21 março 2017

ELEIÇÕES PRESIDÊNCIAIS EM FRANÇA -GRANDE REPORTAGEM ¨¨

A FRANÇA AO RUBRO!... ( PARTE IV)                                      
Com:LusoJornal/RR
- O TEMPO DAS BARRACAS

Estacionado o potente carro na zona do Plateau, uma zona alta de Champigny-sur-Marne, a 12,5 quilómetros do centro de Paris, Gilberto Francisco viaja no tempo.
“Há 56 anos, quando nasci, no dia 18 de Fevereiro, isto estava completamente abandonado. Tudo o que vocês vêem aqui, esta zona do Plateau, era uma zona cheia de árvores, abandonada. Hoje transformou-se numa grande zona industrial. Mesmo estas casas não existiam, já foram feitas depois dos anos 60. Por estar ao abandono é que os portugueses se instalaram aqui, se quisermos, fraudulosamente. Praticamente viemos sem autorização”, conta.
Eram os tempos das “bidonvilles”. Em meados dos anos 1960, as autoridades estimam que 100 mil pessoas vivessem nestes aglomerados de barracas. Muitos eram portugueses. “Eram barracas com portas que eles encontravam nas obras. Traziam placas e faziam as barraquitas onde se aqueciam mal. Não tinha condições para viver. Às vezes viviam quatro ou cinco portugueses na mesma barraca.”
 A vida era miserável. “Chamavam-me o picha fria porque andava sem calções, sem nada, os pés descalços e só tinha uma camisolita”, conta. A população não gostou de ver aquela multidão de portugueses “mal vestidos” que “não sabiam falar” francês. A acção de Louis Talamoni, presidente da Câmara de Champigny entre 1950 e 1975, foi decisiva – por isso, em 2016, um grupo de portugueses decidiu homenageá-lo com a construção de um monumento no Plateau. “Permitiu-nos ter água, ter luz, eu poder ir à escola, a gente ter papéis para trabalhar, ter uma simples caixa de correio. Ele sempre nos defendeu porque viu que era uma população de trabalhar, não uma população para invadir”, diz Gilberto. A estátua em honra de Talamoni é cercada por dois mil tijolos, assinados por portugueses que passaram por Champigny, familiares seus e políticos como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
Gilberto e muitos outros portugueses “estão bem na França”. Mas repete-se o discurso que ouvimos em Puteaux e Nanterre: outros imigrantes preferem viver à custa dos apoios do Estado. O discurso da “radical” e “provocadora” Marine não o seduz – prefere François Fillon. “O voto em Marine Le Pen é um voto de sanção, uma maneira de o francês dizer ‘estou farto’”, o que explica os prováveis bons resultados numa primeira volta, acredita. “À segunda ela nunca ganhará porque as pessoas têm medo: não só pela imigração, mas porque ela quer sair da Europa, quer voltar ao franco. É uma política que só diz ‘estou farto dos imigrantes, do islamismo, dos radicais’. Mas que solução tem ela? Nenhuma.”


