02 março 2015

O DEVER DA DÚVIDA OU O FADO PORTUGUÊS?!...

Ao contrário do que se parece pretender, Sócrates vai-se tornando numa espécie de mártir. A humilhação a que é sujeito, o desprezo pelo princípio da liberdade, a desinformação constante, vão afinal aumentando a aura de um homem que para muitos portugueses não passa de uma vítima de ódios insanos. Até o insuspeito Freitas do Amaral considera que o capital político de Sócrates não tem diminuído, mas aumentado. No dia em que sair da prisão leva tudo à frente...

Quanto mais tempo passar detido, mais problemático será libertá-lo. Talvez por isso já haja quem diga que é preciso um ano para investigar, outros acham que são dois, e haverá mesmo quem deseje um regime medieval de “meter no calabouço e deitar a chave fora”.


Em suma, a alegada complexidade do processo não está no supostamente intrincado esquema criminoso, até ao momento por demonstrar, mas no próprio "animal feroz".


Outro aspeto deste caso não menos revelador, é o da reduzida indignação pública. Exceptuando Mário Soares ou um ou outro comentador e umas quantas manifestações espontâneas, o silêncio predomina. A prisão de um ex-Primeiro-Ministro, durante meses sem acusação formal, desencadearia em qualquer outro país europeu um enorme clamor, sobretudo por parte da intelectualidade. Mas também há que reconhecer, que Portugal não tem intelectuais...


Pela parte que me toca, já escrevi muito sobre Sócrates e sobre os “seus cúmplices!... Hoje nãoo vou fazer, mas não consegui RESISTIR Á CRÓNICA DE MIGUEL SOUSA TAVARES NO JORNAL EXPRESSO DESTE FIM DE SEMANA. AQUI FICA:

