19 outubro 2017

INCÊNDIOS | A DIGNIDADE E A INDIGNIDADE POLITIA...

1 - Como já tinha referido em comentários anteriores, a Ministra da Administração Interna não tinha condições para continuar no cargo e acabou mesmo por se demitir. Não vou dizer que o fez tarde e a más horas, porque isso seria injusto. E seria injusto, porque se ficou agora a saber, que já havia solicitado a sua demissão logo após os acontecimentos de Pedrógão. E soube-se até mais: que só aceitou manter-se em funções a pedido de António Costa, e para servir os interesses do País, o que contraria a tese daqueles que levianamente não se cansaram de afirmar, “QUE ESTAVA AGARRADA AO PODER E QUE SÓ QUERIA TACHO”.
Perante este último facto, há desde já uma primeira ilação a tirar: ou os portugueses se mantêm de “pestanas bem abertas” contra esta mentalidade populista, ou não tardará muito que sejamos conduzidos a um qualquer Governo liderado por um Trump português. Obviamente que não será o asqueroso Ventura, mas será com toda a certeza, outro qualquer que o sistema – coadjuvado pela pior direita de que há memória, se esforça por gerar a seu tempo, aproveitando-se da desgraça alheia.
Ao dar-se credibilidade a este “populismo perigoso e demagógico” desse dito sistema, que nada mais tem para oferecer ao país, senão isso mesmo, estamos ainda que indirectamente, a contribuir para que cada vez menos pessoas sérias, capazes e competentes, queiram sujeitar-se a ser diariamente atacadas, vexadas e vilipendiadas apenas pelo facto de exercerem um cargo político. E esta - tome-se nota - é uma das causas porque vemos o declínio constante e progressivo da classe política, seja ele exercido ao nível do Poder Central ou Local.

2 - Quanto aos incêndios!... É um facto que é impossível ficar indiferente a tamanha tragédia, particularmente à daqueles que foram mais atingidos, e se traduziu na perda de vidas humanas e do trabalho de uma vida. Mas a enormidade dessa tragédia mostra também a outra face da moeda!... Mostra o quanto pequeninas são, boa parte das nossas lideranças políticas e figuras, entre quem governa, entre quem governou, entre quem nos quer governar ou "guiar", entre quem discorre sobre tudo quando sabe pouco ou nada, ou entre quem tem o dever de informar e não vender imagens e discursos que nos indignam.
O tempo, a tragédia, a dor, a ética, a solidariedade, o respeito, mais do que aconselhar, exigem contenção nos discursos e acção, e nunca "políticas pequeninas" visando a contabilidade nas urnas, ou o que acham que o "povo" quer ouvir. Assunção Cristas e certa comunicação social, são os expoentes máximos dessa manigância populista.
Dito isto, quem espera por uma “varinha mágica” que possibilite varrer os incêndios do país, ou é ignorante ou vive na lua. Para ser simpático, há mais de 30 anos que sabíamos que os incêndios iriam ser uma calamidade quer em Portugal, quer na Peninsula, quer em muitos outros lugares. No caso português, aquilo que foi feito ao longo dos anos para pelo menos amenizar o problema, foi consecutivamente atirar com ele para debaixo do tapete, e quem viesse atrás que fechasse a porta.
E assim aconteceu também com o Governo PSD/CDS!... Governo que com Passos Coelho como Primeiro-Ministro e Assunção Cristas como Ministra das Florestas, cortou no Orçamento do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, o montante de 21 milhões de euros, passando dos anteriores 82 milhões, para 61 milhões.
Mais: o orçamento para investimento na defesa da floresta, foi o que mais sofreu com os cortes, particularmente entre 2013 e 2015!... Entre esses anos, as verbas atribuídas para o efeito, passaram de 9 para 3 milhões de euros, e em 2014 foram praticamente obliteradas, passando para 500 mil euros. Esta foi pois a “grande reforma da floresta“, levada a cabo pelo Governo PSD/CDS, que assim continuou a entregar toda a gestão dos incêndios aos privados.
A- Privados que cobram ao erário público valores que atingem os 50.000€/hora pela utilização de meios aéreos;
B- Privados que fabricam ou importam e vendem ao Estado equipamentos e material de combate aos fogos - tudo material de desgaste rápido e passível de permanente renovação;
C- Privados especializados em aquisições e preparação de viaturas de combate a incêndios - significativamente subsidiadas pelo Estado - que asseguram a substituição das que todos os anos se perdem ou deterioram em operações;
D- Privados especializados em comunicações de que é exemplo o famigerado SIRESP que factura milhões ao Estado;
E- Privados que facturam através de empresas "especializadas" na reconstrução - subsidiada pelo Estado - de imóveis urbanos destruídos ou atingidos pelos incêndios;
F- Privados que facturam através de empresas "especializadas" na reflorestação - paga pelo Estado - das florestas queimadas;
G- Privados que facturam através das IPSS que encaixam milhões em donativos - caso recente de Pedrogão e depois não prestam contas a ninguém do dinheiro que receberam;
H- E finalmente os privados ligados à comunicação social, que facturam e muito – particularmente as televisões, que montam autênticos circos mediáticos altamente dramatizados com a repetição dias seguidos de imagens dramáticas e chocantes, porque a publicidade passada nos intervalos do dito circo é muito mais lucrativa e porque além de ser mais cara tem mais audiência.
ESTE É POIS O NEGÓCIO DOS INCÊNDIOS QUE URGE MINIMIZAR. Neste contexto e tendo em conta que salvo raríssimas excepções bem identificadas em que os incêndios têm por origem mão humana, há também que dizer que o homem não é pirómano por definição, e sendo assim, considero-me no legitimo direito de suspeitar, que anda por aí muito boa gente a atear incêndios para depois os ir apagar e assim poder emitir a respectiva factura para o Estado pagar com o dinheiro dos nossos impostos.
Enquanto o Estado persistir em não entender a quem aproveita o "crime" e que o "crime" neste caso até compensa, bem pode continuar a procurar os "responsáveis", que é o mesmo que procurar uma agulha em palheiro.