- FÁCIL DE ENTENDER…

Regressamos ao centro de Paris. Fernando Moura gostava de poder votar em alguém como a “senhora Margaret Thatcher”, alguém que consiga dizer “sim” e “não”, porque “a França anda muito à deriva”. Le Pen não é essa pessoa, afirma, numa pausa dos seus cozinhados do restaurante Saudade, o estabelecimento português “mais cotado” da capital francesa. Mariza, Fernando Mendes e Tony Carreira já lá passaram, revelam fotografias colocadas à entrada.
“Tudo o que é extremo não é bom”, diz Fernando Moura, que vai votar em Fillon. “Para nós, portugueses, acho que nada vai ter influência, seja ela [Marine] ou não, porque somos europeus, estamos todos legalizados”, acrescenta. Mas “sair da Europa e voltar ao franco” seria negativo, acredita.
França chamou Maria Trigo há mais de três décadas. Emigrou para França com o objectivo de ganhar dinheiro para se casar. “E, afinal de contas, vim para aqui e aqui fiquei. Arranjei outro moço e não me casei com o outro”, confessa, sentada no sofá do apartamento a que tem direito como porteira de um prédio da endinheirada Quai de Grenelle, a centenas de metros da Torre Eiffel. Do outro lado da rua, junto ao Sena, um monumento lembra as vítimas de “perseguições racistas e anti-semitas” cometidas pelo governo de Vichy durante a II Guerra Mundial. Escrito na pedra, o pedido: “n’oublions jamais”. Não esqueçamos nunca.
Foi a ver televisão e a falar com os franceses que aprendeu “qualquer coisa” de francês. Na sala acumulam-se “souvenirs de Portugal”, de crachás a fotografias. Mas conversar com Maria, mãe de dois filhos, é falar sobretudo de trabalho: “Eu estou sempre ocupada, se não estou é porque não posso”. Cozinha, arruma o lixo, trata da higiene de idosos. Noutros tempos passava a ferro as roupas do conservatório, onde o marido trabalhava, e aguentava as noitadas – hoje, aos 61 anos, acorda às 4h30, mas não consegue repetir tais proezas. Ganha dois mil euros por mês, que tenta poupar para a reforma que quer passar entre Portugal (“quero estar lá ao pé da praia”) e França.
Adoraria que Marine Le Pen fosse eleita – “para meter uma certa ordem”. E as limitações à imigração? E o fecho das fronteiras? “Pode ser que não seja para os portugueses”, responde, “que seja para esses países que não fazem parte da comunidade europeia”.
Eunice de Lemos está apenas há um ano e meio em França, a fazer um mestrado em História da Filosofia na Sorbonne, e sente que Marine está em todo o lado. As suas entrevistas televisivas batem em audiência as dos rivais, ela “está na boca do povo”, tem um “carisma extremo que consegue conquistar as massas”.
Eunice e o namorado, o luso-belga Bernardo Haumont, estão “preocupados” com a possibilidade de Marine se tornar Presidente, revelam-nos no café do Studio 28, um cinema do quarteirão parisiense de Montmartre fundado em 1928. “Acho que há uma estratégia de embelezamento do partido que visa alargar o espectro de eleitores da Front National e que está a resultar claramente”, receia Eunice. “Vi um documentário bastante recente sobre os novos eleitores do partido. Mostravam, por exemplo, um casal gay, dois homens que votavam Marine Le Pen; um senhor que emigrou do Egipto para França nos anos 70 e que hoje vota Front National; um ‘rapper’ de 30 anos, com origens no Norte de África, que vota Front National. Isto jamais seria possível se a Marine Le Pen não tivesse procedido a uma estratégia muito eficaz de tornar o partido noutra coisa. Já não é só um partido de extrema-direita claramente racista, xenófobo, etc., mas, no entanto, não deixou de ser isso.”
 Nonna Mayer, que estuda a Frente Nacional há mais de 30 anos, sente que pela primeira vez há pessoas que acreditam na hipótese de um Le Pen se tornar Presidente. “Existe a sensação de que o único candidato político que tem uma mensagem clara, fácil de entender, é Marine Le Pen. Eles têm um partido, um candidato, uma mensagem, um meio. E ela diz: ‘Fechem as fronteiras, parem com a imigração e a França vai voltar ao que foi antes’.”
“Não temos uma mensagem tão clara nem à direita nem à esquerda. A esquerda e a direita estão fragmentadas e a força de Marine Le Pen é a fraqueza dos seus opositores”, analisa. Para vencer Le Pen é preciso mais do que descodificar a sua mensagem. “Não basta voltar a dizer que o que ela diz é mentira. É preciso propor algo que entusiasme, traga esperança e fé aos eleitores.”

20 março 2017

- UM ATESTADO DE ESTUPIDEZ AOS CIDADÃOS!...

A Procuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, anunciou o adiamento da conclusão da investigação criminal da Operação Marquês, que envolve José Sócrates e outros arguidos. É a sexta vez que tal acontece. O problema, é que na prática, Joana Marques Vidal deixa aberta a porta para que a investigação continue para lá de Junho e o fim da Operação Marquês passa a ser como o Natal - é quando um homem quiser.
Neste caso, o homem é o Procurador Rosário Teixeira, que pode sempre invocar a necessidade de mais investigações ou de enviar novas cartas rogatórias, e aguardar pela respectiva resposta ou de fazer novas investigações – como a que foi realizada esta semana aos escritórios do GES, onde passados que foram mais de quatro anos depois do inicio da operação, ainda nos quer convencer das imensas provas que haverá lá para recolher – isto só para gente que não bate bem da bola.
E é aqui que se torna irritante a maneira como o Ministério Público trata a inteligência dos cidadãos!... Quarenta e dois meses depois de iniciado o processo, constituir arguidos na última semana do prazo para concluir investigações, ou enviar novas cartas rogatórias ou fazer buscas, só pode servir para justificar o pedido de mais um adiamento da conclusão das investigações e não para alcançar nenhum outro objetivo.
Convém lembrar, que José Sócrates foi detido porque supostamente havia factos suficientemente graves para o Ministério Público determinar a sua prisão. Entretanto, o ex-Primeiro-Ministro foi libertado em 16 de Outubro de 2015, e desde aí já passaram 16 meses e as tais provas sólidas e robustas para acusar e condenar Sócrates mantém-se em segredo, continuando a investigação a colecionar documentos e arguidos e a juntar casos ao caso inicial – do motorista de Sócrates foi-se para o Grupo Lena, depois para Vale do Lobo, de Vale do Lobo para o BES, do BES para a PT e agora é tudo junto.
Uma coisa é certa: se “àmanhã” Sócrates for declarado não culpado, ninguém acreditará, e a voz do povo dirá o que repete sempre em casos como estes: os poderosos safam-se sempre. Se for condenado, ninguém se importará grandemente
Mas o que é interessante no meio disto tudo, é que a Procuradora Geral da República quis fazer um paralelo com o caso Madoff nos Estados Unidos, argumentado que o ex-milionário foi investigado durante seis anos. Saiu-se mal!... É verdade que Madoff foi investigado durante seis anos, MAS… sem que ninguém tomasse conhecimento do caso. Nem os próprios visados, nem a imprensa tabloide – como aconteceu com Sócrates e Carlos Santos Silva. Quando Madoff  foi preso, as provas eram tão avassaladoras que foi julgado e condenado em seis meses. Compare-se então, com o que se tem passado na Operação Marquês e constate-se quanto infeliz foi a comparação.
Dito isto, sublinho o seguinte: eu não sei se José Sócrates é culpado ou não dos supostos factos de que é acusado. Sei que ele tem seguramente muitas explicações a dar sobre a relação financeira que mantinha com o seu amigo Santos Silva. Mas sei também, que apesar de todas as informações que vieram de várias partes do mundo, não há uma única conta em nome de José Sócrates onde tivessem estado os tais 23 milhões que o Ministério Público diz que ele recebeu para ser corrompido. Mas sei ainda mais: é que ele está há muito condenado pela generalidade da opinião pública. E esse peso no julgamento será tão desmesurado que tudo o que não seja a condenação de Sócrates em Tribunal, será um enorme escândalo e uma desmesurada vergonha para o Ministério Público.
Por outras palavras, se Sócrates for declarado não culpado, ninguém acreditará e a voz do povo dirá o que repete sempre em casos como estes: os poderosos safam-se sempre. Se for condenado, mesmo que só com provas indiretas ou indiciárias - o que se começa a perfilar como uma enorme possibilidade - ninguém se importará grandemente. Em resumo, qualquer que seja o resultado, a Operação Marquês vai sempre acabar mal.

-CANDIDATO DO PSD À CÂMARA DE LISBOA!... O QUE DIRIA SÁ CARNEIRO?!...