O ESTADO DO ESTADO DE DIREITO
Miguel Sousa Tavares
«(…) Três meses depois, o meu ponto de partida é o mesmo de então: não sei, não faço ideia e não tenho maneira de saber se as gravíssimas acusações que pendem sobre José Sócrates são verdadeiras ou falsas. Mas não é isso que está em causa agora: eu não faço a defesa de José Sócrates, faço a análise sobre as circunstâncias da sua prisão preventiva e de tudo o que tem acontecido à volta dela. Não é a inocência ou a culpabilidade de José Sócrates — que só se apurará em julgamento — que agora interessa: é o funcionamento do Estado de direito. E isso não é coisa pouca.
Creio que uma imensa maioria dos portugueses julgará, nesta altura, que José Sócrates está muito bem preso. E por três ordens de razões diversas: uns, porque abominam politicamente Sócrates e acreditam que foi ele sozinho que criou 170 mil milhões de dívida pública (hoje, 210 mil milhões), assim conduzindo o país à ruína; outros, porque acreditam que o "Correio da Manhã", o "Sol" ou o "i" são uma fonte credível de informação e, portanto, já nem precisam de julgamento algum em tribunal, porque a sentença já está dada; e outros, porque, mesmo não emprenhando pelos ouvidos dos pasquins ao serviço da acusação, acreditam mesmo na culpabilidade de Sócrates e, por isso, a sua prisão preventiva parece-lhes aceitável.
Porém, nenhum destes três grupos tem razão: o primeiro, porque confunde um julgamento político com um julgamento penal, assim fazendo de Sócrates um preso político; o segundo, porque prescinde de um princípio básico de qualquer sistema de justiça, que é o do contraditório e do direito à defesa do acusado: basta-lhes a tese da acusação para se darem por elucidados e satisfeitos; e o terceiro, porque ignora a diferença fundamental entre a fase de inquérito processual e a fase de julgamento. O erro destes últimos (que são os únicos sérios na sua apreciação) é esquecer que a presunção ou convicção de culpabilidade do arguido por parte do juiz de instrução, as suspeitas, os indícios ou as provas que o processo possa conter, não servem de fundamento à prisão preventiva. Se assim fosse, a fase de inquérito seria um pré-julgamento, com uma pré-sentença e uma pena anterior à condenação em julgamento: a pena de prisão preventiva. Que é coisa que a lei não prevê nem consente e que, a meu ver, é aquilo que o juiz Carlos Alexandre aplicou a José Sócrates e a Carlos Santos Silva.
A lei consente apenas quatro casos em que o juiz de instrução pode decretar a prisão preventiva de um arguido: a destruição de provas, a perturbação do processo, o perigo de fuga ou o alarme social causado pela permanência em liberdade. Sendo esta a medida preventiva mais grave e de carácter absolutamente excepcional (visto que se está a enfiar na prisão quem ainda não foi julgado e pode muito bem estar inocente), a liberdade de decisão do juiz está taxativamente limitada a estas quatro situações e nada mais.
Não interessa rigorosamente nada que o juiz possa estar absolutamente convencido da culpabilidade do arguido: ou existe alguma daquelas quatro situações ou a prisão preventiva é ilegal. (E convém recordar que, ao contrário daquilo que as pessoas foram levadas a crer, o juiz de instrução não é parte acusatória, mas sim equidistante entre as partes: cabe-lhe zelar tanto pela funcionalidade da acusação como pelos direitos do arguido).
A esta luz, é difícil ou impossível enxergar em qual dos quatros fundamentos se abrigará Carlos Alexandre para manter Sócrates e Santos Silva em prisão preventiva. O perigo de destruição de provas é insustentável, depois de revistadas as casas dos arguidos, apreendidos os computadores, escutadas as chamadas telefónicas durante mais de um ano. O perigo de perturbação do processo ("fabricando contratos", como foi veiculado para a imprensa) tanto pode ser consumado em casa como na prisão, através do advogado ou por outros meios. O perigo de fuga, para quem se entregou voluntariamente à prisão, tem o passaporte apreendido e pode ser mantido sob vigilância visual e de pulseira electrónica em casa, só pode ser invocado de má fé. E o alarme social, só se for nas páginas do "Correio da Manhã". A avaliar por aquilo que nos tem sido gentilmente divulgado, o dr. Carlos Alexandre não tem uma razão válida para manter os arguidos em prisão preventiva. E mais arrepiante tudo fica quando se torna evidente que o motorista de Sócrates só foi preso para ver se falava, e foi solto, ou porque disse o que o MP queria (verdadeiro ou falso) ou porque perceberam que não tinha nada para dizer. Ou quando a SIC, citando fontes do processo, nos conta que uma das razões para que a prisão preventiva de Carlos Silva fosse prorrogada por mais três meses foi o facto de ele não ter prestado quaisquer declarações quando chamado a segundo interrogatório por Rosário Teixeira. Se isto é verdade, quer dizer que estes presos preventivos não o foram apenas para facilitar a investigação (o que já seria grave), mas para ver se a prisão os fazia falar. Nada que cause estranheza a quem costuma acompanhar os processos-crime, onde a auto-incriminação dos suspeitos — por escutas ou por confissão — é quase o único método investigatório que a incompetência do MP cultiva (e, depois da transcrição da escuta feita a Paulo Portas no processo dos submarinos, ficámos a saber que a incompetência pode não ser apenas inocente, mas malévola e orientada).
Dizem-nos agora os suspeitos habituais que a prorrogação da prisão preventiva daqueles dois arguidos, requerida pelo MP e fatalmente acompanhada pelo juiz, se ficará a dever à chegada de novos factos ou novas "provas" ao processo — o que, em si mesmo, contradiz o fundamento da prisão baseado em potencial destruição de provas. Pior ainda é se essas tais "novas provas" não são mais, como consta noutras fontes, do que os dados bancários da conta de Santos Silva na Suíça, cuja chegada ao processo o MP terá atrasado deliberadamente durante um ano, justamente para as poder usar no timing adequado para fundamentar a prorrogação da prisão preventiva. Porque ninguém duvida de que tanto o procurador como o juiz estão dispostos a levar a prisão até ao limite absurdo de um ano, sem acusação feita.
Que a tudo isto — mais a já inqualificável violação do segredo de justiça, transformado numa espécie de actividade comercial às claras — se assista em silêncio, com a procuradora-geral a assobiar ao vento e o Presidente da República, escudado na desculpa da separação de poderes, fingindo que nada disto tem a ver com o regular funcionamento das instituições, que lhe cabe garantir, enquanto se discute, nem sequer a pena ilegal de prisão preventiva, mas a pena acessória de humilhação de um homem que foi duas vezes eleito pelos portugueses para chefiar o Governo e que agora se bate pelo direito de usar as botas por ele escolhidas e ter um cachecol do Benfica na cela, é sinal do estado de cobardia cívica a que o país chegou. As coisas estão a ficar perigosas. Eu não votarei em quem não prometa pôr fim a esta paródia do Estado de direito.»

