
Com a União Europeia, paralisada e governada, sobretudo, à direita, é difícil imaginar a mudança que se impunha. Vai demorar mais tempo do que se pensava e porventura haverá muito mais sobressaltos e violência.
É certo que por toda a parte a esquerda, desapontada, começa a debater novos caminhos e a libertar-se das soluções neoliberais que, em tantos casos, infelizmente, adoptou. O exemplo do descalabro do trabalhismo inglês da chamada "Terceira Via" é significativo. Apesar de Gordon Brown ser menos mau, no plano económico e estratégico, do que foi Blair, amigo e seguidor fiel de Bush. Mas se vierem, como é provável, os conservadores de David Cameron - e o referendo que ele já promete promover sobre a continuidade da estada na Europa - talvez o Reino Unido se afaste da União, o que não será, necessariamente, uma má coisa, mas a situação para os ingleses ficará pior, porventura mesmo muito pior.
Na Alemanha, a moderação da senhora Merkel faz com que a situação seja bem diferente. A sua vitória era esperada nas eleições europeias e é provável que se repita - vamos a ver - nas próximas legislativas. Porém, seja como for, não é de esperar que a grande coligação - democratas-cristãos, sociais democratas - se mantenha por uma nova legislatura. Desenha-se, à distância, uma nova coligação com sociais-democratas, verdes, liberais e os partidários de Lafontaine, que talvez tenha condições para se impor...
Nos quatro países da Europa do Sul - França, Itália, Espanha e Portugal - as situações são diferenciadas. E embora a direita tenha ganho nos quatro países, as situações divergem muito. Na França, o PS de Martine Aubry ficou em segundo lugar mas muito próximo de Os Verdes, liderados por "Dany Le Rouge", o herói de Maio de 1968. Ultrapassando, de longe, o Movimento Democrático de François Bayrou e a Frente de Esquerda, Cohn-Bendit julgou-se com força bastante para, na noite das eleições, fazer um apelo a uma coligação de esquerda para derrotar, em futuras eleições, o partido de Nicolas Sarkozy, cujas sondagens não são excelentes. Longe disso. As forças de esquerda estão, por toda a parte, a levedar no sentido de uma mudança que, no entanto, não será para já. Muitos talvez o não tenham percebido ainda.
A situação da Itália é incrivelmente pior. Depois de sucessivos escândalos, agora com menores, do Cavalieri Sílvio Berlusconi, divulgados em todos os jornais da especialidade, os resultados eleitorais deram-lhe uma vitória surpreendente e inexplicável. A pátria da literatura, da música e das artes converteu-se ao marketing e ao business... Uma tristeza, num país europeísta por excelência, como a Itália. Assim vai a Europa, outrora centro do mundo. Que contraste flagrante com a América de Barack Obama, única esperança do Ocidente neste tempo de mudança...
Espanha e Portugal são Estados mais parecidos, com uma evolução convergente desde o desaparecimento dos ditadores ibéricos e da nossa entrada comum na então CEE. A crise global está a ser mais dura na Espanha do que em Portugal. Por enquanto. O descontentamento em relação aos dois partidos do Governo - que se expressou, principalmente, na abstenção e na perda de votos - tem a mesma origem: o desemprego, as falências em cadeia, a impunidade de certos banqueiros, gestores e políticos, a falta de confiança nos partidos do Governo (porque são os que mandam) e o esquecimento de um passado recente.
Contudo, as eleições europeias são só isso mesmo: europeias. Não se extravasam, necessariamente, para as legislativas ou para as autárquicas. Mas podem criar um clima - e uma dinâmica - favoráveis às oposições, se não forem ouvidas as pessoas e não forem encontradas respostas ao que aí vem. Quanto antes...
2. Relativamente a Portugal, apesar do optimismo do PSD, a meu ver um tanto prematuro, mas natural, dado ter desmentido as sondagens e ultrapassado em votos o PS, a realidade mais palpável reside na perda de votos do partido do Governo: cerca de 600 mil votos. Trata-se de uma nova realidade, com a qual o PS tem de lidar com humildade, lucidez e sentido crítico, se quiser vir, de algum modo, a invertê-la, nos três meses que nos separam das legislativas com férias pelo meio. Não vai ser uma tarefa fácil. Não se deve, por isso, perder tempo.
