02 março 2011

A BEM DA NAÇÃO!...

1.ª QUESTÃO

Aqui há umas semanas atrás, o Secretário-Geral do PSD, Dr. Miguel Relvas, designou os bónus e as remunerações dos Gestores Públicos, como “vencimentos pornográficos”. Tratando-se – penso eu – de uma pessoa de bem e tendo em conta, segundo a imprensa de hoje, que já se pensa “sacar” o 13.º mês aos funcionários públicos, a sua apreciação sobre tais remunerações, pareceu-me ajustadíssima à realidade do país, isto partindo do pressuposto – penso também eu -, que nenhum Gestor Público, deve auferir uma remuneração superior à do Presidente da República, enquanto Supremo Magistrado da Nação. Afinal de contas, todos são funcionários públicos, embora uns, com mais responsabilidades que outros.
Acontece porém, que na semana passada, o CDS, o PCP e o Bloco de Esquerda, apresentaram no Parlamento, propostas concretas para a redução de salários e mordomias desses mesmos Gestores Públicos, e perante tal facto o que aconteceu: O Bloco Central, formado pelo PS e pelo PSD, votaram simplesmente contra…
Ora face a tal situação, há duas ilações a tirar: a primeira, que o PSD, pela voz do seu Secretário-Geral, tem dois discursos!... Um para fora -para o “Zé” ouvir, e outro para dentro -que é o que prevalece.
Resulta de tudo isto, que nesta matéria, PS e PSD, são “farinha do mesmo saco”. E são farinha do mesmo saco, porque ambos recorreram aos mesmos argumentos , para justificar o seu voto!... “que não devemos ser miserabilistas, porque tais Gestores podem abandonar o país; que não devemos aplaudir discursos demagógicos, porque reduzir os salários desses Gestores não resolve os problemas do país; que o populismo é um perigo para a democracia; que os Partidos dos extremos são irresponsáveis e estão sempre a tentar ganhar votos com propostas populares”, enfim…, toda uma série de argumentos, que não lembram ao diabo. Agora digo eu: Mas alguém acredita, que lá fora, querem esta gente, a ganhar o que ganha e a fazerem o que fazem por cá?... Alguém acredita, que se “pirariam”?!... E para onde, se toda a gente sabe, que Portugal paga as mais altas remunerações da Europa aos Gestores Públicos?!... É evidente, que os custos relacionados com tais gastos, não resolvem o problema do país!... Mas não seriam valores bastantes, para acudir a situações de emergência, que se encontram desprovidas de verbas?!... Os argumentos do PS e do PSD nesta matéria, mostram apenas uma coisa: Os dois, estão vergados aos interesses particulares nas administrações das empresas públicas e à satisfação do respectivo clientelismo, que é muito.
O mais grave porém, é a cegueira de manter uma situação que se tornou insustentável, mais que não seja, pelos danos que tal conduta causa à democracia e à confiança numa classe politica que se pretende séria. À mulher de César não basta ser séria… e uma sociedade onde os intocáveis se governam como querem à conta dos dinheiros públicos, enquanto outros cidadãos sobrevivem como podem, é uma sociedade sem qualquer futuro…
Cá por mim, continuo a defender a mesma tese: O vencimento do Presidente da República, tem obrigatoriamente de estar no topo da pirâmide. A BEM DA NAÇÃO…

2.ª QUESTÃO
Não conhecesse como conheço, o Prof. Rui Sá Gomes, actual Director-Geral dos Serviços Prisionais, meu distinto mestre na Faculdade de Direito de Lisboa e com quem privei de perto, quando da sua passagem pela Secretaria de Estado da Administração Interna na última legislatura, não traria aqui à colação, o episódio ocorrido com um preso, no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, e que tanta “tinta” tem feito correr, lá para as bandas de S. Bento.
Que fique desde já a saber-se, que o Prof. Sá Gomes, é um distinto defensor dos direitos humanos e que a operação, não foi levada a cabo de ânimo leve. As imagens, foram transmitidas pelas diversas televisões, como se de um acontecimento nacional se tratasse e mostravam um preso semi-nú, a ser imobilizado com o disparo de uma Taser (arma eléctrica) dentro de uma cela, que o recluso se recusava a limpar. Uma cela onde comia e defecava, uma cela cujas paredes eram utilizadas para escrever frases provocatórias com as próprias fezes, enfim… uma cela na mais abjeta imundície, com risco para a sua própria saúde e para a demais população prisional.
Não tenho dúvidas, que as imagens são perturbadoras!... Mas como lidar com uma situação destas?!... Como lidar com uma situação, protagonizada por um alto cadastrado, que já percorreu diversas prisões do país, e cujos métodos utilizados, são apenas comparados aos dos membros do IRA?!... À boa maneira da Guarda Britânica?!...Ou será, que lá para os lados de S.Bento, haverá alguma varinha mágica, para substituir a Taser?!...
Costuma dizer-se na minha terra, que “vozes de burro não sobem aos céus”!... Isto para argumentar – com conhecimentos de causa -, que os meios utilizados foram os mais adequados e os menos penalizantes. Porém, é bom que se diga, que entre a Guarda e os delinquentes, manda o politicamente correcto, que se crucifiquem os primeiros e desculpem os segundos. Mas… só até a “sorte” lhes bater à porta, porque depois logo mudarão de ideias. Mas o que é estranho, é que perante factos destes, ainda falam em populismo… A BEM DA NAÇÃO…