22 fevereiro 2015

MARIA LUIS E SCHAUBLE!... A INDIGNIDADE LUSA E O OPORTUNISMO ALEMÃO...

Na vida existem duas espécies de “homens”: os que sim e os que não!... Uns são corajosos e determinados, os outros não passam de uns cobardes. Infelizmente estes últimos, sempre foram em maior número, o que explica o mundo “miserável” que criámos.O último exemplo, foi-nos dado nos últimos dias, naquele que foi um espectáculo inédito de humilhação gratuita de um estado soberano!... Ao Ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble, foi dada a oportunidade de exibir num espectáculo televisivo a Ministra das Finanças de Portugal, Maria Luís Albuquerque, como troféu de uma política europeia errada, que destrói a solidariedade entre os povos, que perturba o funcionamento dos sistemas políticos democráticos e ameaça a própria sobrevivência da União.A indignidade do Governo de Portugal foi tão grande, que enquanto Schäuble mostrava a sua cobaia como prova do sucesso dos "programas de resgate" conduzidos pela tróika, até o Presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, admitia o falhanço dos mesmos programas, denunciava a falta de legitimidade democrática da solução corporizada pela tróika e pedia perdão pelas ofensas assim consumadas contra a dignidade dos povos da Grécia, da Irlanda e de Portugal.Esta foi mais uma prova de que o Governo português segue com absoluto fanatismo uma estratégia que está completamente errada e que só pode trazer o desastre. O Syriza é um partido radical de esquerda, cujo acesso ao Poder até poderá ser questionado!...Mas se tal ocorreu, foi essencialmente devido às constantes humilhações a que foram sujeitos os gregos pela troika, humilhações essas igualmente praticadas em Portugal, como agora Juncker veio reconhecer, para desgosto dos fanáticos que acham que ainda não nos submetemos o suficiente.O Governo de Portugal tem toda a legitimidade politica, para poder naturalmente tomar as decisões que entender nas reuniões do Eurogrupo, contra ou a favor da Grécia!... O que já não tem, é a mesma legitimidade para que a Ministra das Finanças de um Estado soberano, deva contribuir para uma clara operação de charme do Ministro das Finanças alemão, na altura em que ele é contestado no seu próprio governo, precisamente pela sua instransigência em relação à Grécia.O Direito Internacional Público recece aqui um novo e excelente contributo para o reforço da figura do Estado-vassalo na contemporaneidade. Simplesmente lamentável, para não dizer abjecto... São episódios deste teor, que revelam a correlação de forças nas relações internacionais. A força sobrepõe-se sempre ao direito, e este raramente tem a ver com a justiça dos povos, sobretudo dos mais espoliados, como tem sido o povo português, facto reconhecido agora por Juncker. Se esta deriva não for invertida, a situação só pode ficar muito pior!.... As pessoas que hoje festejam a "hollandização" de Tsipras, devem pensar que a seguir a Hollande virá inevitavelmente Marine Le Pen, assim como um falhanço do Syriza na Grécia atirará o país para as mãos do Aurora Dourada. Numa altura em que a Rússia adopta uma nova atitude expansionista, que ameaça redesenhar o mapa da Europa, continuo a achar que os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo.

15 fevereiro 2015

A BIPOLARIZAÇÃO JURIDICA DE UM "SUPER-JUÍZ"!...


