferente o Presidente da República.
Quer tudo isto dizer, que no espaço de duas semanas, o deputado Manuel Alegre, se transformou na mais destacada figura da nação. E transformou-se na mais destacada figura da nação, porque durante a última semana, se discutiu a possibilidade do ex-candidato presidencial voltar a romper com o Partido Socialista, desta vez promovendo uma cisão, que presumivelmente impediria uma maioria, ou mesmo a vitória socialista em 2009.
Na sexta-feira passada, Alegre deu uma entrevista ao jornal “Público”, onde deixou bem clara a insatisfação, já evidente no seu comportamento na Assembleia da República, ao longo dos últimos meses, com a governação de José Sócrates. Para além disso, no fim de semana cessante, reuniu-se com os socialistas pertencentes ao seu “movimento”, que alegadamente, pretende agora transformar numa “corrente de opinião” no seio do PS, que terá como objectivo, discutir o que é “ser socialista hoje” e formas de “revitalizar” a democracia.
Depois de lhe perguntarem se se candidataria à liderança do PS, Alegre garantiu que não. Porém horas depois, garantia que “se” os dirigentes socialistas “o desafiarem”, não se esconderá, mas que os enfrentará “no país”, e não onde o aparelho por eles dominado o possa controlar.
O discurso de Alegre, em si, nada tem de novo. Mas é tudo menos irrelevante. A sua importância não está no seu conteúdo, mas no facto de existir. A particular insistência de Alegre, e a forma agressiva como se pronuncia, mostram como a governação de Sócrates está dependente de uma frágil base de apoio social. Sócrates governa, em parte, com o “apoio” de gente que não concorda com a sua governação. Alegre manifesta-se (e manifesta-se assim tanto) porque sente que fala por muita gente a quem Sócrates deve o poder. Porque sente que, se Sócrates cair, é por ali que cai, e que portanto, se quer sobreviver, tem que dar ouvidos a Alegre e à “corrente de opinião” que ele quer representar.
Este, é mesmo o aspecto mais triste da realidade que a oposição de Alegre põe a nu: ele é que é, a oposição. A atenção, que durante toda a semana, foi dada a uma reunião que juntaria alguns obscuros militantes socialistas, tudo porque um singular deputado os convidou a participar, só é compreensível à luz da total inactividade do resto da oposição: o PCP, apesar da força social que ainda vai tendo, não tem a simpatia das televisões; o BE, apesar da simpatia das televisões, não tem força social; o CDS/PP, apesar da hábil escolha de temas com que ataca o Governo, sofre com a sua pequenez e a falta de credibilidade de Portas e o PSD opta deliberadamente por não fazer oposição, nem marcar a agenda politica.
Manuel Alegre transformou-se assim, pura e simplesmente, no rosto da única alternativa a Sócrates, que é oferecida aos portugueses e o resto é conversa fiada. E ao transformar-se na única alternativa, que é oferecida aos portugueses, “pintou o país de rosa”. Isto é: o governo é do PS, e a oposição também. À sua volta, está a irrelevância, o vazio, o silêncio, a vaidade e a falta de capacidade, para o combate político eficaz e responsável, de uma oposição cada vez mais desacreditada, que leva ao espírito dos cidadãos, a indiferença, a resignação, a insegurança e o sentimento de inevitabilidade, em que se vêem envolvidos.
Para a democracia e para os cidadãos, é o pior que pode acontecer num país.


10 fevereiro 2008

O POVO NÃO É ESTÚPIDO

GENERAL GARCIA LEANDRO E AS DECLARAÇÕES À SIC
As declarações do general Garcia Leandro, esta semana, na estação de televisão SIC, ainda que de algum modo inesperadas, foram seguramente frontais e lúcidas.
Ninguém estaria à espera que um General das nossas forças armadas, que à semelhança de seus camaradas de armas, têm mantido nesta terceira república uma “prudente” reserva, publicamente e para surpresa de todos, viesse afrontar de uma forma tão contundente e precisa, o sistema político vigente, passados que são trinta e quatro anos do 25 de Abril.
Garcia Leandro não é um qualquer General, é uma figura relevante e altamente conceituada nos meios militares, pelo que a convicção, o rigor, a clareza e o desassombro que manifestou nas suas afirmações às perguntas da jornalista, deixa antever que a análise política que descreveu da evolução política do País das últimas décadas, não será fruto de um impulso repentino, nem exclusivamente sua, mas comum aos mais altos corpos das forças armadas.
Disse o General: "Vivemos numa democracia de má qualidade, empobrecida, com a corrupção institucionalizada, com uma classe política gozando de privilégios obscenos, que eles próprios souberam criar e que ampliam ano após ano, à custa de mais impostos e cortes sociais, para seu exclusivo proveito. E, desta classe política que assim procede, não podem os portugueses esperar uma alteração radical dos seus comportamentos, das suas políticas". "Na verdade, o sistema político está podre, caduco e esgotado e a manter-se a sua continuação só poderá agravar continuadamente o desenvolvimento económico e as condições de vida dos cidadãos".
Bem hajam portanto as palavras de Garcia Leandro, que nos permitem pensar, que porventura, a mudança não estará tão longe como se afigura ao comum dos portugueses. As movimentações já começaram e Sócrates só tem uma solução: Ou arrepia caminho, ou já teve melhores dias. É que o povo, não é estúpido.