3.ª QUESTÃO
As noticias sobre pessoas idosas, encontradas mortas na sua solidão e ao abandono, continuam a marcar a agenda dos noticiários. Quer isto dizer, que estamos na presença de um país que não é para “velhos”!... Mas pior que tudo, é que parece não ser, nem para velhos, nem para novos. Da geração mais envelhecida da Europa, que vive “sabe Deus como”, à geração “à rasca”, dos quinhentos euros que vive em casa dos pais; da geração da quarta classe, à geração das múltiplas licenciaturas sem trabalho; da geração da verdadeira música de intervenção de personagens como Zeca Afonso e Adriano, à geração “parva” dos Deolinda, que nunca se mobilizou para nada, a não ser para o comodismo cívico e politico; da geração até aos quarenta, que pouco ou nada se tem preocupado com a vida politica do país e é hoje profundamente flagelada pelo desemprego, pelo trabalho precário e pelas medidas anti-sociais do Governo, pede-se muito mais. No próximo dia 12 em Lisboa, juntar-se-ão pela primeira vez, os que tiveram expectativas, mas não as viram concretizadas; juntar-se-ão os que estudaram, os que conseguiram licenciaturas, mas não têm trabalho; juntar-se-ão os que querem assumir a sua própria vida e não têm condições para o efeito; juntar-ser-ão os que olham para o seu futuro já hipotecado e se questionam sobre o que será a sua vida; juntar-se-ão os que estando “à rasca”, não sendo eles rascas, e vêm gente que o sendo, sobrevive à grande e à francesa. Posto isto se pede:Pela primeira vez nas vossas vidas, não permitam a usurpação dos vossos direitos!... Berrem, critiquem, participem, exerçam o vosso direito de cidadania e façam-no por todas as gerações. Pelo “velhos” desamparados, pelos “novos”, pelos excluídos e por aqueles que não tendo “padrinhos” nem canudos, estão condenados a viver “à rasca”. Só assim conseguiremos um país melhor… A BEM DA NAÇÃO…

24 fevereiro 2011

A VERDADE SOBRE AS CAUSAS DE UMA CRISE, SEM FIM À VISTA…

Todos sem excepção!... Políticos, politólogos, economistas e toda a espécie de “comentaristas do sistema”, não se cansam de repetir a toda a hora e a todo o momento, nos meios de comunicação social ao seu dispôr, que os cidadãos portugueses estão a viver “acima das suas possibilidades”.
Vivendo esta gente, confortavelmente do “sistema” e para o “sistema”, tentam assim, com os poderosos meios de que dispõem, disseminar a sua “ideologia” para dessa forma perpetuarem os privilégios que ao longo das últimas décadas souberam acumular.
É preciso dizer basta!... É preciso dizer que toda esta conversa, não passa de uma falácia, de uma mentira, e que tem como único objectivo – em parte já conseguido - fazer aceitar passivamente as medidas de austeridade que ultimamente têm recaído sobre quem trabalha e preparar a plebe para outras que estão já na forja.
Será que estes mentirosos-profissionais, ignoram que 2 milhões de portugueses vivem abaixo do nível de pobreza?!... Que milhão e meio de cidadãos vivem com pensões inferiores a 330 euros (Cf. http://resistir.info/e_rosa/pensoes_2008_09.html)?!... Que mais de 660 mil portugueses estão desempregados?!... Que mais de 1,4 milhões de trabalhadores recebem um salário inferior a 600 euros (Cf. http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1688898), ou que a média salarial dos 3,8 milhões de trabalhadores por conta de outrem não chega aos 780 euros mensais (Cf. http://www.fnsfp.pt/pdf/ER06012011.pdf)?!... Eles não ignoram, eles sabem, mas... porque não lhes interessa,  fazem-se esquecidos. E fazem-se esquecidos, porque a esta gente, pouco importa a situação económica de 85% dos cidadãos portugueses, pouco importa a recessão que já grassa no país, o desemprego dos jovens, a precariedade do emprego, a situação dos pequenos e médios empresários, e até o futuro já hipotecado dos nossos filhos, a quem caberá pagar a factura de grande parte dos desmandos desta politica.

