Quer isto dizer, que a descida de quatro níveis, com que recentemente fomos presenteados pelos agiotas da Moody`s, passando-nos à categoria de “lixo”, não surpreendem ninguém, e são a prova provada, que não é por nos “portarmos bem”, por fazermos o que nos mandem aqueles que veneram um só deus –o dinheiro do lucro, dos mercados e seus servidores, que nos passarão a tratar melhor.
Isto para dizer o seguinte: Tudo leva a crer que o ministro das Finanças terá sido alertado, alguns dias antes da decisão da Moody’s, em baixar o rating da dívida portuguesa para o nível considerado “lixo”. Num último esforço e para lhes agradar, o Governo impôs sacrifícios extra aos portugueses, designadamente através de um imposto extraordinário a incidir sobre o subsidio de natal, a privatização de duas das mais rentáveis empresas nacionais – REN e EDP – e o fim das Golden Share`s. Foram medidas de última hora, na desesperada tentativa de fazer recuar as intenções da Moody’s. Todavia, não produziram qualquer efeito, como não produzirá no futuro, neste exercício de força da agiotagem dos “mercados”, cujo objectivo é atingir a muito curto prazo a Espanha e a Itália, mesmo sendo detentora da 3.ª maior economia europeia.
Neste desafio do "gato e do rato", Portugal é apenas um pequeníssimo peão neste vasto jogo praticado pelas instituições financeiras globais. Especular com o euro, atacando-o pelos seus pontos mais fracos - Grécia e Portugal -, parece ser a estratégia desenhada. Com uma fraquíssima e incompetente liderança europeia, os seus objectivos estão facilitados, e sem grande esforço alcançarão todos os seus propósitos: sacar capital do enfraquecimento do euro, e continuar com a especulação das dívidas dos países mais débeis da União Europeia. Mas para além disto, há outra questão a ter em conta!..: Não são apenas as agências norte-americanas que conduzem a este estado de coisas. Os “tubarões” da Europa, a começar pela senhora Merkel, têm grandes responsabilidades nesta matéria. O Governo alemão e os media que o “serve”, têm procurado – e conseguido – transmitir à opinião pública, a ideia de que a Alemanha tem pago os desmandos de outros Governos, esquecendo-se frequentemente de sublinharem, que sem a União Europeia, o seu país nunca teria capitalizado aquilo que conseguiu até hoje e estaria numa situação bem pior do que aquela em que se encontra. Fizeram acreditar aos alemães, que o seu dinheiro era desperdiçado e servia para financiar governos corruptos e ineficientes. Todos sabemos, que a razão para o crescimento das dividas públicas e dos défices, tendo a ver efectivamente com deficientes governações, também resultaram da falta de regulação, sobre a banca e o sector financeiro em geral, regulação essa, a que o actual Governo alemão sempre se opôs, porque lhe convinha. No caso português, quem ignora, que a banca emprestava dinheiro a qualquer "bicho careta"?!... Quem ignora o montante actual do crédito mal parado, que todos hoje temos que suportar?!... Ora sendo assim, das duas uma: Ou a Europa e o BCE, arrepiam caminho, ou será o principio do fim…
Ainda no caso concreto português, o nosso futuro joga-se entre a bancarrota ou vencer a crise para nos colocarmos na linha da frente dos Estados europeus. Tenhamos porém presente, que esta última possibilidade é só um pouco melhor que a primeira. E é apenas um pouco melhor, porque a Europa está num caos e o nosso lugar, de tão pequenos que somos, ficará por definir no meio dos “tubarões”. Significa isto, que uma vez resolvida a nossa crise, ficaremos mergulhados na crise da Europa.
Sejamos francos: Não se vislumbra actualmente no futuro da Europa, uma réstia de luz, uma réstia de esperança. A crise que atravessamos, é reveladora de todo um conjunto de relações perturbadas entre os Estados que compõem a União Europeia. Não vale a pena “enterrar a cabeça na areia” ou “tapar o sol com uma peneira”!... Qualquer cidadão, com dívidas à banca, e que, como consequência de cortes no seu salário, e do aumento das taxas de juro, se veja impossibilitado de cumprir com as suas obrigações, só tem dois caminhos a seguir: Ou renegoceia a sua dívida ou "morre à fome". Extrapolando este exemplo para o país, a situação é idêntica: Se a recessão é cada vez maior, se as taxas de juro continuam a subir, se a economia não cresce, é impossível pagar nos prazos previamente definidos, a não ser que em vez de um, sejam muitos a “morrer”.
Àqueles que questionam esta alternativa, será necessário contrapor que o caminho seguido até aqui, não constitui qualquer solução. Insistir num caminho que nos conduz a um maior desastre é um absurdo. Um outro caminho é possível. É preciso renegociar com a UE e o FMI. Renegociar com uma nova postura, não a do “bom aluno” submisso, mas a de um parceiro com condições a impor – admitindo tudo na mesa das renegociações - a hipótese do default, da auditoria da dívida e até a da saída do euro se preciso fôr.
Portugal não é LIXO, mas tem que virar a página, sob pena de se tornar numa nova Grécia…

