Apesar da sentença em primeira instância, o processo Casa Pia ainda não acabou, nem tão pouco se sabe quando e como irá acabar. Mas já é possível tirar importantes ilações.Primeira ilação: a inadmissível morosidade!...Seis anos é muito tempo...
Segunda ilação: os diferentes tipos de justiça –uma para ricos e outra para pobres!...
Terceira ilação: o mediatismo.
Primeira ilação: dever-se-à dizer que é inconcebível aquilo que se passa em Portugal, em matéria de justiça. Um sistema que permite o absurdo de ouvir mais de 900 testemunhas num só julgamento, muitas delas gastando saliva apenas com fins dilatórios, um sistema com excesso de recursos, sem prazos para nada, e expedientes que os advogados utilizam, não para ajudar a decidir melhor, mas para protelar e tentar confundir juízes, magistrados, procuradores e opinião pública em geral, não é, nem pode ser um bom sistema.
Segunda ilação: uma justiça para ricos e outra para pobres. Em pouco tempo, tivemos dois casos de pedofilia em Portugal. Um nos Açores, sem figuras conhecidas ou influentes, foi decidido no espaço de um ano. O da Casa Pia, envolvendo figuras mediáticas e poderosas, leva todos estes anos, não se vislumbrando, se é que algum dia se vai vislumbrar, o seu termo.
A verdade inconveniente é esta: A Constituição da República Portuguesa e o Código Penal Português, garantem a igualdade de todos perante a lei. Porém, o Código de Processo Penal promove a desigualdade. Face ao nosso labirinto processual, o que acontece é isto: quem tem dinheiro para contratar bons advogados e bons peritos arrasta os processos, e às vezes safa-se!...
Quem não tem posses sujeita-se aos mínimos, e amiúde, sofre as consequências.
Terceira ilação: o mediatismo. No processo Casa Pia e salvo a Juíza Ana Peres, só no dia da sentença o país ficou a conhecer a cara dos magistrados que decidiram. Durante anos, estes magistrados primaram pela discrição. Deram um excelente exemplo. Ao contrário, arguidos e sobretudo advogados transformaram-se em vedetas mediáticas. Foram uma má referência.
A justiça não se faz na rua ou nos media, de forma unilateral apelando à emoção. A justiça faz-se nos tribunais, com recurso ao contraditório, de forma sóbria, serena e com factos.
Estas três ilações não são as únicas que é possível tirar deste processo. Mas já são suficientes para obrigar a mudar um sistema processual, que se encontra mais que gasto, e que de razoável não tem nada..
Depois de assistirmos àquilo a que assistimos e que pelos vistos, vamos continuar a assistir, que mais será preciso para que o poder político e os profissionais da justiça percebam, que é urgente mudar de leis e os comportamentos?...
Que mais será necessário para pôr ordem na casa, e devolver prestígio e credibilidade à justiça?...