A escolha de Teresa Leal Coelho para a Presidência da Câmara Municipal de Lisboa, é uma excelente notícia para o PS e para o CDS. Passos Coelho pode por isso começar a escrever dois discursos: um de derrota e outro de saída
Pedro Passos Coelho está de parabéns, escolheu a melhor das suas alternativas: ele não tinha outras. Foi à praça dos fiéis disponíveis e só lá estava Teresa Leal Coelho. A abnegação pelo seu amigo é bonita mas o sacrifício dela será o dele. É um nome tão fraco para a Câmara lisboeta que não concorre contra Medina, concorre contra Cristas, o que é o mesmo que dizer, que Passos já não corre por gosto, fá-lo à vista já de todos por desgosto. Ea coisa pode correr tão mal que as eleições de Setembro ou Outubro, poderão até matar dois Coelhos de uma cajadada só. Passos perderá primeiro o Partido, depois o Partido perde-o a ele. Vai dar dó – ou por outra, já dá.
Teresa é leal a Coelho, mas como vereadora da Câmara, por ela ou por interposta pessoa, não se lhe conhece uma ideia sobre a cidade, não se lhe reconhece um acto de oposição, não se lhe conta a presença em mais do que um quinto das reuniões. Na relação com o Partido, é uma formiga política, no formigueiro descontrolado em que se transformou o PSD. Vai receber um programa para a cidade escrito por um velho crítico, José Eduardo Martins, que deve acreditar tanto nela como numa pedra que flutue ali bem em frente ao edifício camarário – o Rio Tejo.
À quinta, sexta ou décima-sétima - nem se sabe bem - tentativa, o PSD entregou a bandeja a Assunção Cristas e a Fernando Medina. Assunção que até foi inteligente, criticando Passos a propósito da banca porque já está em pré-campanha; enquanto Medina nem precisou de ser inteligente, bastando-lhe a burrice alheia. Os dois, que nunca antes foram a eleições, têm estrada livre para ganhar: ele a Câmara, e ela a emancipação no Partido. Bastará ter mais do que os 7,5% que Portas teve no passado. Se acontece o delírio de ultrapassar Leal Coelho, será a vergonha acabada.
É por isso que na capital não se joga apenas a probabilidade de derrota de Teresa, mas também a possibilidade de derrota de Pedro. O PSD já recuou nos objectivos, já não quer ter mais câmaras do que o PS, apenas mais votos do que nas autárquicas anteriores. Agora, condói-se neste não ir a jogo nas grandes cidades, essenciais para as legislativas seguintes.
As autárquicas são em Stembro ou Outubro e o Congresso do PSD em Janeiro. Da janela da São Caetano, Passos já vê os amoladores de facas entrarem. Enquanto isto, António Costa ri-se às gargalhadas debaixo de uma almofada, para não estragar o desarranjinho.
E assim vai o moribundo PSD – quem diria Mestre Sá Carneiro…

16 março 2017

- A BESTA VOLTA A ATACAR...

