No inicio da década de 80, quando da passagem da Aliança Democrática - formada pelo PSD/CDS/PPM - pelo Governo de Portugal, o défice das transacções correntes, subiu de 5 por cento do PIB em 1980, para 11,5 por cento em 1981 e 13,2 por cento em 1982. Para pagá-los, a dívida externa subiu de 467 milhões de contos em 1980, para 723 milhões em 1981 e para 1.199 milhões em 1982. Tal como agora e face ao défice em crescendo, os mercados financeiros estavam à beira de fechar a torneira e na ausência de respostas do dito Governo da Aliança Democrática, surgiu o bloco central (PS/PSD), presidido por Mário Soares e Mota Pinto.
No ano seguinte, em 1983 portanto, a inflação chegou a atingir os 30% e com as constas públicas no caos, os “amigos” Willy Brandt e Mitterand, não tiveram dúvidas: A Portugal não restava outra coisa, senão solicitar a intervenção do Fundo Monetário Internacional. Mário Soares e Mota Pinto, não se fizeram rogados, e “em nome da Europa Connosco", não se inibiram de pedir sacrifícios aos portugueses, sem os quais não era possível o saneamento das contas públicas e a consequente adesão à então CEE-Comunidade Económica Europeia.
Contas feitas, o Governo optou então por recorrer ao FMI, não sem suscitar veementes críticas dos Partidos à sua esquerda, à sua direita e mesmo de distintas figuras do próprio PSD que fazia parte do Governo. "Evidentemente que havia alternativas", defendia na altura João Salgueiro, uma dessas ditas figuras. "Nós temos reservas substanciais que podíamos mobilizar, só que em termos de conveniência, é muito mais custoso mobilizar recursos do que fazer um acordo com o FMI."
As negociações iniciaram-se a 18 de Julho de 1983. A delegação do FMI era chefiada pela italiana Teresa Ter-Minassian, conhecida pela sua elegância e simpatia, mas pela dureza a negociar. A carta de intenções foi assinada a 9 de Agosto e o Fundo desbloqueou os apoios necessários - 300 milhões de dólares para financiamento da dívida e 100 milhões para quebras de exportações (vejam só o que isto significa). Mas a terapia foi pesada. Redução do défice de transacções correntes de 9,3% em 1983, para 6% em 1984. O défice orçamental deveria passar de 11,7 % em 1982 para menos de 10 % em 1983 e 7,3 % em 1984. Para reduzir as importações, era preciso cortar nas despesas dos portugueses e do Estado. Foi então decidido, como descreve o relatório do Banco de Portugal de 1983, um "forte aumento dos impostos directos e indirectos (a que hoje chamam de IVA), a redução de despesas do sector público administrativo e o congelamento de parte das despesas de investimento das empresas públicas", que teve a lógica consequência dos despedimentos para números que atingiram os 11% da população activa, isto, para além de ter sido criado um imposto extraordinário sobre rendimentos prediais, um imposto sobre capitais, um imposto profissional e o corte do subsídio de Natal, que depois de gerar grande polémica e uma guerra jurídica, foi ratificado por decisão do Tribunal Constitucional.
Mas se todas estas medidas pesaram, e de que maneira no bolso dos portugueses, o principal objectivo tinha sido conseguido: Sanear as contas públicas e bater à porta da Europa Connosco, que faria de Portugal um país “moderno” e de “sucesso”, á semelhança dos seus parceiros europeus da época.
Gasto, enfraquecido e contestado até ao “tutano”, como consequência das medidas impostas aos portugueses, quem viria a beneficiar de tal situação, foi Cavaco Silva. Isso mesmo: Em 1985, fruto do desgaste do Governo do Bloco Central, Cavaco Silva é eleito primeiro-ministro, e herda um país já inserido na Comunidade Económica Europeia (CEE).
Um período de “fartura”!... Muita fartura… Os fundos comunitários não paravam de aterrar em Portugal, mas o país para além de gastar mais do que produzia, ainda canalizava os fundos para todo o lado, menos para onde os devia canalizar. È aqui, que nasce o “monstro”… o monstro que ainda nos consome...
Hoje não restam dúvidas!... A entrada de Portugal na CEE, hoje denominada UE, e as medidas económicas e financeiras que desde então, esta sempre decretou, associadas aos venais erros de governação, que desde a respectiva adesão se vieram a verificar e à crise internacional, são a consequência lógica da situação económica e social catastrófica em que mergulhou o país. Como é possível a sobrevivência económica de uma nação, que importa anualmente artigos de primeira necessidade (e apenas destes), cujos custos orçam no montante de 1.700 € per capita, o que multiplicado por 10 milhões de portugueses, significa uma gasto de 17 mil milhões de euros?!... Para mal dos nossos pecados e com o beneplácito dos nossos Governos, foi isto mesmo que os poderosos da UE nos impuseram.