Carlos Alexandre é o rosto da tentativa de renovação da imagem da justiça em Portugal, e como tal, é o principal responsável por tapar a cara e destapar os pés, ou tapar os pés e destapar a cara do sistema jurídico.
No último e mais mediático caso da justiça que ditou a prisão preventiva de um ex:Primeiro-Ministro, “perigo de fuga, destruição de provas e perturbação da investigação”, constítuiram os fundamentos necessários para a aplicação da mais gravosa das medidas de coacção. Fundamentos esses que levantam sérias dúvidas, se o âmbito das mesmas, como tudo o indica, fôr o critério do Juiz.
Ora partindo desse pressuposto - o do critério do Juiz, a primeira questão que se coloca, é nada mais nada menos, que a de se saber das razões pelas quais Ricardo Salgado não preenche os critérios para existir suspeita de nenhum dos três principais fundamentos da prisão preventiva aplicada ao “senhor Pinto de Sousa”, isto é: o “perigo de fuga, a destruição de provas ou a perturbação da investigação”, tanto mais, que nada na investigação estando concluído, decorre ainda e em paralelo uma Comissão de Inquérito Parlamentar na Assembleia da República.
Segunda questão: derivado de tudo isto, existe depois uma quase centralização dos casos mais importantes e mediáticos na pessoa de Carlos Alexandre, dando-se do facto alguns exemplos: Monte Branco, Operação Furacão, Portucale, Face Oculta, Álvaro Sobrinho, BPN/SLN, Remédio Santo, Operação Labirinto, Vistos Gold, Ricardo Salgado e Operação Marquês. Porquê?!... Porquê a centralização de todos estes processos, nas mãos deste “Super-Juíz”?!... Como é possível um Juiz coordenar, ajuizar, decidir, ler e dedicar-se com o mesmo afinco a todos estes casos, grande parte deles ao mesmo tempo?!... Quando é que alguém vai investigar tudo isto?!...
Por exemplo:até finais de Novembro do ano findo, Carlos Alexandre tinha à sua guarda os seguintes casos: Furacão, BPN/SLN, Máfia da Noite, Face Oculta, Remédio Santo, CTT, Labirinto, Marquês e Ricardo Salgado. Será suposto pensar,que cada um destes processos exigiria um Juiz concentrado apenas e só em cada um desses casos, nas provas, na investigação e mesmo na exigência temporal e profissional que cada um deles certamente exige. Ora aquilo que os factos dizem e a experiência demonstra, é que tal não é só impossível, é igualmente também pouco ético; Concentrar tudo num só homem, mesmo que Carlos Alexandre não seja o decisório máximo em todos eles, é um absurdo.
Agora, até ao dia 25 de Fevereiro, o Juiz vai ter de reavaliar os fundamentos para a prisão preventiva de José Sócrates!... Se já se sabe que não existem nem factos concretos nem provas objectivas de nenhum dos crimes de que Sócrates é acusado, existindo isso sim suspeitas e dúvidas, como é que vai ficar a justiça caso liberte José Sócrates?!... Quais vão ser as consequências para quem sem provas concretas prende, e recusa a libertação proposta por vários recursos e métodos?!...
Mais: caso se venha a comprovar o que diz a defesa, quer de Sócrates quer de outros arguidos no processo, quem se vai responsabilizar pelas consequências familiares, profissionais, sociais e políticas que esta e outras prisões preventivas criaram?!...
E voltando ao inicio da crónica: quem vai explicar, como é possível dizer-se, ainda que indirectamente, que com a caução de 3 milhões que foi exigida a Ricardo Salgado, este não representa menor perigo de fuga, destruição de provas e perturbação da investigação do que José Sócrates, quando já se assiste à invasão dos balcões do BES, por parte de depositantes que dizem ter sido expoliados das suas poupanças ?!...
Nada disto faz sentido!... Tudo é chocante, representa um precedente grave e retira a meu ver a legitimidade a quem tem tomado todas estas decisões. Carlos Alexandre vai ter umas quantas noites sem dormir.Ai vai, vai!... 

08 fevereiro 2015

A ALEMANHA DE HOJE E DE HÁ 73 ANOS!... OBJECTIVO: DOMINAR A EUROPA...

