
1- Foi uma tragédia!... Uma
das maiores que aconteceram em Portugal desde há muitos anos. Foi a brutalidade
da perda de pelo menos 64 vidas em condições dramáticas, que deixaram o país
impressionado, comovido e de luto. Para quem gosta de hipérboles, é caso para
dizer que desta vez sim - o diabo saíu à rua. Saíu e deixou rasto com uma
violência trágica tal, que nunca ninguém imaginaria ser possível nos tempos que
correm, em consequência de um fogo florestal.
É pois perante tal fenómeno,
que sem qualquer conhecimento técnico sobre o assunto, para além do óbvio
interesse e preocupação de um vulgar cidadão minimamente atento e preocupado
com os custos enormes destes cenários de destruição, que tenho alguma
dificuldade em compreender a inevitabilidade dos mesmos e recusarei por isso
apontar culpas, “engrossando a coluna” de ignorantes disfarçados de sábios, que
não hesitam em tudo que é comunicação, a darem palpites sem o mínimo fundamento
e conhecimento da matéria.
Há porém uma coisa que não
poderei aqui deixar de registar, porque essa sim é real: fazer justiça!...
Fazer justiça e louvar quem esteve no “teatro das operações” e a quem viveu no
terreno este drama durante horas e horas a fio sem descanso, dando o melhor de
si, e fazendo das fraquezas forças para que os danos fossem minimizados até ao
que era humanamente possível.
Não quero com isto dizer que
não tenha havido falhas!... É óbvio que porventura as houve, mas isso é próprio
da condição humana. Como diria Voltaire, “ se o homem fosse perfeito seria
Deus”. Agora, há que analisá-las para que no futuro essas eventuais alegadas
falhas possam ser minimizadas.
2- Numa segunda abordagem e
numa perspectiva mais ampla daquilo que é o drama dos incêndios, não poderia
porém deixar passar em claro o seguinte: sem se perceber muito bem porquê,
todos os anos se anunciam novas estruturas de resposta rápida e meios de
combate - designadamente meios aéreos mais sofisticados, ao mesmo tempo que
somos informados de melhorias nos dispositivos de prevenção, do aumento de
meios à disposição e da racionalização da gestão dos recursos. E sendo assim,
pergunta-se: mas que estruturas, que meios e que dispositivos de prevenção?!...
Será que estamos perante um destino que não pode ser evitado?!... Tratar-se-à
de uma área de negócios – que denominarei como a fileira do fogo, que pelos
muitos milhões que envolve, importa manter e fazer funcionar sazonalmente?!...
Tratar-se-à somente de incompetência na decisão política e técnica em termos de
resposta e prevenção?!... Tratar-se-à da falência de modelos de desenvolvimento
facilitadores de desertificação e abandono, designadamente das áreas
rurais?!...
Tenho para mim - que reitero
não ter conhecimentos específicos na matéria, o facto do país se encontrar
todos os anos mergulhado nesta praga dos incêndios, não é um problema de hoje
nem de ontem!... É pelo contrário, consequência natural de uma politica
florestal errada, seguida ao longo de mais de 30 anos. E porquê?!...
Simplesmente porque os sucessivos Governos resolveram demolir estruturas muitas
delas centenárias, que tratavam da floresta e do território, as quais
utilizavam todos os seus recursos no combate aos incêndios e aos incendiários.
Governos, que destruiram tudo o que havia no Estado, e recorreram aos mercados
privados, para que fossem estes a lidar com o problema e a resolvê-lo,
fomentando dessa forma negócios milionários que passaram a organizar-se em
torno de tudo que seja incêndios. Negócios com uma perspectiva de crescimento e
uma sustentabilidade, que naturalmente vem mostrando ser inversamente
proporcional à sustentabilidade da floresta.
E o escândalo atingiu tal
dimensão, que é hoje mais que necessário e inevitável, começar a falar em novos
esquemas de prevenção e ordenamento, porque estes – como está a vista -
efectivamente não servem. E esse papel cabe ao Estado e particularmente a este
Governo – já que outros o não fizeram.
Depois da tragédia de
Pedrógão, adivinho que virão aí "abordagens integradas", "novas
metodologias de actuação", uma "nova visão sobre a floresta" e
todo um conjunto habitual de "lengas-lengas", que justificarão a
legislação que permitirá definir a nova área de negócios que emergirá destas
catástrofes, ou seja, mais do mesmo.
Ora isso e com muita pena
minha é curto - muito curto. Hoje, qualquer cidadão medianamente informado
percebe, que para alterar a situação actual é necessário mudar de politicas. O
que está a desenhar-se no horizonte se nada mudar, é uma combinação de vários
factores explosivos: o acentuar da desertificação do Interior, a queda da
natalidade, o abandono da agricultura e o desordenamento do território, que
redundarão num gravíssimo problema que é a erosão do Estado Social e a
eucaliptização do país.
Senhores politicos!... A
teoria neo-liberal de menor Estado melhor Estado, aqui não colhe. O país
precisa de segurança, e a segurança tem um preço que cabe ao Estado dirigir e
suportar.
Já o poeta falava de um fogo
que arde sem se ver, e é bonita essa imagem!... Mas quando um fogo arde e se
vêem os seus efeitos devastadores e dramáticos, e quando rouba “histórias de
vida” a tantas pessoas, dói. Dói, e não se perdôa, mesmo que não saibamos o
quê, nem a quem. É chegado pois o tempo para uma reflexão profunda sobre as
causas de tudo isto e da crueldade que todos os anos nos atinge.