Sempre que se encontra em dificuldades, quer ao nível da política interna alemã, quer ao nível do confuso e decrépito cenário político europeu, o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, tira sempre da cartola a eminência parda de um novo resgate a Portugal. (Ver notícia aqui).
Na senda do seu fiel seguidor e amigo de peito - Passos Coelho, Schäuble também é um devoto do diabo a quem acena e invoca com particular denodo. Ora, o que aconteceu ontem, deve-o ter deixado colérico e enfurecido. Portugal foi aos mercados financiar-se a curto prazo e contrariamente ao que a besta teutónica pretendia com as suas declarações catastrofistas, as taxas de juro foram negativas e ainda mais negativas do que tinham sido no último leilão de dívida pública a prazos semelhantes.
Ou seja, a besta ladra e os mercados assobiam para o ar. É que para os mercados, vale mais hoje em dia um suspiro do senhor Draghi, do que uma saraivada de latidos do senhor Schäuble, que se arrisca a fazer as malas em Setembro, caso a dona Merkel perca as eleições para o SPD - cenário cada vez mais provável de acordo com as sondagens mais recentes.
Este tipo de intervenções do Ministro alemão, deviam merecer de imediato um protesto diplomático veemente por parte do Governo português. e por uma simples razão: é que elas revelam que a besta se acha uma espécie de capataz a zurzir numa cambada de escravos que tem que baixar a cabeça sob o estalido da verborreia dos seus sonhos de ditador.
As nossas elites e a classe política quase toda, continuam a defender que o país se deve manter alinhado com uma vocação europeísta e contribuir para a prossecução de um programa de integração económica que deve ser aprofundado. Uma coisa é certa: cada vez mais, duvido do sucesso e vantagens desse percurso, principalmente quando ouço declarações deste tipo e a forma como este e outros personagens tratam e consideram os países mais pequenos e economicamente mais débeis.Ou por outras palavras: teimam em tratar-nos como colónias e territórios subordinados, que devem obedecer sem discussão aos ditames dos donos do império.
Por isso, o debate sobre o que podemos esperar da Europa não é, longe disso, um debate descabido ou sequer radical, mas sim uma necessária e urgente reflexão. Por enquanto ainda temos alguma soberania e podemos fazê-lo completamente a margem de autonomia política que ainda temos e nos permite decidir o nosso destino como nação soberana. Ou batemos o pé contra estas "bestas" ou qualquer dia perdemos essa possibilidade.
Resistir durante mais de 800 anos como nação independente e virmos a passar de colonizadores nas sete partidas do Mundo a colonizados dentro da nossa própria terra, zurzidos por Schäuble ou outra qualquer besta alemã, não me parece ser um grande desígnio nacional.
A obrigação do nosso Presidente da República e do Primeiro Ministro, seria pois pronunciarem-se sobre estas declarações e exigir que o país fosse respeitado e não sujeito ao reiterado bullying político do sr. Schäuble, protestando formalmente junto do Governo alemão pelas abusivas interferências do seu Ministro  das Finanças  nas opções da nossa política interna.
Se nada fizerem e nada disserem, só lhes deixo para reflexão um conhecido ditado popular: "Quanto mais a gente se baixa, mais se vê o cú".

13 março 2017

- JUSTIÇA DEIXA MARCELO DESCONFORTÁVEL!...

Quem se mete com a Justiça leva!... Que o diga Sócrates, que enquanto Primeiro-Ministro cortou férias e outras mordomias a Juízes e Procuradores. Desse modo, tornou-se num alvo do ódiozinho de estimação dos senhores Magistrados.
Perante este caso de exemplar retaliação - Sócrates já está destruído politicamente para todo o sempre, seja ou não culpado de qualquer ilícito, porque a Justiça já o enforcou e condenou na praça pública antes de o condenar em julgamento - todos os actores políticos temem pronunciar-se sobre as reiteradas e cirúrgicas quebras do segredo de Justiça patrocinadas pelos senhores Magistrados, e sobre a conivência e promiscuidade com certa comunicação social. Chega-se ao ponto de os arguidos serem confrontados com factos acusatórios pelos jornais antes destes lhes serem apresentados, permitindo-lhes fazer em sede de inquérito a sua defesa, antes da divulgação pública dos mesmos factos.

Deste modo, quer os partidos, da direita à esquerda, quer o governo actual quer o anterior, evitam pronunciar-se na praça pública. Temem ser acusados de se quererem imiscuir na acção da Justiça, e serem desse modo acusados de atacar a independência da mesma, um dos pilares cruciais do Estado de Direito. No caso da Operação Marquês, envolvendo Sócrates, o PS especialmente, foge do tema como o diabo foge da cruz, temendo ser acusado de querer defender o ex-Primeiro-Ministro e seu militante.