Mas vamos a factos: Em 1999, a dívida pública do Estado, não ultrapassava os 51,4% do PIB - abaixo portanto dos 60% recomendados pela UE - e a dívida externa líquida não ía além dos 33,1% do PIB. Ora sendo assim, o que mudou então tão radicalmente na economia portuguesa, para que tais dívidas tivessem um incremento tão abrupto, crescendo a dívida pública e a dívida externa líquida, para valores incomportáveis, superiores a 115% e 130% respectivamente, e que condicionam, por imposições externas (UE), toda a nossa vida social e económica?!...
Será que nestes dez últimos anos, a população portuguesa usufruiu de toda esta riqueza numa tal proporção?!...
Será que os salários ou as pensões dos trabalhadores duplicaram?!...
Será que as benfeitorias do Estado duplicaram?!...
Será que o chamado “estado social” duplicou os seus apoios sociais numa tal proporção?!...
Toda a gente sabe que não!... Toda a gente sabe, que os aumentos salariais e os apoios sociais foram superiores na década de 80 e 90, sem que tenha havido semelhante descontrolo financeiro. Ora sendo assim, a que se deve então, o estado deplorável das contas públicas?... Não terá tudo isto a ver com os lucros exorbitantes da banca e das empresas monopolistas nacionais, com o número de órgãos parasitários do Estado, com os vencimentos principescos de determinados gestores públicos, com a corrupção institucional, com a corrupção e os buracos no sector bancário, com o despesismo incontrolado, com contratos megalómanos de conveniência politica, com o dinheiro do erário público oferecido às instituições financeiras, agora pomposamente designadas por mercados?!...
Na verdade, mantendo-se o nível salarial e os apoios sociais praticamente constantes nesta última década, existindo um aumento crescente da riqueza nacional - em 1999 o PIB era de 144.193 milhões de euros e em 2010 de 170.000 milhões de euros -, permanecendo estável o número de habitantes e não existindo portanto diferenças significativas nas condições sociais dos cidadãos, entre o início e o fim da década, que outras obscuras razões existirão então, que não estas, que obrigam a nossa elite dominante a apregoar, só agora e com tanta insistência, “que vivemos acima das nossas possibilidades”?!...
É preciso dizer a esta gente, que o capitalismo produtivo e o mundo laboral, se encontram completamente à margem desta crise!... Sem margem para quaisquer dúvidas... É preciso dizer a esta gente, que não nos tomem por “toscos” e que os grandes responsáveis pela chamada crise, foram e continuam a ser os mesmos de sempre, a que se junta agora, a especulação financeira, as instituições financeiras e o capital financeiro.
A especulação financeira cada vez mais imaginativa, e movimentando cada vez maiores quantidades de dinheiro, fruto dos elevados rendimentos oferecidos, numa espiral de ganância incontrolável, com múltiplos e cada vez mais sofisticados produtos financeiros, ergueu uma fantástica e monstruosa pirâmide que não quer perder. Enquanto perdurou, acumulou ganâncias enormes que se alojaram em paraísos fiscais, quando entrou em decadência, provocou enormes perdas nas instituições financeiras, que os vários governos se vêm agora “obrigados” a cobrir... através da imposição de novos e mais gravosos impostos, cortes sociais e redução de salários.
Portanto meus amigos: Não se trata de “vivermos acima das nossas possibilidades”, trata-se isso sim, de aceitarmos ou não, a mais profunda e abrupta alteração de rendimentos entre a maioria, e uma minoria que mantém intactos os seus previlégios, entre uma elite dominante e uma maioria constituída não apenas de trabalhadores mas igualmente de empresários - o capitalismo financeiro actual ataca não somente os trabalhadores mas também os pequenos e médios empresários - trata-se de um agravamento abrupto das desigualdades sociais, trata-se enfim… de aceitarmos ou não, o suicídio económico e social de um país e consequentemente até a sua própria soberania.

