Quem se mete com a Justiça leva!... Que o diga Sócrates, que enquanto Primeiro-Ministro
cortou férias e outras mordomias a Juízes e Procuradores. Desse modo, tornou-se
num alvo do ódiozinho de estimação dos senhores Magistrados.
Perante este caso de exemplar retaliação - Sócrates já está destruído politicamente
para todo o sempre, seja ou não culpado de qualquer ilícito, porque a Justiça
já o enforcou e condenou na praça pública antes de o condenar em julgamento -
todos os actores políticos temem pronunciar-se sobre as reiteradas e cirúrgicas
quebras do segredo de Justiça patrocinadas pelos senhores Magistrados, e sobre
a conivência e promiscuidade com certa comunicação social. Chega-se ao ponto de
os arguidos serem confrontados com factos acusatórios pelos jornais antes
destes lhes serem apresentados, permitindo-lhes fazer em sede de inquérito a
sua defesa, antes da divulgação pública dos mesmos factos.
Deste modo, quer os partidos, da direita à esquerda, quer o governo
actual quer o anterior, evitam pronunciar-se na praça pública. Temem ser
acusados de se quererem imiscuir na acção da Justiça, e serem desse modo
acusados de atacar a independência da mesma, um dos pilares cruciais do Estado
de Direito. No caso da Operação Marquês, envolvendo Sócrates, o PS
especialmente, foge do tema como o diabo foge da cruz, temendo ser acusado de
querer defender o ex-Primeiro-Ministro e seu militante.
Mas não são só essas as razões que levam os actores políticos a não se
pronunciarem sobre o tema. A questão é que os políticos temem a Justiça, e
sabem que hostilizar a corporação dos senhores Juízes, pode levar a que a ira
destes e a sua sanha persecutória se volte contra quem lhes aponte o dedo.
No fundo, políticos, partidos e companhia, todos tem telhados de vidro,
e caso fossem sujeitos ao escrutínio e devassa que foram usadas contra
Sócrates, provavelmente poucos cumpririam a cem por cento todos critérios de
legalidade e transparência.
Nesse sentido, é de sublinhar as declarações feitas hoje por Marcelo
Rebelo de Sousa, (Ver notícia aqui) que veio a público colocar o dedo na ferida e mostrar o
seu desconforto com o estado da Justiça em Portugal, trazendo a debate
especificamente a problemática da quebra do segredo de justiça, a realização de julgamentos na
praça pública e a justiça de pelourinho.
Marcelo parece que é o único que não tem telhados de vidro e que não
teme as represálias dos senhores Magistrados. Não deve dever nada a ninguém,
nunca deve ter pedido dinheiro a amigos - coisa de que nem todos os Juízes se
podem orgulhar, como se viu com juiz Alexandre.
E mesmo nas variadas vezes que passou férias e Natais no Brasil com o
Dr. Ricardo Salgado, deve ter pago o hotel do seu próprio bolso e guardado as
facturas.É que se não guardou, Marcelo pode estar em sarilhos: depois do recado
que mandou hoje aos senhores Juízes, ainda se arrisca a ser o próximo arguido
da Operação Marquês.






