Quem
ler este texto poderá associá-lo de imediato ao caso Sócrates. Mas
não!... Deve ser associado isso sim, a todos os casos que têm vindo
a público nos últimos anos, de modo a fazer um exercício de
analogia entre a mediatização da justiça no final da Idade Média,
e a do século XXI.
Na
Idade Média, a aplicação da justiça e os autos de fé
inquisitoriais eram espectáculo, e objecto de encenação. A justiça
medieval era executada publicamente junto ao pelourinho, com
assistência do povo que gritava, ululava e apupava as vitimas. e não
raro, aplicava-a pelas próprias mãos, através de apedrejamentos e
outras torturas da época. Ainda hoje, mulheres e homens são
apedrejados até à morte segundo a lei islâmica, também ela
medieval.
Os
numerosos pelourinhos símbolo da justiça medieval que ainda hoje
existem como monumentos históricos, surgem no século XVII, posteriores à época manuelina, já
lá vão mais de 400 anos. O pelourinho, era o lugar público de uma
cidade ou vila onde muitas vezes se puniam e expunham os criminosos
julgados, algumas vezes sumariamente.
Na
era das tecnologias da informação e da comunicação, os órgãos
da comunicação social tem-se encarregado de substituir os
pelourinhos, concentrando as atenções não apenas num espaço
circunscrito de uma vila ou de uma cidade, mas ao nível de um país.
Mesmo antes de haver qualquer acusação ou julgamento, a condenação
pública fáz-se sem dó nem piedade.
Nos
dias que correm, fruto “sabe-se lá do quê”, fazem-se e
promovem-se julgamentos nos pelourinhos da comunicação social e as
fugas de informação são intermináveis. Na época medieval, a fuga
de informação era promovida pelos arautos que levavam às
populações a notícia do “espectáculo” da aplicação da pena,
funcionando como comunicação social da época. Tradicionais
boateiros e mensageiros percorriam aldeias, vilas e cidades para
darem as notícias que não raras vezes eram alteradas e ampliadas
por transmissão verbal oral sucessiva, de modo a chegarem ao destino
final, com um ruído comunicacional que nada tinha a ver com a
ocorrência real do facto.
No
século XVII Pascal
disse que "o
afecto ou o ódio mudam a face da justiça". Hoje confirma-se
este pensamento e pode acrescentar-se que potencialmente, a
comunicação social pretende mudar a face da justiça face ao
exterior para a poder influenciar.
Na
era da comunicação, há os que clandestinamente veiculam as
informações, para os mensageiros as poderem colocar na praça
pública, através de grandes encenações de espectáculo
informativo. São uma espécie de autos de fé medievais ao sabor da
aldeia global.





