A FRANÇA AO RUBRO!... ( PARTE II)
Com:LusoJornal/RR
- O ISLÃO COMO INIMIGO
A popularidade da Frente Nacional entre a comunidade portuguesa e luso-descendente não surpreende Nonna Mayer. Recebe-nos no seu gabinete no Centro de Estudos Europeus da Universidade Sciences Po, um cubículo demasiado pequeno para tantos livros sobre extrema-direita, eleições, raça e imigração. Um separador reúne apenas escritos sobre os Le Pen e a Frente Nacional. Nonna é uma das maiores autoridades na matéria. Começou a estudar a extrema-direita francesa por volta das eleições europeias de 1984 – o primeiro resultado significativo da FN, 11% dos votos.
“A ideia de que os benefícios sociais vão para pessoas que não os merecem – os pobres indignos e os imigrantes indignos – é uma história muito clássica, não é específica da França. Algumas pessoas dizem: ‘Como é que se pode ser imigrante e votar num partido anti-imigrantes?’ Ora, isso depende: uma pessoa pode ser imigrante, vítima de racismo e xenofobia, e ter os seus próprios bodes expiatórios, ter a sensação de que há outros imigrantes que não se comportam como deve ser. Não é assim tão ilógico votar na Marine Le Pen. Veja-se o caso de Jean-Marie Le Pen, famoso pelos seus comentários anti-semitas: mesmo assim, os inquéritos dizem que cerca de 13% das pessoas que se consideram judias votaram na Marine Le Pen em 2012.”
A evolução da Frente Nacional manteve Nonna Mayer no seu rasto. Descobriu que o partido desfez as velhas “clivagens” (religião e classe) que geraram o quadro partidário tradicional, conseguindo unir nas urnas “inimigos de classe” históricos, como patrões e operários.
Recentemente, voltou ao seu velho objecto de análise num estudo sobre a sociologia política da precariedade. “Não é só o ser-se pobre, não é apenas uma questão de dinheiro, é o facto de se estar isolado, de não saber se vamos ter o suficiente para comer ou para ter uma casa amanhã”, explica. Entre os inquiridos, ouviu muitas pessoas em situação precária que vêem em Marine “alguém interessante” e imigrantes a dizer “se calhar temos demasiados imigrantes”. “Muitos disseram: ‘Eu sou de origem imigrante, mas, na minha família, nós trabalhámos muito, trabalhámos muito para nos integrar, e os novos imigrantes não’.”
Muitos dos inquiridos por Nonna Mayer e Céline Braconnier votaram à esquerda em 2012. “Mas alguns disseram: ‘Vê? Ao menos quando Marine Le Pen fala, nós percebemos. Ela diz as coisas muito claramente. E ela é menos burguesa do que os outros candidatos."
A Frente Nacional não está sozinha. Um pouco por toda a Europa forças classificadas como populistas atacam a imigração, o islão e o “sistema”. “O problema é que hoje, por toda a Europa, temos este tipo de partidos. São muito diferentes, não têm a mesma história que a Frente Nacional, mas há extremas-direitas que são populistas, nativistas, proteccionistas, eurocépticas. Estão por todo o lado. Crescem, dizem elas, porque protegem os perdedores da globalização.
“Este é o factor por detrás disto, o factor que lhes permitiu desenvolverem-se”, teoriza. “É o medo da globalização. E, na Europa, o medo da integração na União Europeia. Quando entrevistámos pessoas que votam na Frente Nacional, elas dizem-nos que a União Europeia é uma porta aberta para mais imigração. E isso não quer dizer que este é o problema, mas é enquadrado como um problema pela Frente Nacional.”
No discurso do partido, com a queda do comunismo, a imigração tornou-se o prato principal. Nos últimos anos, aponta Mayer, esta posição cruzou-se com um “novo inimigo”: o islão. “Têm o contexto ideal: refugiados a chegar, dois anos com uma série de ataques terroristas e o arrastar da recessão, da crise económica e do desemprego”, analisa a socióloga.
“Ela diz que está contra o fundamentalismo islâmico e mudou de forma muito inteligente o discurso. Ela afirma: ‘nós somos os campeões da democracia, estamos a defender a democracia contra a ameaça do fundamentalismo islâmico’. Ela coloca-se como uma guerreira contra o fundamentalismo islâmico, visto como uma ameaça aos direitos das mulheres, aos direitos dos homossexuais, aos direitos dos judeus. Diz que a Frente Nacional é a campeã da secularização, um velho princípio da república francesa, o que faz com que a plataforma dela, que é, desde sempre e antes de tudo, como nos tempos do pai dela, anti-imigração, se torne mais aceitável face aos valores da democracia.”
A mudança no discurso da FN ficou conhecida como a “desdiabolização” e chegou ao ponto de levar Marine a condenar as palavras do pai quando este disse que as câmaras de gás foram um “detalhe” da história da II Guerra Mundial. Mas, para Nonna Mayer, “no que diz respeito a rejeitar o outro, a rejeitar as minorias, a rejeitar os imigrantes, a linha mantém-se, dentro do partido e entre os seus eleitores”. Os estudos que fez provam isso mesmo: os eleitores da FN “são sempre mais intolerantes do que todos os outros”.
- EXTREMISTA, EU?!...
Davy Rodríguez de Oliveira, o vice-presidente da juventude da Frente Nacional, sorri quando lhe falamos em Nonna Mayer. Garante que o partido mudou mesmo. Se não tivesse mudado, assegura, ele, que há poucos anos militava pela esquerda, não estaria a falar connosco no número 165 da Rua Jeanne d'Arc, rodeado por livros (de Marx – sim – a tomos sobre a II Guerra Mundial e religião).