17 fevereiro 2011

ESQUECIMENTO!...

Conheço muitas pessoas que carregam a dor da tragédia, a perda de um amado ou a falta de um amigo embrulhados em papel de esquecimento, duro, rugoso, o suficiente para esconder o conteúdo durante o tempo que lhes resta na incessante procura de futuras, mas fugidias, belas memórias. Uma forma de “esquecer”, que a mente humana sabe utilizar, relegando as más memórias para lugares onde não possam causar muitos danos, uma bênção. Abençoado esquecimento, fingido, mas, mesmo assim, duplamente abençoado. Que seria de nós se não fossemos capazes de esconder o sofrimento fechando-o a sete-chaves nas gavetas da memória?!... Enlouquecíamos!...
É pena que esta capacidade em não recordar se estenda a outras situações. Nos últimos tempos têm sido relatados casos de pessoas idosas que morreram esquecidas, que não é mais do que a expressão de uma faceta cruel da forma de ser e de estar de muitos humanos. Muitos esquecem-se dos mais idosos, outros esquecem-se, rapidamente, de quem lhes deu a mão em momentos cruciais, há quem se esqueça do seu passado, substituindo-o por algo grandiloquente e falsamente aristocrático, há os que nunca se lembram dos feitos dos seus, há também os que se entretêm a apagar o passado dos outros, recriando-o a seu belo e despudorado prazer e há os que gozam em apagar a memória do futuro, roubando-a ou afogando-a, por antecipação, no esquecimento. São muitos os ladrões e os tipos de roubos da memória. E há os que, infelizmente, se esquecem de si próprios, porque a natureza assim o determinou ou a sua dedicação a outrem o exigiu.
Não vejo razão para tanta admiração com os “mortos do esquecimento”. A construção da sociedade é feita nessa base, no esquecimento. Esquecer sempre. Se olharmos em redor, vemos preocupantes sinais de esquecimento, caso de muitas pessoas, entre os quais jovens, esquecidos e humilhados por uma sociedade sem memória. Estão à espera de que um dia cultivarão a memória?!... Para quê?!...
Prezo muito a memória, apesar de começar a detectar alguns buracos por onde tendem a escapar belas recordações. Tento retê-las, vivê-las, reformulá-las e até inventá-las. Há memórias que inventamos, porque é a única forma de viver certos momentos dos quais não temos outra forma de os recordar. Vivemos muitos acontecimentos ao longo da vida, mas muitos só adquirem significado no presente, e outros ainda têm de esperar pelo futuro, para que consigamos vê-los com olhos de ver. As memórias não são estáticas, vivem e modificam-se com o tempo. Quando abordo algumas das minhas memórias, confesso que não são descrições rigorosas dos factos que vivi na altura com os sentidos do corpo ou a paixão da alma, nem podiam ser, são descritos com a nostalgia e a saudade do presente, uma forma meio impressionista de pintar os quadros da memória e de memória. O que eu pretendo é despertar sentimentos e transmitir alguma beleza, aproveitando o esquecimento ao substituir o que falta e a transformar o que ainda resta numa criação da alma.
Até os meus mortos, que não esqueço, se apresentam hoje com aspectos diferentes, moldados pelo tempo, pelas vivências e por um belo esquecimento, esquecimento que alivia a dor armazenada na memória, mas que ajuda a saborear o prazer de um momento, momento esse que espera transformar-se um dia em memória e em esquecimento...

11 fevereiro 2011

MOÇÃO DE CENSURA DO BLOCO, É PARA "INGLÊS" VER...

