Tenho
tido alguma coragem de tomar O
juíz mais mediático do país que teve em mãos casos como a
Operação Furacão, o Apito Dourado e mais recentemente a Operação
Marquês, deu a sua primeira entrevista (ver
video) em televisão.
Dono
de uma memória prodigiosa, "sabe de cor" as páginas dos
processos e admite que o conhecimento que tem de alguns negócios, de
algumas operações bancárias, de algumas decisões políticas, de
algumas decisões jurisprudenciais e do que se passa nos bastidores
delas, não fazem dele um homem perigoso. Diz
não ter medo, até porque, como afirma, "se tivesse medo não
me levantava da cama". "Eu apenas me reclamo de alguma
coragem. algumas decisões".Questionado sobre se se sente
observado, explicou que acha que é escutado sobre várias formas:
"já me julgo um pouco conhecedor e já identifiquei várias
vezes restolhar de papéis, água a marulhar, porque há pessoas que
têm a possibilidade de ir para a praia nesta altura do ano e por
vezes descuidam-se". Pela sua boca, ficamos a saber que o juiz
Carlos Alexandre é por assim dizer "um homem muito trabalhador,
muito austero e muito sério". Sabe a diferença entre o bem e o
mal. Tem um salário baixo. Trabalha tanto, para ver se ganha mais um
bocadinho, que não tem tempo para se valorizar. Não se casou com
uma "ricalhaça", ganha 75 euros ao fim de semana - menos
do que um tradutor, informou-nos - e tem de pagar dívidas. É um
homem muito, muito preocupado com dinheiro. Acha que é escutado
ilegalmente, mas não se preocupa com isso, já que não tem nada a
esconder. Podia até ser um homem perigoso, dada a função que ocupa
e os segredos que conhece, mas não é, já que ele actua sempre pelo
bem. Quase não tem amigos e um dos poucos que tem até tem pena
dele.Há por isso boas razões para estarmos perante um juiz
discreto!... Quase todas se prendem com a necessidade dos cidadãos
não criarem uma imagem formada a partir das opiniões, dos gostos ou
até de coisas mais pequenas dos homens e mulheres que têm como
função aplicar a lei.
O
juiz tem de ser o primeiro a contribuir para que não surjam
preconceitos acerca de si próprio, que justa ou injustamente, alguém
pense que julga assim ou assado por não gostar disto ou daquilo, por
ter esta ou aquela propensão, por ter este ou aquele feitio, por
parecer sofrer de ressabiamento contra este ou aquele grupo social. É
fundamental que a comunidade esteja absolutamente segura de que o
juiz ou a juíza decide exclusivamente em função da lei. O
juiz Carlos Alexandre decidiu que queria que as pessoas tivessem uma
determinada opinião sobre ele.
Quis
que nas vésperas de uma das mais importantes decisões da justiça
portuguesa, as pessoas o vissem de uma determinada forma e resolveu
optar por uma fórmula já muito testada e que em política tem dado
excelentes resultados: o homem trabalhador e austero, sem os luxos
dos grandes deste mundo; o homem com poucos amigos que não tem
cumplicidades; o homem que veio de baixo; o homem que não tem nada a
esconder; e o homem que não tem uma função, mas sim uma missão.
Carlos
Alexandre quis demontar-nos que é o tal homem comum que luta contra
os ricos e poderosos. Qualquer semelhança com os políticos que
construíram a sua carreira alardeando constantemente todos estes
predicados e com grande sucesso, não é coincidência. Sendo
ele um homem que tem um enorme poder e que o exerce para o bem - ele
diz que seria alguém perigoso se trabalhasse para o mal, a lei passa
a ser um detalhe. Ou seja: estando nós perante um homem que
encarna o bem, conhecendo ele o que está certo ou errado, tendo ele
todas as qualidades e o modo de vida que definem um homem com o que
parecem ser os atributos que uma maioria gosta, isso torna-se mais
importante para tomar uma decisão do que a própria lei. E
claro, estando Carlos Alexandre à frente de processos em que do
outro lado estão os tais ricos e poderosos, nada como mostrar que é
um de nós, nada como mostrar que não é um desses esbanjadores
sofisticados e esquemáticos. Ele está a lutar por nós, e se por
acaso cometer alguns erros, se as provas não forem suficientes, se a
lei não for escrupulosamente cumprida, nós temos a garantia de que
ele sabe, ele conhece bem os bastidores dos negócios e de certas
decisões.
