
Em entrevista concedida no
passado dia 12 de Fevereiro ao jornal espanhol El País, o Presidente da
República Marcelo Rebelo de Sousa não foi de modas, e afirmou com todas as
letras – referindo-se a Portugal, que depois de uns primeiros meses difíceis e
com um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) quase nulo, o Governo arrepiou
caminho e viria a demonstrar que mantinha o défice controlado, uma recuperação
do emprego e um maior crescimento do PIB. E que sendo assim, o país seguia no
rumo certo – palavras que merecem a minha total concordância.
Há porém quem não pense desta
forma, chegando ao ponto de afirmar, que o Presidente da República se
"descredibilizou" com a falta de imparcialidade que revela ao
proteger o Governo, que foi longe de mais, e que por isso perdeu a compreensão
do PSD. Nada mais falso!... Marcelo Rebelo de Sousa não só não se
descredibilizou, como não perdeu a compreensão do PSD – e as sondagens assim o
dizem. Marcelo, poderá ter perdido a compreensão da “Côrte Passista”, coisa bem
distinta do Partido Social Democrata. Mas ainda que a tenha perdido, o saldo
dos níveis de confiança que os portugueses lhe conferem é por demais conhecido,
o que quer dizer que a esmagadora maioria dos portugueses está com ele, e ele
com essa mesma maioria. E tal desiderato resulta de duas razões muito simples:
a primeira é que ao contrário do que
alguém afirmava hà pouco mais de um ano, de “que os portugueses estavam pior,
mas o país estava melhor”, hoje é fácil constatar, que para além do país estar
melhor, os portugueses estão também melhores; a segunda, é que Marcelo se tem
afirmado como Presidente de todos os portugueses, e não de um qualquer “grupo”
ou tendência a que o passado recente nos habituou.
Quer isto dizer,
que os tempos da dita “Côrte”, que teve o condão de previligiar o seguidismo
neo-liberal, assente nos pressupostos de que a oferta gera a sua própria procura,
e requer que todas as preocupações do desenvolvimento económico se devam
centrar no apoio e incentivos a quem produz, na redução de impostos a quem
produz, na redução de salários dos trabalhadores de quem produz e no alargamento
do horário dos trabalhadores de quem produz, é “finito” e não deixa saudades - a
quebra do PIB para valores semelhantes aos ocorridos já no longínquo ano de 2004,
é o melhor exemplo de tais politicas. Não foi por acaso aliás – e assim rezam
as estatísticas - que o seu principal mentor, foi o único Primeiro-Ministro
desta III República, a entregar o país mais pobre do que o recebeu. E sendo
assim, é evidente que nenhum PR que se auto-defina como de todos os
portugueses, jamais possa apoiar politicas de empobrecimento como as ocorridas
até finais de 2015.
Ora foi ciente
dessa realidade, que o desempenho do actual Governo se encarregou de proceder à
reversão de tais politicas, colocando em prática uma nova tese doutrinária, visando
a inversão do fraco desenvolvimento da economia até aí ocorrido, como forma de
fazer frente ao período de retracção que ainda hoje enfrentamos. Uma politica,
que sobretudo neste tempo de “vacas magras” fosse capáz de incentivar o consumo
mais do que a oferta, promovendo a capacidade de compra e de rendimentos da
população, e dinamizar o mercado de bens, como forma de provocar a debilitada
recuperação económica a que o Presidente acaba de fazer referência ao periódico
espanhol. E tendo sido assim - ao contrário do tal passado de má memória - os
resultados estão hoje bem à vista: défice abaixo dos 2,3% conseguido sem receitas
provenientes de privatizações, medidas adicionais ou planos “Bs”; sem danos
provocados pela reposição de salários, pensões e reformas; crescimento do PIB
em linha com o resto da Europa; e diminuição real do desemprego para
níveis de 2010.
Perante estes números,
e perante o menor défice ocorrido nos últimos 40 anos, é óbvio que o optimismo
de todos quantos acreditam nesta fórmula e nestas politicas, podendo ser objecto
de contestação em democracia, não tem porém qualquer fundamento que não sejam
as já habituais quezílias partidárias. Ainda assim, o que espanta, é que perante
factos tão evidentes e que constituem um sinal vital para os
mercados, que mereceram já o apreço das instâncias europeias e particularmente
do FMI, tenhamos uma Oposição que para além das críticas sem qualquer sentido e
do azedume que vem demonstrando, pouco mais tem para oferecer ao país do que a
esperança na “vinda do diabo”. País, que de resto não tem sido a sua principal
preocupação, como recentemente ficou demonstrado com a trapalhada da TSU e por
estes dias com a nova investida de baixa politica na problemática da Caixa
Geral de Depósitos.
É verdade que nem
tudo são rosas, que não há motivo para lançar foguetes ou abrir garrafas de
champanhe!... Ninguém esconde as dificuldades que o país enfrenta ou a problemática
da dívida pública em crescendo - embora a um ritmo bem mais lento do que o
ocorrido entre 2011 e 2015 – que temos pela frente. Mas como fazer-lhe face no
imediato?!... Será que alguém poderá afirmar ter uma “varinha mágica” para a
solucionar?!... Como é que um Governo pode garantir o seu crescimento para
outros patamares, quando por exemplo numa comunidade económica de países com a
mesma moeda, não existe sequer um mecanismo que permita que o preço do dinheiro
para financiamento, seja igual para qualquer país dessa mesma comunidade?!... Que
sentido existirem países a financiarem-se
a juros negativos, e a outros, como sejam os países do sul da Europa onde nos
situamos, sejam cobradas taxas que chegam a ultrapassar os 4% a 10 anos?!... Que
sentido fáz a existência de regras decorrentes do Tratado Orçamental que
implicam défices iguais para todos, e quando toca a financiamentos essas mesmas
regras não serem aplicadas de forma igualitária?!... E que dizer do peso dos
juros da dívida, que anualmente se cifram nos 8 mil milhões de euros, e nos
problemas por todos conhecidos decorrentes do sistema financeiro interno,
particularmente no que diz respeito à banca e ao crédito mal-parado?!...
Não vale a pena por
isso tapar o sol com uma peneira!... Não há milagres, e quem disser o contrário
não está de boa fé. Para contenção do peso da dívida, é verdade que será
necessário proceder em primeiro lugar à redução do défice orçamental do Estado
e ao recurso a nova divida com taxas de juro mais baixas – caminho que tem sido
já trilhado. Mas a estes, há também que acrescentar a resolução dos problemas
do sistema financeiro, uma melhoria em termos de confiança dos investidores, e
fundamentalmente um maior crescimento económico por forma a diminuir o rácio
dívida/PIB.
Ainda assim, será
justo salientar, que se considerarmos as mesmas previsões para o PIB – em torno
dos 185.300 milhões de euros inscritos no OE16 – o peso da
dívida pública líquida de depósitos na economia no ano findo, terá ficado entre
os 120% e os 121% do PIB, caindo face aos 121,6% de 2015, o que diga-se em
abono da verdade e face às contingências já enumeradas, não representam dados
desanimadores. Roma e Pavia não se fizeram num dia e como muito bem diz o
Presidente e eu reitero, o país está no rimo certo.
Domingos
Chaves