A Alemanha pretende fazer hoje com a política monetária e de crédito o mesmo que há 73 anos tentou fazer com as armas, isto é, dominar a Europa. Então, também ela tinha bons aliados na Península Ibérica e muitos derrotistas por essa Europa fora, a começar pelos franceses. Então, como hoje, houve quem achasse que não valeria a pena lutar contra a Alemanha. A luta só tornaria mais dolorosas as consequências da derrota.
Esse era o sentimento dominante na maior parte da Europa. Só que havia a outra parte, a que se não vergou, a que sofreu as duras consequências de ter tido a coragem de combater. Entre esses estiveram os gregos, que primeiramente resistiram e contiveram Mussolini, e depois lutaram heroicamente contra os alemães, apesar das perdas que sofreram e dos sacrifícios por que passaram. Hoje, como há 73 anos, os gregos voltam a resistir ao domínio alemão e recusam a humilhação naccional. Tal como hoje, também então os alemães contaram com a cumplicidade e a colaboração dos que internamente traíram a pátria, mas que nunca foram suficientes para quebrar a resistência de quem não aceitava a submissão ao domínio estrangeiro.
Hoje, como há 73 anos, a Alemanha não aceita acordos nem compromissos. Exige a capitulação sem reservas. É essa natureza arrogante e autoritária da Alemanha que se mantém intangível como o demonstra Merkel ao recusar um encontro bilateral com Tsipras.
Merkel e Schäuble têm hoje no BCE e na Comissão Europeia, os instrumentos que desempenham um papel semelhante ao das divisões com que há 73 anos essa mesma Alemanha supunha ter dominado a Europa, um domínio que ia desde os Pirenéus até às portas de Leninegrado e de Moscovo e quase às margens do Volga. Hoje, o panorama de dominação é muito idêntico: de fora apenas a Grã-Bretanha e a Rússia tal como há 73 anos.
Há 73 anos, os que tiveram a coragem de se opor aos alemães e de os combater ganharam. Hoje, para vencer os alemães é preciso lutar. Uma luta guiada pela ideia de vitória. Os que estiverem à espera que seja a Alemanha e os seus aliados a mudar a Europa, acordarão com uma Europa germanizada constituída por “patrícios” e “Untermenchen”. Quando verdadeiramente despertarem do logro em que caíram já nem forças terão para lutar. Estarão exaustos económica, política e moralmente.
Essa a razão por que a luta da Grécia exige a nossa solidariedade. A luta da Grécia é a nossa luta. Não participar nessa luta por calculismo político ou oportunismo de ocasião equivale a cavar a sepultura da nossa insignificância futura.
Nesta luta não haverá meio-termo. Ou se está por, ou se está contra. E o que importa é que as águas fiquem divididas com clareza. O pior que poderia acontecer seria tomar por aliado quem realmente o não é. Quem vai tomando posição em função das circunstâncias, aguardando ambiguamente que o tempo passe e a situação se esclareça para não ter de arcar com as desvantagens da luta.
Finalmente, é bom que se perceba que as propostas que a Grécia apresenta à Europa são praticamente idênticas àquelas de que a Alemanha beneficiou depois da derrota para pagar as suas dívidas. Com uma diferença de vulto: a Grécia é um país pacífico. Nunca invadiu a Alemanha...

01 fevereiro 2015

A GRÉCIA E OS "RADICALISMOS OU CONTOS PARA CRIANÇAS"!...