O
que conta, é que ele é um homem sério e que se pautará pelo bem.O
perigo para a comunidade, a perversidade de tudo isto não carece de
grandes explicações.Só mesmo um homem que se julga a encarnação
do bem, da justiça e que pensa estar acima da lei se pode permitir
dizer e repetir, sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada, que
"não tem dinheiro em nome de amigos". Poupemo-nos
pois a explicações que seriam insultuosas para a inteligência do
comum dos mortais: Carlos Alexandre insinuou que o arguido José
Sócrates tem dinheiro em nome de amigos. Ou seja, Carlos Alexandre
falou claramente de um processo em que está envolvido e insinuou que
um arguido praticou uma certa conduta. Mais: Carlos Alexandre dá
como certa a tese principal da acusação, isto é, que o dinheiro em
nome de Santos Silva é de Sócrates. Vamos por partes: numa
justiça que quisesse mesma ser justa, perante tais afirmações, o
processo Marquês era-lhe imediatamente retirado. Mais: se as
corporações judiciais estivessem mesmo interessadas na boa saúde
da justiça, seriam elas as primeiras a pôr em causa as condutas de
Carlos Alexandre.
Ao
pactuar com tudo isto, é todo o edifício judicial que se
descredibiliza.São muito bonitos os apêlos a pactos na justiça,
mas enquanto se lidar com espetáculos como o que foi dado pelo juiz
Carlos Alexandre, como se fosse normal, tudo ficará na mesma, para
gáudio dos cultores da justiça na praça pública e para os
justiceiros de tablóide.A entrevista de Carlos Alexandre lembra-nos
que é sempre possível cair mais fundo!... Era capaz de apostar que
grandes tormentas vêm para aí.
Existirão
porventura outras interpretações sobre as verdadeiras razões de
Carlos Alexandre, mas o que ficou claro é que se é este o
cavalheiro que tem entre mãos os mais importantes casos da justiça
em Portugal, a justiça colapsou. E nós continuamos a refeiçoar
tudo isto, impávidos e serenos.Independentemente
de tudo há uma coisa que é certa: alguém devia impedir que um juiz
pudesse acumular tanto volume de trabalho!... O resultado é por isso
e muito justamente o atraso da justiça.
O
processo Marquês é a prova disso mesmo. Vamos ver como tudo vai
acabar...
Tenho
tido alguma coragem de tomar O
juíz mais mediático do país que teve em mãos casos como a
Operação Furacão, o Apito Dourado e mais recentemente a Operação
Marquês, deu a sua primeira entrevista (ver
video) em televisão.
Dono
de uma memória prodigiosa, "sabe de cor" as páginas dos
processos e admite que o conhecimento que tem de alguns negócios, de
algumas operações bancárias, de algumas decisões políticas, de
algumas decisões jurisprudenciais e do que se passa nos bastidores
delas, não fazem dele um homem perigoso. Diz
não ter medo, até porque, como afirma, "se tivesse medo não
me levantava da cama". "Eu apenas me reclamo de alguma
coragem. algumas decisões".Questionado sobre se se sente
observado, explicou que acha que é escutado sobre várias formas:
"já me julgo um pouco conhecedor e já identifiquei várias
vezes restolhar de papéis, água a marulhar, porque há pessoas que
têm a possibilidade de ir para a praia nesta altura do ano e por
vezes descuidam-se". Pela sua boca, ficamos a saber que o juiz
Carlos Alexandre é por assim dizer "um homem muito trabalhador,
muito austero e muito sério". Sabe a diferença entre o bem e o
mal. Tem um salário baixo. Trabalha tanto, para ver se ganha mais um
bocadinho, que não tem tempo para se valorizar. Não se casou com
uma "ricalhaça", ganha 75 euros ao fim de semana - menos
do que um tradutor, informou-nos - e tem de pagar dívidas. É um
homem muito, muito preocupado com dinheiro. Acha que é escutado
ilegalmente, mas não se preocupa com isso, já que não tem nada a
esconder. Podia até ser um homem perigoso, dada a função que ocupa
e os segredos que conhece, mas não é, já que ele actua sempre pelo
bem. Quase não tem amigos e um dos poucos que tem até tem pena
dele.Há por isso boas razões para estarmos perante um juiz
discreto!... Quase todas se prendem com a necessidade dos cidadãos
não criarem uma imagem formada a partir das opiniões, dos gostos ou
até de coisas mais pequenas dos homens e mulheres que têm como
função aplicar a lei.