3 - No plano politico, já se percebeu que Assunção Cristas é a principal intérprete da demagogia e do oportunismo politico; já se percebeu que é mesmo a “rã que quer ser boi” segundo a evocação do “camarada Jerónimo“; já se percebeu que no imediato é o PSD que fica mais fragilizado ao ter que ir a reboque da “rainha do populismo”; e já se percebeu que António Costa - porque não soube tirar ilações políticas desde o Verão - e não era apenas demitir a sua ministra predilecta que se impunha, mas introduzir alterações de fundo no funcionamento da Protecção Civil, verá a partir de agora a sua vida mais dificultada e a sua autoridade diminuída.
Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, esse “não falha”!... E não falha desde logo porque não arrisca. Dissolver a Assembleia da República - os outros que o façam numa alusão clara ao PCP, ao PEV e ao BE. Podem porém Marcelo e a direita descansar!... Os Partidos que suportam o Governo não irão permitir a dissolução e provocar o seu próprio esvaziamento. A Moção oportunista não passará e o Governo e a maioria que o suportam sairão assim reforçados.

O JULGAMENTO DE UM REGIME INTEIRO...

Ricardo Salgado bem lá no fundo, foi afinal o garanhão que lixou a malta toda, isto é, o grande CORRUPTOR do regime.
Mais do que um ex-Primeiro-Ministro, creio que o que estará em causa neste imenso julgamento que irá ocorrer sabe-se lá quando - é de facto um julgamento do regime inteiro, que um banqueiro durante quase 40 anos, conseguiu manipular, influenciar, seduzir, subornar, enfim… corromper, em função de interesses pessoais, da banca/BES, e não em função dos interesses de Portugal e dos portugueses.
Até Paulo Portas, que à última tentou safar o seu velho amigo Ricardo, se demitiu "irrevogavelmente" da "geringonça de direita", na esperança de fazer cair Passos, e com isso abafar o caso BES-PT e tutti quantti. Porém, o senhor submarino não teve força para tanto, mas o empresariado não deixou de o compensar, e hoje é "petroleiro" na Mota Engil, donde aliás nunca saiu, mesmo quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros – ou fingia que era.
No fundo, Portas nunca deixou de ser Ministro das Obras Públicas da maior Construtora de Portugal. Foi para a política para servir os empresários amigos e financiar o Partido Popular -  que até fazia votar eleitores já falecidos. Milagre que não é aliás exclusivo do CDS.
Tudo isto nos permite concluir com larga segurança, que a acusação patente no Comunicado da PGR é não apenas uma bastonada em Sócrates, mas, acima de tudo, uma acusação de um regime inteiro que Ricardo sempre corrompeu, leia-se, o Bloco Central dos interesses - PSD+PS e marginalmente o CDS, incluindo aqui como elementos passivos dessa corrupção os media, sempre de mão estendida, e a Justiça sempre ineficaz e subserviente aos poderosos e um povo alienado, porque uma sociedade civil fraca gera um povo manso, como diria Torga.