A propósito de "radicalismos", será interessante analisar em primeiro lugar, a forma como Tsipras está a alterar o modo de fazer política na Grécia, logo na sua primeira semana de governo, ainda que com a bolsa grega no vermelho e os juros a dispararem.
O que fez então Tsipras?!...
1.º - Homenageou as vítimas do nazismo, o que poderá prenunciar uma reclamação de compensação de guerra pelas vítimas que gerou ao tempo da Alemanha nazi. Um facto que é, politica e simbolicamente,relevante e configura um verdadeiro “pontapé na nuca” de Merkel;
2.º - No domínio da micro-política ou da política doméstica, igualmente importante para o nível de vida e bem-estar das populações, também foi sintomática a acção de Tsipras, especialmente ao reintegrar na função pública pessoas que haviam sido despedidas injustamente, ao mesmo tempo que pôs termo às privatizações, prometeu facultar electricidade gratuita para cerca de meio milhão de gregos mais carenciados e elevar para 751 euros o salário mínimo nacional.
Ora bem!... Perante estes factos, será que as ditas medidas poderão ser classificadas de radicais?!...
Será que prescindir dos serviços dos assessores dos Ministérios e readmitir os funcionários públicos que haviam sido despedidas, poderá ser considerado radicalismo?!... Será que suspender a privatização de uma ou duas empresas públicas é propriamente uma medida radical, quando se sabe existirem vários países europeus que suspenderam ou adiaram privatizações?!... Será que repôr o salário mínimo para o valor que tinha antes da Troika chegar à Grécia, poderá ser considerada igualmente uma medida radical?!...
Quem foi afinal mais radical?!... A Tróika que colocou milhares de gregos na miséria, ordenando o seu despedimento sem apêlo nem agravo, a Troika que desceu o salário mínimo em 30%, ou o Syriza que ordenou a readmissão dos despedidos e repõs o salário minimo no mesmo montante?!...
É pois, pegando precisamente neste ponto da minha argumentação, que hoje, de tão habituados que estamos a certas medidas que tendo o apoio da Europa já nem sequer as consideramos radicais, mas que há que questionar!... Por exemplo: cortar os subsídios de natal e de férias em 2012 em Portugal, não foi uma medida radical?!... E cortar os salários dos funcionários públicos até aos 12%, é radicalismo, ou é um "mal necessário"?!... E cortar as pensões e reformas do modo como foram cortadas, não será também uma medida radical?!...
Digam o que disserem, acho que tudo isto é bem mais radical e exagerado, que a subida do salário mínimo e a suspensão das privatizaçãoes agora decretadas pelo Syriza na Grécia. A verdade é esta: nos últimos anos, as políticas de austeridade foram muito radicais, muito extremadas e muito violentas. Nunca na história das várias democracias se tinha ido tão longe. Ao contrário do que agora se passa na Grécia, os programas de ajustamento das "Ttroikas" é que foram muito radicais e brutos.
O grande problema, é que como foram governos a que chamam de direita, que os levaram à prática, isso nunca foi considerado "radical", porque é tudo "gente séria". Como se trata de gente de fato e gravata e muito "honesta" a impô-las, jamais poderiam ser chamadas de "radicais".
No caso da Grécia, agora que o Syriza chegou ao poder, e só porque fez o exactamente o contrário daquilo que os seus antecessores fizeram, já são "radicais". Não por causa do que fazem, mas porque resolveram chamar-lhes assim...
É um facto que as percepções são importantes, mas a verdade é que até agora, ainda não se viu qualquer radicalismo nas propostas do Syriza. Alguém será capáz de o apontar?!...
A grande questão, é que o Syriza e as suas propostas até agora conhecidas, vão contra a corrente de pensamento dominante, o que sendo verdade, não quer dizer que sejam radicais.Mesmo a conversa sobre o perdão da dívida, é tudo menos radical.
