O maior elogio que posso fazer
a Mário Soares é aquele que poucos farão por estes dias, em que a canonização
simula consensos que nunca existiram: ele está entre as figuras mais odiadas e
mais amadas deste País, como sempre acontece aos políticos que fazem escolhas
difíceis. E as escolhas que Soares fez, que lhe garantiram sempre novos
inimigos, marcam a História de Portugal nos últimos 50 anos.
Soares escolheu o combate ao
fascismo e os saudosistas não o suportam. Escolheu a descolonização e os
retornados odeiam-no. Escolheu a social-democracia e a UE e os comunistas não
lhe perdoam. E cada escolha sua deixou tanto ressentimento por ser quase sempre
decisiva para o que somos hoje. Tem a sua quota-parte de culpa em tudo o que de
bom e de mau nos aconteceu desde o 25 de Abril. Essa é a qualidade que ninguém
lhe pode tirar: não é inocente de nada. Felizmente, porque não há maiores
inúteis do que os políticos que se banham nas águas puras das ideias e morrem sem
culpa nem obra.
Com o papel que teve na nossa
história, Mário Soares nunca se pôde dar ao luxo da coerência absoluta e da
mera declaração de princípios!... Isso é para os homens de religião. O seu
percurso, as suas lealdades, até as suas convicções foram muitas vezes
sinuosas, tendo apenas a democracia como único valor constante, o que não é
pouco.
Houve o Soares da austeridade de 1983 e o que combateu a austeridade de
2011; o que meteu o socialismo na gaveta e o que tirou já na velhice o
radicalismo do armário; o que escolheu o lado dos EUA na Guerra Fria e se
manifestou contra os EUA na guerra do Iraque; o que se abraçou a Cunhal no
Aeroporto da Portela e combateu Cunhal na Fonte Luminosa; o que fez dupla com
Zenha e enfrentou Zenha; o que foi amigo de Manuel Alegre e conspirou contra Alegre; e o que
foi desleal com os amigos de sempre e o que levou a lealdade para lá do limite
da sanidade na prisão de Sócrates. E não foi apenas porque a realidade mudou e só
os burros não mudam, foi isso sim, porque Soares sempre foi mais pragmático do que
ideológico.
Enquanto o corpo deixou,
Soares manteve-se em cena, sem nunca deixar que o transformassem numa figura de
museu. Acreditou que todo o tempo de vida era o seu tempo. Na sua reeleição
para Belém em 1991, tinha conseguido 70% dos votos. Era o pai querido da
Nação, principal referência política e moral da democracia portuguesa. Mas com
80 anos, não teve medo de descer de um pedestal com que poucos poderiam sonhar
para se candidatar de novo à Presidência.
A política que reencontrou era porém muito
diferente, com uma comunicação social muito mais agressiva do que no passado e
um escrutínio muito mais apertado. Este já não era, afinal, o seu tempo.
Não vou fingir que venho do
lado de onde vem Soares. Não me revia no que na sua vida foi excesso de táctica
e intuição e pouco de estratégia e convicção ou no vício da política, que valeu
sempre mais do que a própria política.
Mas tenho por Soares a admiração que se
tem por quem foi intransigente na defesa da democracia e nunca quis ser uma
estátua de si mesmo, mesmo quando a estátua que estava encomendada e que lhe
era totalmente devida, era do pai fundador da nossa democracia.
Como todas as
contradições e erros que se exigem a quem faz questão de deixar uma marca da
sua passagem pela vida, Soares mudou Portugal. E mudou-o para melhor. Agora
sim, podemos erguer a estátua.