Talvez seja por esta ordem de razões, alinhadas de forma pouco sistemática, que aqui se defende que Sócrates não deve cair sozinho. Seria até injusto que tal ocorresse. Há muito para averiguar, desde as dádivas para campanhas eleitorais, passando pelos negócios do TGV, até às férias paradisíacas em terras de Vera Cruz. 

16 outubro 2017

RICARDO SALGADO E CAVACO SILVA...

Desenganem-se aqueles que julgam que daqui sairá alguma acusação de que Cavaco Silva foi um politico corrupto!... Claro que não saírá, até pela simples razão de que seria preciso, a um dos comuns mortais como eu, "nascer duas vezes para ser mais honesto que o político mais político de todos os políticos", que apesar da sua condição gosta de falar dos políticos e da situação deste país como se não fosse nada com ele.
Acontece, que à luz dos mais recentes desenvolvimentos em torno da operação/processo/caso Marquês, sabemos hoje que existem fortes indícios – vá, vamos todos fazer de conta que respeitamos o princípio da presunção da inocência – de que Ricardo Salgado abriu os cordões à bolsa para corromper grandes figurões como José Sócrates, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, apenas para citar alguns nomes. E que para aí chegar, foi preciso mover mundos e fundos, que levantam questões pertinentes sobre aquilo que parece a microscópica ponta de um gigantesco icebergue.
Temos portanto duas hipóteses: acreditar que os arguidos do caso do século - que surgem em tudo o que é processo polémico - são os únicos potenciais corruptos deste país. E aqui não me refiro à pequena corrupção autárquica, ou tão pouco à corrupção costumeira que gravita em torno da Assembleia da República, mas à grande corrupção que envolve as mais altas figuras do Estado, das grandes empresas públicas e da nata do sector privado. A outra hipótese, menos ingénua - a meu ver, é olhar para o país que temos, e perceber que andamos há décadas em danças de cadeiras, caracterizadas por contratos ruinosos para o Estado e rendas apetitosas para o sector privado, no âmbito dos quais, com elevada frequência, vemos ex-políticos enriquecer de um dia para o outro, não raras vezes após passagem por Ministérios e Secretarias de Estado onde proporcionaram, das mais variadas formas, fabulosas mais-valias para os seus futuros empregadores.
Posto isto, e terminando onde comecei, reitero que não pretendo acusar Cavaco Silva de ter sido um político corrupto. Cavaco Silva desiludiu e envergonhou o país de múltiplas formas, é certo, mas se foi ou não corrupto, é algo que estou certo nunca saberemos. Mas sabemos, por exemplo, que a família Espirito Santo foi a principal financiadora da campanha presidencial de Cavaco Silva em 2006, com um total de 152 mil euros. Que para além de Ricardo Salgado, também José Manuel e Manuel Espírito Santo, bem como António Ricciardi, doaram o valor máximo permitido por lei (22.482€) à campanha de Cavaco, a que se juntaram outros donativos de altas figuras do grupo como José Maria Ricciardi ou Rui Duarte Silveira.
Sabemos também que este apoio se repetiu na recandidatura de 2011, ainda que de forma mais avultada, com a campanha de Cavaco Silva a arrecadar a módica quantia de 253.360 mil euros, doados por um conjunto de administradores e altos funcionários do universo GES, que incluiu os repetentes Ricardo Salgado, José Manuel Espirito Santo e António Ricciardi, mas também outras figuras de destaque como Amílcar Morais Pires e Joaquim Goes.
Acresce a isto, e com esta me vou, que já o barco afundava em meados de Julho de 2014, e eis que Cavaco Silva, o Honesto, declarava ao país que os portugueses podiam confiar no BES, apenas para dias depois, se sujeitar à patética figura de se desmentir, acusando a jornalista que o confrontava com as suas declarações de estar a mentir, mentindo. Um frete destes é obra, não é?!... Depois dos mais de 400 mil euros que a cúpula do GES gentilmente cedeu às suas campanhas presidenciais, dá para desconfiar, não dá?!... Afinal de contas, de uma forma ou de outra, ele parece estar em todas. Será que nos contaram tudo sobre a longa relação entre Ricardo Salgado e Cavaco Silva?!... Esta é a pergunta que fica... 