Nonna investiga onde Davy, que tem 23 anos, estuda. Em 2015, ele e outros jovens quebraram a rotina da prestigiada Sciences Po, onde estudaram François Hollande, Jacques Chirac e José Sócrates: abriu um grupo representativo da Frente Nacional. Antes, tinha estado no Partido Socialista e no Parti de Gauche, comparável ao português Bloco de Esquerda. O que o levou à outra ponta do espectro político? Ele, que na entrevista à Renascença cita o marxista Žižek, rejeita a geometria. “A FN é um partido um bocadinho diferente dos outros porque não é de esquerda nem de direita. É um partido que diz: tens de um lado os patriotas e do outro os mundialistas. Os que querem defendem a cultura francesa, as culturas europeias e os modelos sociais e, do outro lado, os que querem desfazer os países para impor a União Europeia”, argumenta. A esquerda pareceu-lhe já “submetida” à União Europeia.
- ORIGEM GEOGRÁFICA DOS EMIGRANTES EM FRANÇA ATÉ 2013(ÚLTIMO CENSUS)
Entre os quase 6 milhões de imigrantes que viviam em França em 2013, os portugueses representavam cerca de 10% do total. São a nacionalidade europeia mais representada, e a terceira a nível mundial, atrás dos argelinos e marroquinos. Estes números incluem apenas os imigrantes de primeira geração. Fonte: Insee, censos da população de 2013
Uma conversa com Gaëtan Dussausaye, presidente da Front National Jeunesse, foi decisiva para alterar a forma como Davy via o partido. Diz ele agora: a FN não é “extremista”, “racista” ou “homofóbica”, só tem posições claras. Uma delas: “Estamos a favor de uma política de assimilação das populações que estão a chegar de África. É dizer ‘não’ a pessoas que chegam a um país e que impõem a sua cultura a esse país. Se vêm viver para a França é porque querem viver como franceses, como europeus.” O programa de Marine advoga a “assimilação republicana, princípio mais exigente do que a integração”.
Mais à frente, Davy reforça a ideia de que há bons e maus imigrantes e descendentes de imigrantes. E os portugueses estão, regra geral, entre os bons. “Os franceses com origens portuguesas estão muito mais bem assimilados do que as populações africanas”, acredita. Hoje, conclui, a imigração tornou-se um problema. Económico (com a taxa de desemprego a rondar os 10%, a “prioridade nacional” deve imperar – mesmo que entre os imigrantes a taxa de desemprego seja o dobro, segundo dados de 2015 do instituto nacional de estatísticas francês) e social.
Nas 144 medidas apresentadas por Marine Le Pen, a “prioridade nacional” traduz-se, por exemplo, numa taxa a aplicar aos trabalhadores estrangeiros. Uma medida que afectaria os cerca de 500 mil portugueses sem nacionalidade francesa.
“Nos subúrbios de Paris há muito racismo contra os brancos. Em muitos sítios os brancos são uma minoria e são discriminados por serem brancos”, garante Davy, que vive em Saint-Ouen-l'Aumône, a 27 quilómetros do centro da capital. Thibauld Dujardin, companheiro de partido, ficou desiludido com Sarkozy e Hollande por não conseguirem impedir novos motins nos subúrbios parisienses, depois dos eventos trágicos de 2005. Foi por isso que aderiu à FN. Diz que, em vez da multiculturalidade, impôs-se uma “uniculturalidade”, que não é francesa. É árabe? “Estou a falar de qualquer cultura que não é assimilada pela cultura francesa.”
Nonna Mayer conhece este discurso. “O truque de Marine Le Pen é focar-se exclusivamente nestes subúrbios”, alerta. Os problemas de delinquência não são o todo, mas a parte: “não se pode extrapolar para França e para todos os imigrantes”, nem sequer para todos os subúrbios, defende.
A socióloga reconhece problemas, mas foca-se nas causas. “Estamos numa situação em que é difícil conseguir atingir objectivos económicos e é mais fácil concentrar o debate político em questões de identidade”, observa. “O problema não está na assimilação, mas em dar os meios”, argumenta. “Muitas vezes, mesmo quando têm um curso superior, por causa dos nomes e por causa dos bairros sociais de onde vêm, as pessoas não os aceitam. Há muitas provas que mostram que há discriminação. Para o empregador, não é a mesma coisa se o teu nome é Mohammed, Frédéric Dupont ou Mohammed Ben Ali. Existem problemas, mas o essencial é não concentrar a discussão na religião ou na imigração, mas sim no que podemos fazer para os ajudar a sair da miséria. Estes subúrbios desfavorecidos não são habitados apenas por imigrantes e filhos de imigrantes. Considero que o primeiro problema é económico e social.”
- ALERGIA À POLITICA
A portuguesa Luciana Gouveia vive perto de Saint-Denis, o departamento dos arredores de Paris “que é mais categorizado como multicultural. Mas a França é isso mesmo”. Coordena os projectos da Cap Magellan, a maior associação de luso-descendentes em França, que passa despercebida num recanto sossegado da Avenue de la Porte de Vanves. O edifício concentra várias iniciativas com bandeira portuguesa: a Cap Magellan, o “LusoJornal” (semanário franco-português) e a Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa. Ali ao lado, um café ostenta uma bandeira da Colômbia e serve pizas para fora. Um exemplo da multiculturalidade que Luciana receia estar em risco se Le Pen for eleita Presidente.