A FRANÇA AO RUBRO!... ( PARTE IV)
“Há 56 anos, quando nasci, no dia 18 de Fevereiro, isto estava completamente abandonado. Tudo o que vocês vêem aqui, esta zona do Plateau, era uma zona cheia de árvores, abandonada. Hoje transformou-se numa grande zona industrial. Mesmo estas casas não existiam, já foram feitas depois dos anos 60. Por estar ao abandono é que os portugueses se instalaram aqui, se quisermos, fraudulosamente. Praticamente viemos sem autorização”, conta.
- FÁCIL DE ENTENDER…
Com:LusoJornal/RR
- O TEMPO DAS BARRACAS
Estacionado o potente carro na zona do Plateau, uma zona alta de Champigny-sur-Marne, a 12,5 quilómetros do centro de Paris, Gilberto Francisco viaja no tempo.
“Há 56 anos, quando nasci, no dia 18 de Fevereiro, isto estava completamente abandonado. Tudo o que vocês vêem aqui, esta zona do Plateau, era uma zona cheia de árvores, abandonada. Hoje transformou-se numa grande zona industrial. Mesmo estas casas não existiam, já foram feitas depois dos anos 60. Por estar ao abandono é que os portugueses se instalaram aqui, se quisermos, fraudulosamente. Praticamente viemos sem autorização”, conta.
Eram os tempos das “bidonvilles”. Em meados dos anos 1960, as autoridades estimam que 100 mil pessoas vivessem nestes aglomerados de barracas. Muitos eram portugueses. “Eram barracas com portas que eles encontravam nas obras. Traziam placas e faziam as barraquitas onde se aqueciam mal. Não tinha condições para viver. Às vezes viviam quatro ou cinco portugueses na mesma barraca.”
A vida era miserável. “Chamavam-me o picha fria porque andava sem calções, sem nada, os pés descalços e só tinha uma camisolita”, conta. A população não gostou de ver aquela multidão de portugueses “mal vestidos” que “não sabiam falar” francês. A acção de Louis Talamoni, presidente da Câmara de Champigny entre 1950 e 1975, foi decisiva – por isso, em 2016, um grupo de portugueses decidiu homenageá-lo com a construção de um monumento no Plateau. “Permitiu-nos ter água, ter luz, eu poder ir à escola, a gente ter papéis para trabalhar, ter uma simples caixa de correio. Ele sempre nos defendeu porque viu que era uma população de trabalhar, não uma população para invadir”, diz Gilberto. A estátua em honra de Talamoni é cercada por dois mil tijolos, assinados por portugueses que passaram por Champigny, familiares seus e políticos como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
Gilberto e muitos outros portugueses “estão bem na França”. Mas repete-se o discurso que ouvimos em Puteaux e Nanterre: outros imigrantes preferem viver à custa dos apoios do Estado. O discurso da “radical” e “provocadora” Marine não o seduz – prefere François Fillon. “O voto em Marine Le Pen é um voto de sanção, uma maneira de o francês dizer ‘estou farto’”, o que explica os prováveis bons resultados numa primeira volta, acredita. “À segunda ela nunca ganhará porque as pessoas têm medo: não só pela imigração, mas porque ela quer sair da Europa, quer voltar ao franco. É uma política que só diz ‘estou farto dos imigrantes, do islamismo, dos radicais’. Mas que solução tem ela? Nenhuma.”
- FÁCIL DE ENTENDER…
Regressamos ao centro de Paris. Fernando Moura gostava de poder votar em alguém como a “senhora Margaret Thatcher”, alguém que consiga dizer “sim” e “não”, porque “a França anda muito à deriva”. Le Pen não é essa pessoa, afirma, numa pausa dos seus cozinhados do restaurante Saudade, o estabelecimento português “mais cotado” da capital francesa. Mariza, Fernando Mendes e Tony Carreira já lá passaram, revelam fotografias colocadas à entrada.