A meu ver, o mais importante - e urgente - é recuperar os votos perdidos na abstenção, em votos brancos e nulos e nos que fugiram, dispersos, para outros partidos, por estarem descontentes com a crise global, importada, e talvez, também, pela maneira como o PS tem lutado contra a crise.
Antes de mais nada é preciso unir o PS - ouvi-lo, por todo o País - e dar-lhe um discurso político coerente. Dinamizá-lo em profundidade. O PS é um património dos seus militantes e simpatizantes. Depois, ouvir pacientemente as pessoas. Compreender os sinais que o eleitorado soberano quis dar aos partidos, porque está descontente com todos - embora com o PS, em especial, por ser Governo e, em primeiro lugar, com o primeiro-ministro, José Sócrates, que a comunicação social e os outros partidos, sem excepção, converteram, sistematicamente, no "bode expiatório" de todas as dificuldades e males que nos afectam. O que é extremamente injusto, como o futuro demonstrará. Mas a política é assim mesmo: ninguém dela espere gratidão!
Em segundo lugar, o PS não deve revolver o passado e tentar justificar-se. Não é isso que interessa às pessoas, no meu entender. Deve voltar-se resolutamente para o futuro. E explicar, por forma muito clara e sintética, quais as soluções alternativas que apresenta para "vencer a crise" e como pode ajudar, efectivamente, os portugueses, sobretudo os mais pobres e desfavorecidos - os trabalhadores, os desempregados, os pobres, os idosos, os jovens, privados do primeiro emprego, os imigrantes, os pequenos e médios comerciantes falidos, as classes médias em vias de pauperização - mas também as classes profissionais, enfermeiros e médicos, professores, magistrados em começo de carreira, polícias, baixas patentes nas forças armadas, funcionários, etc. E como ajudá-los em concreto - e por forma isenta - quer o Governo quer o partido que o apoia a serem menos afectados pela crise global, que está longe de terminar. Para isso é preciso uma estratégia com uma linha de rumo clara e novas ideias.
Por outro lado, importa ouvir e dialogar - o mais tardar até meados de Julho - com os sindicatos, as comissões de trabalhadores, as associações ambientais, de direitos humanos, de consumidores, etc. Não se trata de estabelecer acordos, mas tão-só de os ouvir - para perceber - e de confrontar soluções, alternativas e políticas possíveis. No mesmo sentido, acharia também útil que se ouvissem os partidos de esquerda - o Bloco de Esquerda e a CDU - não para fazer acordos, antes ou pós-eleitorais, não é tempo disso, mas para compreender como vêem o futuro próximo, que é bem possível, se houvesse uma nova derrota do PS, ficasse bem mais negro do que está.
Apesar do optimismo das hostes laranja, não me parece provável que o PSD possa ter maioria absoluta nas próximas Legislativas. Se tiver, entraremos noutro ciclo político. Não creio nada provável, porque o eleitorado não se esqueceu dos seus anteriores governos. Discutiremos então qual será a alternativa, contrastando com a do PS, como se ajustará às políticas da União e como acertar o passo com a nova América de Barack Obama? Obviamente, qualquer acordo com o PS, tipo Bloco Central, estará excluído à partida. Não haveria vergonha dos dirigentes actuais, de ambos os partidos, se assim não fosse.
Pelo contrário, um acordo do PSD com o CDS/PP será possível, ainda que não creio que possa ser maioritário. E se fosse seria mais do mesmo... Resta a esquerda. Mas como? Se a ligação entre PCP e Bloco é tão difícil e dos dois com o PS não menos difícil, até no plano pessoal. Há que deixar correr o tempo e ir fazendo os entendimentos possíveis.
Conclusão: a probabilidade de, nas próximas eleições legislativas, Portugal se poder tornar ingovernável é alta e perigosa, para a democracia e para o nosso futuro colectivo. É nisso que o nosso eleitorado, que sempre deu mostras de ser sensato, deve agora reflectir.


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