Mas não são só essas as razões que levam os actores políticos a não se pronunciarem sobre o tema. A questão é que os políticos temem a Justiça, e sabem que hostilizar a corporação dos senhores Juízes, pode levar a que a ira destes e a sua sanha persecutória se volte contra quem lhes aponte o dedo.
No fundo, políticos, partidos e companhia, todos tem telhados de vidro, e caso fossem sujeitos ao escrutínio e devassa que foram usadas contra Sócrates, provavelmente poucos cumpririam a cem por cento todos critérios de legalidade e transparência.

Nesse sentido, é de sublinhar as declarações feitas hoje por Marcelo Rebelo de Sousa, (Ver notícia aqui) que veio a público colocar o dedo na ferida e mostrar o seu desconforto com o estado da Justiça em Portugal, trazendo a debate especificamente a problemática da quebra do segredo de justiça, a realização de julgamentos na praça pública e a justiça de pelourinho.
Marcelo parece que é o único que não tem telhados de vidro e que não teme as represálias dos senhores Magistrados. Não deve dever nada a ninguém, nunca deve ter pedido dinheiro a amigos - coisa de que nem todos os Juízes se podem orgulhar, como se viu com juiz Alexandre.

E mesmo nas variadas vezes que passou férias e Natais no Brasil com o Dr. Ricardo Salgado, deve ter pago o hotel do seu próprio bolso e guardado as facturas.É que se não guardou, Marcelo pode estar em sarilhos: depois do recado que mandou hoje aos senhores Juízes, ainda se arrisca a ser o próximo arguido da Operação Marquês.

09 março 2017

- O PRIMEIRO ANO DE MANDATO DE MARCELO REBELO DE SOUSA!...

Declaração de interesses: não votei em Marcelo!... Mas o paradoxo, é que provavelmente, como muitos que nele não votaram, me sinto hoje muito mais confortável com o seu primeiro ano de exercício, do que a maioria dos que nele votaram.

A direita anda amuada com Marcelo, esperava um Presidente conspirador, uma versão mais refinada - e por isso mais perigosa - da mão atrás do arbusto,  um fazedor de cenários políticos,  e saiu-lhe um Presidente colaborante com o Governo, prezando a estabilidade acima de tudo. Esperava um Presidente que lhe desse boleia para o regresso à governação conseguida à custa do regresso do diabo e das sete pragas do Egipto nos cornos do mafarrico, e saiu-lhe um Presidente que diz e defende, que tudo o que for bom para o país terá a sua bênção, mesmo que seja a esquerda a consegui-lo.

E o país está com o estilo Marcelo!.... A popularidade do Presidente atinge níveis quase estratosféricos. O estilo não é tudo, mas ajuda muito. Marcelo encarna várias simbioses de quase impensável casamento que só ele mesmo conseguiria alcançar. E aí, o mérito é só dele e das suas qualidades e defeitos pessoais. Ser da esquerda da direita, ou da direita da esquerda se preferirem, não é para qualquer um. Marcelo, tem conseguido até ao momento, desatar esses nós e juntar essas dicotomias e oposições.

Tal popularidade tem assentado em dois eixos cruciais!... Em primeiro lugar, Marcelo não tem tido que gerir grandes conflitos políticos, por uma simples razão: é perito em evitar que os conflitos surjam e segue uma estratégia de medicina preventiva de forma a não ter que os arbitrar. Como se sabe, os árbitros são sempre os maus da fita, sobretudo para aqueles que se sentem prejudicados pelas suas decisões, e Marcelo - acima de tudo - quer ser sempre o bom da fita, qual policia justiceiro e imparcial.