É ou não é verdade, que houve já, não dezenas, mas  centenas de países em muitos momentos históricos que tiveram perdões de dívida e nada de muito grave se passou?!... Será justo, os agora governantes gregos ajoelharem-se perante os "donos da Europa" e continuarem a pagar juros agiotas de 10% e sujeitarem-se a imposições que não servem o interesse do seu país?!...
Eu que não gosto dos termos "direita" ou "esquerda", porque entendo não caberem no vocabulário politico da modernidade, da verdade e da transparência, mas seguindo essa lógica, o que me apráz dizer é o seguinte: quando a tal "direita" é torta e pouco inteligente, a "esquerda" aproveita bem e da forma como tem sido gerida esta "Europa sem linha", há muito tempo que estava "escrito nas estrelas", que isto que agora aconteceu na Grécia tinha que acontecer. Foi a  teimosia e o egoísmo desta direita europeia que "geraram e pariram" o Syriza e vão gerar e parir outros "Syrizas" por essa Europa fora, independentemente de se situarem à tal chamada esquerda ou direitas nacionalistas.
A "mãe da austeridade", de tanto obrigar os povos aos sacrifícios monumentais que se conhecem, gerou e continua a gerar bastardos revoltados e zangados.É isso que sempre acontece quando as pessoas são obtusas.Foi assim no passado, é assim no presente e será assim no futuro...
Ninguém tenha a menor dúvida e o futuro vai prová-lo, que ao longo dos últimos seis anos, a direita europeia impôs uma política exagerada, errada e contraproducente e Merkel, Sarkozy, Oli Rehn, Trichet, Rajoy, Samaras, Passos Coelho e outros, aplicaram com entusiasmo políticas de austeridade duríssimas, que em vez de resolverem os problemas dos países em dificuldades, agravaram-nos. A Grécia, a Irlanda, Portugal, a Espanha, a Itália, a França e até a Holanda, foram obrigadas a cortes violentos nas despesas e a uma "cura" de tal ordem, de cuja "guerra" apenas um beneficiou - a Alemanha. Quanto aos outros - e o que está à vista escusa candeia - nunca chegaram à terra prometida.
A Europa veio de crise em crise desde 2008 e ainda não saíu dela!... Porém, a tal direita europeia não admite que esse podia não ser o melhor caminho. Mais do que isso: a Sra Merkel quis mesmo impedir todos os avanços positivos que ainda se iam conseguindo. O Mecanismo Europeu de Estabilização, a União Bancária e a intervenção do BCE, foram sempre adiados, sabotados ou fortemente criticados pela Alemanha. Ao longo destes últimos seis anos anos, Merkel só tinha uma resposta para tudo: austeridade e reformas estruturais.
Como é hoje visível, tudo lhe saiu furado!... As economias nunca recuperaram e as sociedades começaram a reagir. Aconteceu na Grécia, e vai acontecer na Itália, em Espanha, em França, e no Reino Unido, só não se sabendo em que moldes. Já em 2014, quando ocorreram as eleições europeias, era evidente que algo estava em curso. A crise saltara das finanças para a economia e agora saltava desta para a política. Porém, Merkel e os seus "escudeiros", como Rajoy ou Passos, enfiaram a cabeça na areia como a avestruz e o resultado viu-se!... Rajoy, vê já renacer os movimentos nacionalistas e por cá, Passos Coelho teve a pior derrota da História do PSD. a que outra certamente se lhe seguirá.
Felizmente a partir de agora, há uma alternativa à austeridade!... Não tardará muito - ainda que contra a vontade de alguns - que os povos zangados possam unir-se e obrigar a "patroa" a concessões, quer na dívida pública, quer no fim da austeridade ou na união política, onde há muito a fazer para consertar os danos que "senhora" e os seus "escudeiros" provocaram.
E descansem as almas mais sensíveis: o euro não vai acabar!.... Isso é a conversa do costume, a chantagem do "não há alternativa" e do "tem de ser". Estão muito errados!... O Syriza vai surpreender e o que se espera é que para além da Grécia, não havendo Syriza, surja gente com estaleca e Homens capazes para governar os respectivos países, Se tal acontecer, a Europa vai mudar para melhor, o resto é conversa fiada...