O
juiz tem de ser o primeiro a contribuir para que não surjam
preconceitos acerca de si próprio, que justa ou injustamente, alguém
pense que julga assim ou assado por não gostar disto ou daquilo, por
ter esta ou aquela propensão, por ter este ou aquele feitio, por
parecer sofrer de ressabiamento contra este ou aquele grupo social. É
fundamental que a comunidade esteja absolutamente segura de que o
juiz ou a juíza decide exclusivamente em função da lei. O
juiz Carlos Alexandre decidiu que queria que as pessoas tivessem uma
determinada opinião sobre ele.
Quis
que nas vésperas de uma das mais importantes decisões da justiça
portuguesa, as pessoas o vissem de uma determinada forma e resolveu
optar por uma fórmula já muito testada e que em política tem dado
excelentes resultados: o homem trabalhador e austero, sem os luxos
dos grandes deste mundo; o homem com poucos amigos que não tem
cumplicidades; o homem que veio de baixo; o homem que não tem nada a
esconder; e o homem que não tem uma função, mas sim uma missão.
Carlos
Alexandre quis demontar-nos que é o tal homem comum que luta contra
os ricos e poderosos. Qualquer semelhança com os políticos que
construíram a sua carreira alardeando constantemente todos estes
predicados e com grande sucesso, não é coincidência. Sendo
ele um homem que tem um enorme poder e que o exerce para o bem - ele
diz que seria alguém perigoso se trabalhasse para o mal, a lei passa
a ser um detalhe. Ou seja: estando nós perante um homem que
encarna o bem, conhecendo ele o que está certo ou errado, tendo ele
todas as qualidades e o modo de vida que definem um homem com o que
parecem ser os atributos que uma maioria gosta, isso torna-se mais
importante para tomar uma decisão do que a própria lei. E
claro, estando Carlos Alexandre à frente de processos em que do
outro lado estão os tais ricos e poderosos, nada como mostrar que é
um de nós, nada como mostrar que não é um desses esbanjadores
sofisticados e esquemáticos. Ele está a lutar por nós, e se por
acaso cometer alguns erros, se as provas não forem suficientes, se a
lei não for escrupulosamente cumprida, nós temos a garantia de que
ele sabe, ele conhece bem os bastidores dos negócios e de certas
decisões.
O
que conta, é que ele é um homem sério e que se pautará pelo bem.O
perigo para a comunidade, a perversidade de tudo isto não carece de
grandes explicações.Só mesmo um homem que se julga a encarnação
do bem, da justiça e que pensa estar acima da lei se pode permitir
dizer e repetir, sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada, que
"não tem dinheiro em nome de amigos". Poupemo-nos
pois a explicações que seriam insultuosas para a inteligência do
comum dos mortais: Carlos Alexandre insinuou que o arguido José
Sócrates tem dinheiro em nome de amigos. Ou seja, Carlos Alexandre
falou claramente de um processo em que está envolvido e insinuou que
um arguido praticou uma certa conduta. Mais: Carlos Alexandre dá
como certa a tese principal da acusação, isto é, que o dinheiro em
nome de Santos Silva é de Sócrates. Vamos por partes: numa
justiça que quisesse mesma ser justa, perante tais afirmações, o
processo Marquês era-lhe imediatamente retirado. Mais: se as
corporações judiciais estivessem mesmo interessadas na boa saúde
da justiça, seriam elas as primeiras a pôr em causa as condutas de
Carlos Alexandre.
Ao
pactuar com tudo isto, é todo o edifício judicial que se
descredibiliza.São muito bonitos os apêlos a pactos na justiça,
mas enquanto se lidar com espetáculos como o que foi dado pelo juiz
Carlos Alexandre, como se fosse normal, tudo ficará na mesma, para
gáudio dos cultores da justiça na praça pública e para os
justiceiros de tablóide.A entrevista de Carlos Alexandre lembra-nos
que é sempre possível cair mais fundo!... Era capaz de apostar que
grandes tormentas vêm para aí.
Existirão
porventura outras interpretações sobre as verdadeiras razões de
Carlos Alexandre, mas o que ficou claro é que se é este o
cavalheiro que tem entre mãos os mais importantes casos da justiça
em Portugal, a justiça colapsou. E nós continuamos a refeiçoar
tudo isto, impávidos e serenos.Independentemente
de tudo há uma coisa que é certa: alguém devia impedir que um juiz
pudesse acumular tanto volume de trabalho!... O resultado é por isso
e muito justamente o atraso da justiça.
O
processo Marquês é a prova disso mesmo. Vamos ver como tudo vai
acabar...