“Tudo o que é extremo não é bom”, diz Fernando Moura, que vai votar em Fillon. “Para nós, portugueses, acho que nada vai ter influência, seja ela [Marine] ou não, porque somos europeus, estamos todos legalizados”, acrescenta. Mas “sair da Europa e voltar ao franco” seria negativo, acredita.
França chamou Maria Trigo há mais de três décadas. Emigrou para França com o objectivo de ganhar dinheiro para se casar. “E, afinal de contas, vim para aqui e aqui fiquei. Arranjei outro moço e não me casei com o outro”, confessa, sentada no sofá do apartamento a que tem direito como porteira de um prédio da endinheirada Quai de Grenelle, a centenas de metros da Torre Eiffel. Do outro lado da rua, junto ao Sena, um monumento lembra as vítimas de “perseguições racistas e anti-semitas” cometidas pelo governo de Vichy durante a II Guerra Mundial. Escrito na pedra, o pedido: “n’oublions jamais”. Não esqueçamos nunca.
Foi a ver televisão e a falar com os franceses que aprendeu “qualquer coisa” de francês. Na sala acumulam-se “souvenirs de Portugal”, de crachás a fotografias. Mas conversar com Maria, mãe de dois filhos, é falar sobretudo de trabalho: “Eu estou sempre ocupada, se não estou é porque não posso”. Cozinha, arruma o lixo, trata da higiene de idosos. Noutros tempos passava a ferro as roupas do conservatório, onde o marido trabalhava, e aguentava as noitadas – hoje, aos 61 anos, acorda às 4h30, mas não consegue repetir tais proezas. Ganha dois mil euros por mês, que tenta poupar para a reforma que quer passar entre Portugal (“quero estar lá ao pé da praia”) e França.
Adoraria que Marine Le Pen fosse eleita – “para meter uma certa ordem”. E as limitações à imigração? E o fecho das fronteiras? “Pode ser que não seja para os portugueses”, responde, “que seja para esses países que não fazem parte da comunidade europeia”.
Eunice de Lemos está apenas há um ano e meio em França, a fazer um mestrado em História da Filosofia na Sorbonne, e sente que Marine está em todo o lado. As suas entrevistas televisivas batem em audiência as dos rivais, ela “está na boca do povo”, tem um “carisma extremo que consegue conquistar as massas”.
Eunice e o namorado, o luso-belga Bernardo Haumont, estão “preocupados” com a possibilidade de Marine se tornar Presidente, revelam-nos no café do Studio 28, um cinema do quarteirão parisiense de Montmartre fundado em 1928. “Acho que há uma estratégia de embelezamento do partido que visa alargar o espectro de eleitores da Front National e que está a resultar claramente”, receia Eunice. “Vi um documentário bastante recente sobre os novos eleitores do partido. Mostravam, por exemplo, um casal gay, dois homens que votavam Marine Le Pen; um senhor que emigrou do Egipto para França nos anos 70 e que hoje vota Front National; um ‘rapper’ de 30 anos, com origens no Norte de África, que vota Front National. Isto jamais seria possível se a Marine Le Pen não tivesse procedido a uma estratégia muito eficaz de tornar o partido noutra coisa. Já não é só um partido de extrema-direita claramente racista, xenófobo, etc., mas, no entanto, não deixou de ser isso.”
Nonna Mayer, que estuda a Frente Nacional há mais de 30 anos, sente que pela primeira vez há pessoas que acreditam na hipótese de um Le Pen se tornar Presidente. “Existe a sensação de que o único candidato político que tem uma mensagem clara, fácil de entender, é Marine Le Pen. Eles têm um partido, um candidato, uma mensagem, um meio. E ela diz: ‘Fechem as fronteiras, parem com a imigração e a França vai voltar ao que foi antes’.”
“Não temos uma mensagem tão clara nem à direita nem à esquerda. A esquerda e a direita estão fragmentadas e a força de Marine Le Pen é a fraqueza dos seus opositores”, analisa. Para vencer Le Pen é preciso mais do que descodificar a sua mensagem. “Não basta voltar a dizer que o que ela diz é mentira. É preciso propor algo que entusiasme, traga esperança e fé aos eleitores.”





