Cavaco Silva foi reeleito com a promessa de uma magistratura activa. Quer se queira ou não admitir, o primeiro mandato de Cavaco pecou pelo défice de intervenção, particularmente quando os problemas do país reclamavam uma palavra ou uma actuação do Presidente da República. Cometeu mesmo um erro, que terá contribuído seriamente para o agravar das contas públicas e que ficará para a história política portuguesa: aceitou empossar um Governo minoritário e durante a respectiva governação, raramente se fez ouvir. E o que se lhe seguiu, é um facto que nos deixa ainda mais perplexos!... Se nem numa situação de instabilidade política, Cavaco Silva se fez ouvir, para que servirá então agora um Presidente com um Governo maioritário?!... Se o Presidente não serviu para nada, se não contribui positivamente para o país, quando o Governo estava “louco” e “enlouquecia” os portugueses como se diz por aí, qual será o seu papel a partir de agora, na presença de um Governo maioritário?!...
Quem votou em Cavaco Silva nas eleições presidenciais, não pode deixar de manifestar o seu desagrado com o desempenho do actual Presidente da República. Uma coisa é Cavaco desempenhar as suas funções de Presidente nos estritos termos da Constituição, fazendo uma interpretação demasiado formalista do cargo, outra - completamente diferente - é Cavaco interpretar os poderes do Presidente da República de forma tão restritiva que reduz à mais pura insignificância o seu papel no sistema político português. O Presidente, pode e deve ser mais interventivo. Infelizmente, não é isso que tem acontecido e o futuro não vai ser diferente. Isto é: O primeiro mandato foi mau; o segundo caminha no mesmo sentido. Numa altura difícil e com o país a caminhar não se sabe bem para onde, Cavaco Silva deveria ter actuado, deveria ter exercido os poderes conformadores que a Constituição lhe atribui e assim daria um sinal aos portugueses, de que estaríamos na presença de um Presidente activo e vigilante. A partir de agora, tudo será ainda mais fácil para ele. Há um Governo maioritário, há um consenso político (e até social - lembre-se que a esquerda, no seu conjunto, foi a grande derrotada nas últimas legislativas) sobre as medidas de austeridade previstas no memorando de entendimento celebrado com a troika - bastando ao PR acompanhar a execução das medidas pelo Governo, dizer umas banalidades de vez em quando, mandar umas mensagens para as Forças Armadas e promulgar as leis. Até porque tenho o feeling, de que com um governo PSD/CDS, Cavaco Silva muito, muito raramente irá suscitar a fiscalização de constitucionalidade de actos legislativos - e só em circunstâncias muito excepcionais vetará um diploma. Perante este cenário, somos levados a concordar com o entendimento popular de que estar Cavaco Silva no Palácio de Belém ou não estar, é a mesma coisa.
Estas considerações vêm a propósito do discurso da tomada de posse do Novo Governo. Mais uma vez - a enésima desde que ocupa o Palácio de Belém - o discurso valeu mais por aquilo que ficou por dizer - do que por aquilo que ficou dito. Numa altura em que o país vai entrar num novo ciclo político, com a aplicação das medidas que constam do memorando que alegadamente salvou o país financeiramente - as únicas frases que ficam do discurso do PR é o seu apelo à resistência dos portugueses, o facto de fazer sentir ao Governo que não pode falhar e a chamada de atenção à responsabilidade dos políticos. Pequeno detalhe: Cavaco é “actor” político principal. E sendo assim, também tem de contribuir, fazendo mais do que tem feito. Infelizmente, Passos Coelho, pode pois dormir descansado, pois a tão propalada presidência activa para além de não ter passado de um desabafo, terá que esperar por melhores dias…