Nessa senda, o seu segundo eixo tem assentado na dessacralização da função presidencial!... O Presidente não está altaneiro e distante no alto do seu castelo a reinar. Está pelo contrário, sempre no meio do seu povo. Tanto recebe banqueiros como almoça com os sem-abrigo; tanto bebe sumos de laranja no bar do liceu que frequentou quando jovem, como usa com todo o à-vontade os talheres de prata em almoços de Estado com personalidades estrangeiras que nos visitam. Mas mais que  esta dualidade,  a causa maior para a popularidade de Marcelo, é ele interpretar tal dualidade de forma genuína e não forçada. Se não fosse genuína, mais tarde ou mais cedo iriam surgir gaffes de desempenho que o povo não perdoaria e a queda do pedestal seria inevitável. Mas não!... Antevejo que Marcelo não irá cair tão cedo, e talvez nunca chegue mesmo a cair, optando talvez pelo cúmulo da glória que seria sair de cena pelo seu próprio pé, não se recandidatando. Ele é one man show, uma espécie de artista que sem orquestra ou acompanhamento, enche só por si o palco sem desiludir o público.

Como disse acima, a direita anda amuada com Marcelo, e boa parte da esquerda ainda anda de pé atrás e desconfia. Mas - digo eu - em boa medida, não tem razão para desconfiar e por um simples motivo: Marcelo não tem alternativa senão apoiar o Governo e ajudá-lo a levar a nau da Geringonça a bom porto. Para o não fazer, teria que ter à direita do espectro político outras personagens, outras práticas e outros programas políticos. Mas o que se vislumbra à direita, é um grupelho de imbecis a lamber ainda as feridas do seu inesperado afastamento da governação. Gente sem ideias, sem postura ética, sem qualquer desígnio estratégico para o país, a não ser a satisfação de interesses pessoais e de grupos restritos. São demasiado cábulas e maus alunos para passarem no exame do Marcelo, que ao que consta, nunca deu notas aos estudantes de acordo com a sua cor política, nem para outorgar benefícios indevidos e injustificados. É por isso que, nesse aspecto, custa menos a Marcelo aceitar as contribuições para a governação do PCP e do BE, desde que vinda de gente competente - uma espécie de estudantes aplicados -, do que do PSD actual, onde ciranda uma manada de incompetentes - ou seja um grupo exemplar de alunos relapsos.

Não quero dizer com isto que Marcelo tenha denegado a sua matriz política identitária original. Essa matriz persiste e materializa-se na defesa de três pilares fundamentais que são as suas linhas, não direi totalmente vermelhas, mas pelo menos cor de rosa choque: a Nato, a União Europeia e o Euro. Mas como tais linhas são da ordem da macropolítica e da inserção do país na geopolítica europeia e mundial e não do foro da política interna corrente.Mas como o PS não se propõe para já ultrapassá-las ou sequer discuti-las - ainda que vá manifestando aqui e ali algum incómodo com tais temas -, a Geringonça, enquanto for este o cenário, terá a benção sincera de Marcelo.

Porque não é uma política de maior equidade na distribuição do rendimento, reposição de salários e pensões, que pode causar engulhos ao Marcelo-cristão praticante, longe disso. Ele que tanto elogia o Papa Francisco, voz que tem colocado grande ênfase na sua pregação nos temas da desigualdade. Logo neste aspecto, Marcelo tem razão, já que está à esquerda da direita, pelo menos da direita fundamentalista e neoliberal que temos a dominar o PSD e o CDS.

Mas se a bandeira da luta contra a desigualdade passar por discutir as causas que a originam (a organização económica capitalista, as assimetrias entre os países europeus da periferia e os do centro, potenciadas por uma integração económica imperfeita e por uma moeda única que é o seu veículo), nesse caso Marcelo já não consegue ir tão longe, e os limites ideológicos da sua formação de homem do sistema, vem ao de cima e aí passa a ser, como bem disse o próprio, a direita da esquerda.

Portugal como nação antiga que é, talvez tenha uma sagacidade colectiva que só é apanágio das velhas estirpes, e por isso, talvez tenha produzido e escolhido o tipo e o estilo de Presidente que mais se adequa ao actual momento político, quer em tempos do cenário interno quer em termos do palco mundial. Um pequeno país, num mar infestado de tubarões, só unido e com uma liderança que empolgue e potencie o que têm de melhor pode subsistir e sobreviver. E nessa missão Marcelo, até ver, não tem desiludido.