Não tenhamos ilusões!... A moção de censura que o B.E., diz ir apresentar na Assembleia da República em 10 de Março próximo, é chover no molhado. Em primeiro lugar, porque ninguém quer ficar vinculado, a uma censura ao Governo, vinda donde vem!... Em segundo, porque ao  PSD, não convém para já, uma queda prematura desse mesmo Governo. Aliás, não é por acaso, que Pedro Passos Coelho veio já a terreiro, para refrear alguns ânimos já muito exaltados...
Portanto e ao contrário do que muita gente poderá pensar, como fruta na árvore, o PSD aguarda que ela amadureça a seu gosto. Este PSD espera muito ainda de Sócrates e do seu Governo.
Quando Portugal se encontra numa profunda crise orçamental, financeira, económica e social, e se avizinha, previsivelmente em meados de Março, o seu resgate, com a intervenção do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), com novas imposições de políticas anti-sociais mais gravosas, como por exemplo o aumento da idade da reforma, entende o PSD não ter nada a ganhar com o derrube do Governo neste momento. Aguarda, por um lado, que o ónus das medidas restritivas e de agravamento das condições sociais da generalidade da população recaiam sobre Sócrates, e por outro, que o governo acelere a implantação de todas as medidas políticas neoliberais que ainda tem em carteira.
O PSD, espera assim, que Sócrates execute tão amplamente quanto possível o ideário anti-social que aí vem, e só quando não tiver mais para oferecer, só quando se encontrar esgotado o seu programa daquilo a que um dia chamou de esquerda moderna, depois do fruto maduro e antes que caia podre da árvore, se apresentará Passos Coelho a tomar o poder.
Significa tudo isto, que a moção do Bloco de Esquerda, mais não significará, que um longo e penoso calvário que Sócrates ainda terá de percorrer.
E já agora, diga-se em abono da verdade, que para Cavaco Silva, conquistado o seu objectivo primeiro - a reeleição - pouco importa o momento da entrada do PSD no Governo. Para o Presidente da República, Sócrates e Passos Coelho, de "quem tanto gosta" são ambos face de uma mesma moeda, de uma má moeda - como um dia lhe chamou -, que a contra gosto, terá que suportar.

04 fevereiro 2011

A HISTÓRIA REPETE-SE!...

Nem  a famosa frase de Jorge Sampaio, ao argumentar que "há mais vida para além do défice..." nos salva...
Em plena ditadura, e já no chamado auge da sua governação, Salazar afirmava: «A nova geração porém já não viu ou não se lembra do que nós vimos ou sofremos. Não assistiu ao descalabro das finanças e da moeda, à ruína da economia, ao assalto da propriedade, à desordem da rua e dos espíritos, aos assassinatos dos inimigos políticos e dos militares de prestígio, aos insultos e vexames da gente honesta nas praças e nas cadeias, às campanhas anti-religiosas, à «justiça popular», à instabilidade governativa, à indisciplina e afundamento dos órgãos do Estado, ao riso escarninho do mundo perante uma gloriosa Nação multi-secular que, parecendo não querer viver em paz, não fazia ao menos revoluções mas sangrentos motins. Isto sentimos e tivemos ontem sem que hoje quase se lhe note o rasto.»
Hoje a história repete-se!...A liderança da União Europeia  - o Conselho Europeu, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia - reafirmou uma vez mais que penalizará com multas severas (pagas pelos contribuintes) os países da Eurozona que não cumpram com os Pactos de Estabilidade. Tal como Salazar um dia disse, esta medida reflecte que tal desiderato está plenamente submetido à ideologia neoliberal, que ignora as dificuldades e os sacrificios do povo e que por via de tal, se torna num obstáculo à saída da recessão. Estas são as novas formas de submissão, e a conquista dos povos pelo garrote...

Hoje, ninguém tem dúvidas, que as medidas de austeridade do gasto público pioraram a crise. O encerramento e o fechar de portas de múltiplas pequenas e médias empresas a desaceleração do minúsculo crescimento ocorrido nos últimos meses de 2010 e  o aumento do já elevadíssimo desemprego são exemplo disso mesmo.
Mas o mais grave de tudo, é a constatação de que estamos perante a repetição da história, embora em moldes diferentes!... Tal como dizia Salazar, quando apregoava que era preciso colocar as contas públicas na ordem, hoje assistimos ao reavivar de tal discurso, pelos "donos" da UE. Esquecem porém esses cavalheiro(a)s, que tal como as teses salazarentas, as suas ideias, se baseiam numa leitura errada das causas da crise do euro. Assumem esses senhores, que a crise do euro se deve ao excessivo esbanjamento do gasto público em países como Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha e que se os governos destes países se tivessem comportado e sido tão disciplinados como os países do centro e do norte da Eurozona, hoje não estaríamos na situação em que nos encontramos. Mas será que esta gente, tem noção do que são efectivamente gastos públicos?!... Será que não confundem ou misturam gastos públicos, com os ditos-gastos públicos, que apenas servem para alimentar a corrupção e dar guarida ao clientelismo ?!... O que é extraordinário é que este dogma se reproduza quando é fácil de ver que esta versão dos factos não corresponde à realidade. Cada um destes países, tem a despesa pública por habitante mais baixa da Eurozona.
Significa isto, que ao contrário do que se diz, o problema destes países não se deve ao inexistente “excessivo gasto público” ou ao "exuberante estado de bem-estar”, como dizia Salazar e estes o reafirmam,  tanto mais que a despesa pública per capita, como a despesa social per capita, estão muito abaixo da média da UE-15, mas sim aos desmandos do sector privado. Portugal é um exemplo disso e só o buraco de cinco mil milhões do BPN, a que acrescem tantos outros buracos, que o Estado se vê obrigado a tapar, não deixam dúvidas a ninguém... a não ser, à bafiosa politica salazarenta, que vai proliferando por essa Europa fora.