Mas há mais:
Mas há mais:
Nos traços fundamentais da política económica da UE ressaltam ainda:
1-As políticas de juros e crédito fácil, que deu origem a uma desenfreada e insustentável especulação urbanística, imobiliária e financeira;
2- As medidas incentivadoras da desindustrialização nacional, levando grandes empresas nacionais na área da metalomecânica à falência ou vendidas ao desbarato a consórcios estrangeiros, de que a Sorefame, Lisnave, Fundição de Oeiras e tantas outras são exemplos;
3- As politicas de abate e desinvestimento na industria das pescas;
4- As politicas de total desinvestimento na agricultura, acabando-se com a reforma agrária, a promoção desenfreada da emigração e a abertura incondicional do nosso país aos mercados do resto do mundo, politica que apenas favoreceu e favorece os países economicamente mais fortes e desenvolvidos da UE, permitindo-lhes o crescimento económico e a criação de emprego.
Mas como se tal não bastasse, a UE através das instituições financeiras, emprestava dinheiro a rodos e a juros baixos, aos bancos, ao Estado, aos particulares. O objectivo, era apenas um: Não produzam mas consumam os excedentes dos nossos produtos porque nós emprestar-vos-emos todo o dinheiro de que necessitem.
Mas como se tal não bastasse, a UE através das instituições financeiras, emprestava dinheiro a rodos e a juros baixos, aos bancos, ao Estado, aos particulares. O objectivo, era apenas um: Não produzam mas consumam os excedentes dos nossos produtos porque nós emprestar-vos-emos todo o dinheiro de que necessitem.
Todos os Governos foram no engodo, e despreocupados acreditaram que talvez, uma vez entrados na UE, os problemas se resolveriam, sob o grande guarda-chuva da UE, pensando mais em si e nas suas clientelas que no país, ao mesmo tempo que iniciavam e ampliavam a cada ano, uma paulatina mas profunda “reforma” na Administração Pública, com a criação de imensos órgãos do Estado parasitários, que ampliou a corrupção e elevou a despesa pública para níveis insuportáveis.
Hoje, com os juros da dívida pública a níveis proibitivos e com as necessidades de financiamento do Estado, constatamos que afinal a UE, longe de constituir uma solução para o atoleiro a que nos conduziram as suas políticas, que como bons alunos sempre seguimos, se comporta afinal, com a tão badalada “ajuda” do FEEF, do mesmo modo e da mesma forma e com os mesmos juros, que o FMI se comportaria com um qualquer país fora da zona euro em circunstancias iguais, o que constituirá seguramente uma profunda desilusão para aqueles que ao longo dos anos sempre endeusaram a UE.
Com este comportamento e com a crise, revela-se claramente a verdadeira natureza desta UE. Domínio decisório e absoluto da Alemanha, na defesa intransigente dos seus próprios interesses económicos e financeiros, funcionando o Banco Central Europeu com o único propósito de alcançar tais objectivos, enquanto o Governo oficial europeu, os comissários europeus, o parlamento europeu, se refugiam na maior obscuridade e no mais profundo silêncio sem qualquer iniciativa ou acção política abrangente e esclarecedora. Na verdade, seria ao Governo europeu a quem competiria discutir os problemas da crise e o modo de sair dela, a quem competiria discutir com cada país em dificuldades, as medidas alternativas necessárias e não à senhora Merkel. Mas não!... Tal como em 1983, alguém quer repetir a mesma história, a história em que única coisa que muda são os protagonistas. Em vez de Brandt e Mitterand, é agora a vez da “regente” e do seu assessor Sarkozy, imporem as suas regras. Este é um filme e um peditório para os quais já contribuí e que não quero, nem recomendo. Um filme, que possui a mesma orgânica e filosofia de esbulho do FMI-versão 1983 e que despreza em absoluto a envolvente nacional, as pessoas e as condições indispensáveis ao crescimento económico.
Tal como em 1983 afirmou João Salgueiro, "existem alternativas", "temos reservas substanciais que podemos mobilizar, só que em termos de conveniência, é muito mais custoso mobilizar recursos, do que fazer um acordo com o FMI."