25 janeiro 2015

A "SAÚDE DE UMA DEMOCRACIA" POUCO RECOMENDÁVEL...

Quando se assiste à morte de portugueses abandonados nas filas de espera das urgências hospitalares e o brilhante Paulo Macedo não assume a mais pequena responsabilidade pelas consequências dos cortes orçamentais, são situações que não devendo ocorrer no “meu país”, infelizmente ocorrem...
Quando se assiste à mudança de clinicos para o sector privado, à emigração de médicos e enfermeiros,  à incapacidade total e criminosa de prever situações óbvias pela má gestão dos recursos e por uma política manhosa, cujo objectivo desde à muito traçado é o da destruição do Serviço Nacional de Saúde, sendo situações que não devendo ocorrer no “meu país”, infelizmente ocorrem...
Quando se assiste aos cortes orçamentais na saúde, e à fuga de médicos que se fartaram do Governo e emigraram, porque Passos Coelho acha que um médico deve ganhar menos do que uma doméstica por se tratar de “despesa pública”, tal não devendo ocorrer no “meu país”, infelizmente ocorre ...
Quando a culpa pela morte de milhares de cidadãos é do frio, da gripe, das falsidades e das doenças que matam com ou sem tratamento, ou da falta de capacidade de gestão e de planeamento do “grandioso” Paulo Macedo, sem que se apurem as necessárias responsabilidades, são situações que não devendo ocorrer no “meu país”, infelizmente ocorrem...
Quando se diz que a culpa nunca pode ser de Paulo Macedo, assim como não pode ser da Ministra da Justiça, que depois de se estender ao comprido com a Reforma do Mapa Judiciário paralisando a Justiça durante meses, e em vez de dar a cara  pelos seus erros resolve iludir a sua incompetência, sacudir a "água do capote” e dar em difamar pessoas umas atrás das outras, atribuindo as culpas que são suas a terceiros, sendo situações que não devendo ocorrer no “meu país”, infelizmente ocorrem...
Quando um governo tem em curso uma privatização altamente polémica - a privatização da TAP actualmente detida a 100% pelo Estado Português; uma empresa que voa para 80 destinos diferentes em 36 países; que executa cerca de 2.000 voos semanais e que tem uma frota de 55 aviões Airbus e outros 16 voando pela subsidiária Portugália Airlines, isto sendo coisas que não podendo nem devendo acontecer no “meu país”, infelizmente acontecem...
Quando um governo tem em curso a privatização de uma empresa que desde 1994 não recorre a um cêntimo de ajudas do Estado, que entre 2004 e 2013 realizou investimentos no montante de 698,8 milhões de euros e cujos prejuízos que lhe são atribuídos, advêem de uma parceria com a denominada "TAP Manutenção e Engenharia Brasil", a que ninguém – sabe-se lá porquê, consegue ou decide pôr cobro, isto não podendo passar-se no “meu país”, infelizmente passa-se...
Também, quando sobre tudo isto, sobre todo este “cheiro pestilento” que se vai exalando de algumas das instituições que por aí proliferam, sem que ninguém diga nada, sendo uma coisa que não deveria acontecer no “meu país”, infelizmente acontece...
Quando ninguém sabe de nada, quando ninguém ouve nada, quando ninguém tem nada que ver com o assunto, quando se está perante situações que não “assistem” a ninguém, isto não sendo o “meu país”, é pura indignidade...
Quando morrem portugueses como se fossem cães abandonados num canto da sala de espera das urgências hospitalares, quando podem ser violados todos os valores constitucionais, quando se  metem as instituições da democracia de pernas para o ar e a tudo se responde com o “cantar de uma cagarra”, isto não podendo ser o “meu país”, infelizmente é...
Quando um governo que por ódio mesquinho de um político pequenino em relação ao seu antecessor, destruíu tudo o que cheirasse a formação profissional com projectos da treta que não concretizou, e que agora vai gastar rios de dinheiro a eliminar desempregados das estatísticas do desemprego, colocando-os a fazer cursos sem qualquer qualidade nem perspectiva de emprego, sendo situações que não podendo e muito menos devendo acontecer no “meu país”, infelizmente acontecem...
Quando um Procurador Geral da República recebe o director de um jornal, que lhe denuncia a violação do segredo de justiça e que mesmo depois de acusações graves formuladas num artigo de opinião publicadas no jornal que dirige, lhe sugere que consulte um advogado, isto não devendo nem podendo acontecer num país que se diz democrático, infelizmente vai acontecendo...
País - onde os mesmos sindicalistas que agendaram uma greve na TAP para - diziam eles -  defenderem o interesse nacional, mas que acabaram a trocar os interesses do tal país que diziam querer defender, por uma mão cheia de nada, aceitando mesmo juntar-se ao governo para tramarem os colegas da empresa que não assinaram o negócio das alcagoitas – não pode ser o “meu”, mas que infelizmente é...
Como não pode ser meu, um país, onde um líder sindical, numa  atitude deprimente e sem qualquer relevância, se dá ao luxo de denunciar que um detido tem umas botas com uma qualquer presilha proibida ou um cachecol do Benfica. Isto não é sindicalismo!... Isto não é o "meu país", isto é um país onde vegetam as alcagoitas...
O “meu país” é muito mais que isto!... O meu país é aquele em que a dignidade está acima de todas as coisas e onde os princípios, a ética e a moral falam mais alto. 
Também podemos colocar a questão ao contrário: por quanto, seja em dinheiro, influência, fama ou vaidade, estará cada um de nós disposto a ceder, a vergar-se ou submeter-se, interesseira ou oportunisticamente às circunstâncias ou aos apetites do momento, em ordem a obter ganhos, proveitos ou vantagens, materiais ou espirituais, sobre os demais?!...
Estas são as questões que estão cada vez mais em cima da balança das nossas escolhas e das relações quotidianas, sejam elas sociais, políticas, humanas e até mesmo familiares.Infelizmente as respostas que a dignidade merece, contam-se pelos dedos. Quem hoje se atrever a ter coluna vertebral, pautando a sua conduta por elevados e exigentes padrões de honestidade e seriedade e não se vergar aos poderes vigentes, ou que se atreva a denunciar as suas práticas ilícitas, sabe o alto preço económico, social e profissional a pagar.
Como católico, não deixo nunca de ter presente um dos maiores e intemporais ensinamentos que Jesus Cristo, o maior mestre da Humanidade, nos deixou: só há um mínimo de humanidade em cada um de nós, quando há o maior respeito pela humanidade de cada um dos nossos semelhantes.
Um ser humano, só alcança a condição de cidadão, pelo inerente cumprimento dos seus rectos deveres e obrigações para com a sociedade, mesma que esta seja predominantemente agida pela imoralidade ou pelo mal. A dignidade não tem preço, mas tem um alto custo a pagar!...E são exactamente esses "custos" que aqueles que têm mais responsabilidades, raramente se dispõem a pagar.