28 janeiro 2011

A VIA SACRA DO EURO!...

Os juros da Divida Pública a 10 anos encontram-se hoje novamente acima dos 7% (7,09). Não se adivinha circunstância alguma no país que possa inverter o ciclo de subida destes juros nos mercados. Ao contrário, a tendência será seguramente para uma subida continuada. Aproxima-se assim, a hora do pedido de resgate ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Os aumentos de impostos, a redução de salários e o congelamento de pensões, irão contribuir além do mais, para uma acentuada recessão económica em 2011, já prognosticada aliás pela OCDE e pelo FMI e nunca para a recuperação económica desejada. O recurso, mais fácil mas ineficaz, de aumento de impostos a que o governo tem recorrido encontra-se esgotado e ultrapassou de há muito o “ponto de equilíbrio” acima do qual qualquer aumento da taxação em vez de provocar aumento de receitas provoca exactamente o contrário, isto é, uma redução de receitas.
Posto isto, temos Portugal aparentemente pronto para um humilhante resgate da UE e do FMI e as conversações sobre a ampliação do fundo de estabilidade, crescem as tensões na eurozona. A culpa recai nas divergências entre os líderes europeus e o grande problema de comunicação na Europa.
Tivemos à dias conhecimento de um episódio interessante: Quando Angela Merkel se encontrava imersa em conversações sobre a crise do euro, o telefone tocou na reluzente chancelaria de Berlim. Do outro lado da linha, estava o primeiro ministro português José Sócrates, que desde Lisboa, suplicava por ajuda. Segundo os prognósticos, Portugal será o terceiro país a cair com o peso da sua dívida soberana, pelo que necessitará de um resgate liderado pelos alemães. Sócrates parecia desesperado e submisso, segundo testemunhas.
Perguntou a Merkel o que deveria fazer, prometeu fazer o que quer que fosse, com excepção de uma coisa: não pediria um resgate com condições extremamente duras. Segundo as versões que circulam em Berlim, Merkel manteve Sócrates em espera, enquanto pedia opinião aos seus poderosos visitantes: Dominique Strauss-Kahn, o director francês do FMI e Giulio Tremonti, o respeitado ministro dos negócios estrangeiros italiano que esteve recentemente pressionando pela introdução dos “eurobonds”. Ante as interrogações de Sócrates, Strauss-Kahn, o chefe do FMI que fala alemão, mostrou-se indiferente. A súplica do português não tinha sentido, afirmou, porque Sócrates não seguiria nenhum conselho que se lhe desse.
Esta situação que se produziu a semana passada em Berlim, mostra o que um alto funcionário alemão descreve como “o grande problema de comunicação da Europa”. No meio de uma das piores crises da UE de todos os tempos, o nível de confiança entre os principais líderes políticos e os responsáveis pelas decisões é tão baixo, que complica enormemente a procura de uma solução ante o desafio existencial do euro.
Os fundamentos económicos na eurozona tomam direcções opostas: a Alemanha e o norte da Europa saem reforçadas da recessão, enquanto o sul da Europa está imerso num círculo vicioso de dívida e deflação. Esta situação e os problemas da dívida soberana de meia dúzia de países colocam em risco o euro. Contudo os perigos agravam-se com as fricções entre os líderes políticos encarregados de resolver a crise. No mesmo dia em que Berlim fez caso omisso de Sócrates, José Manuel Durão Barroso, o presidente da Comissão, anunciou em Bruxelas que o fundo de resgate do euro deveria reforçar-se. Publicamente Merkel e o seu ministro de Finanças Wolfgang Schauble, qualificaram a intervenção de Barroso de desnecessária. Em privado, o gabinete da chancelaria disse a Barroso que se calasse, que os 440.000 milhões de euros garantidos pelos governos da eurozona não eram da sua incumbência, já que não era dinheiro da Comissão.