As últimas eleições demonstraram inequivocamente, que os portugueses se quiseram livrar de Sócrates e do seu Governo. A vitória eleitoral do PSD, mais do que um voto de confiança em Passos Coelho terá sido um voto contra o fustigado José Sócrates, ao longo desta legislatura. Temos que ser honestos!... O país estava cansado e Sócrates também…
Apesar de tudo e uma vez mais, retirando como é óbvio a elevada abstenção, os votos polarizaram-se em torno dos dois maiores partidos, PS e PSD, o que significa, que a regra se manteve, isto é: PS e PSD, são os partidos da alternância, não se constituindo por via de tal, outras verdadeiras alternativas de poder. Alternativas de poder, que possam gerar a confiança dos cidadãos, que se vêm sempre obrigados a “comer da mesma gamela”. O PCP, fiel e agarrado às suas concepções de sempre e o Bloco de Esquerda, errático nas suas políticas e práticas, e confuso nas suas concepções ideológicas, não conseguiram motivar os portugueses e obter uma votação capaz de se constituírem como alternativa. Contudo, é preciso ter atenção. Existe actualmente uma maioria da população portuguesa que não tem qualquer representação política, que não se revê nos partidos existentes e não tem assegurada a defesa política dos seus interesses. A elevada abstenção e algumas manifestações de cidadãos à revelia das centrais sindicais e poderes instituídos serão porventura a sua demonstração.
“ O mundo mudou”, ouvimos isto com alguma insistência no discurso político. E, na verdade, “o mundo mudou”, isto é: O capitalismo predominantemente produtivo, cedeu lugar nos últimos anos ao capitalismo financeiro. Foi uma transformação que alterou e continua a alterar profundamente a distribuição da riqueza produzida, o que tem provocado um aumento brutal das desigualdades sociais, uma dependência dos estados às oligarquias financeiras e um agravamento muito rápido e generalizado das condições sociais de vida dos cidadãos. Com as suas “reformas” neoliberais o capitalismo financeiro, conseguiu tornar os ricos astronomicamente cada vez mais ricos empobrecendo paralelamente a generalidade da população. As oligarquias financeiras aproveitando-se da “crise” financeira de que são responsáveis, pretendem sacar em sua insaciável ganância, os maiores rendimentos possíveis, retirando-os às populações através dos Estados endividados que dominam com novos e sucessivos aumentos de impostos, diminuição de salários e pensões e cortes sociais. Todos somos sacrificados, à excepção de uma reduzidíssima minoria. Todos os trabalhadores, os pensionistas, o pequeno comércio, os intelectuais e os pequenos e médios industriais. Hoje a luta social já não é entre a burguesia e o proletariado mas entre a esmagadora maioria da população (entre ela também a pequena e a média burguesia) e uma minoria financeiramente poderosa e dominante, as oligarquias financeiras. Nesta luta social que se adivinha como certa, e na ausência de entendimentos mais vastos e consistentes, que dêem confiança aos cidadãos, estou em crer que uma nova formação ideológica surgirá. Uma formação que advogue o desenvolvimento do capitalismo produtivo, uma distribuição da riqueza mais igualitária, uma democracia com controlo social efectivo, com rejeição absoluta da financeirização da economia e rejeição dos ideais neoliberais. Tenhamos consciência que na realidade “o mundo mudou”, não para aceitar as “reformas” neoliberais que nos querem impor mas para lutar contra elas com todas as nossas forças.