19 setembro 2017

A ESPANHA SOBRE “BRASAS”!...

Sem que a gente se aperceba muito bem da situação, aqui ao lado em Espanha a coisa está a arder. Não no sentido literal do termo, como durante o verão aconteceu um pouco por todo o Portugal, mas num fogo ainda mais destrutivo.
Quando em 1 de Outubro próximo estivermos a caminho das urnas para eleger os nossos representantes autárquicos, na Catalunha, 8 milhões de catalães estarão a fazer o mesmo caminho, mas para dizerem que não querem ser espanhóis.
Tal como as aspirações separatistas da Galiza – as quais me foram ainda hà dias confirmadas por organizações galegas que passaram pela Festa do Avante – também as reinantes na Catalunha não são um problema recente!... Porém nos últimos anos acentuaram-se com os movimentos independentistas a reclamar um referendo sobre a independência daquele que consideram ser o seu país - a Catalunha. Assim, os desafios ao poder de Madrid têm sido constantes e as duas posições têm-se extremado sem que haja diálogo.
E tanto assim é, que recentemente o Parlamento catalão aprovou a realização de um referendo sobre a independência no próximo dia 1 de Outubro, numa sessão a que não compareceram os deputados dos maiores partidos nacionais, caso do Partido Popular, do Partido Socialista Operário Espanhol e dos Cyudadanos. Ainda assim, a Generalitat da Catalunha acabou mesmo por assinar o Decreto que convoca o referendo independentista na comunidade autónoma da Catalunha.
Enquanto isso, o Governo espanhol chefiado por Mariano Rajoy declarou esta decisão inconstitucional e recorreu para o Tribunal Constitucional para que todas as decisões tomadas pelo Parlamento e pelo Governo Regional da Catalunha relativamente ao referendo fossem anuladas. O Tribunal Constitucional espanhol deu-lhe razão e suspendeu a lei aprovada pelo Parlamento da Catalunha que permitia a realização do referendo independentista, ou seja: declarou o referendo ilegal.
Entretanto, o Ministério Público espanhol já ameaçou com processos judiciais contra a Generalitat e os seus membros!... Porém, através de um dos seus ministros, a Generalitat da Catalunha anunciou que não será respeitada a decisão do Tribunal Constitucional espanhol de suspender a lei do referendo, e dessa forma anular o referendo marcado para o dia 1 de Outubro, acrescentando ainda, que se for essa a vontade popular, a Catalunha declarará a sua independência unilateralmente.
Dizem as sondagens que tem diminuído o número de catalães que defende a independência, mas o Governo espanhol, garante que o referendo não se realizará. Só que o “caldo está a entornar-se” quando é a própria imprensa a destacar em manchetes de primeira página - a do jornal El Periódico é exemplo - a palavra desobediência, o que configura o apontar de um caminho aos independentistas.
Estamos portanto perante um grande imbróglio na Catalunha!... Um imbróglio que funcionará  também como um balão de ensaio para a região da Galiza, onde se diz a pé firme que – “Galicia no es España”.

Aguardemos para ver…

17 setembro 2017

A DESERTIFICAÇÃO EM BARROSO - INTRODUÇÃO

Uma das principais conquistas do pós 25 de Abril de 1974, foi a implementação da democracia no seio das comunidades através das Freguesias e dos Concelhos - agora Municípios. A proximidade entre eleitores e eleitos, entre Poder e cidadãos, passou a ter a partir das primeiras eleições autárquicas de 12 de Dezembro de 1976, uma nova configuração e realidade democráticas.
Hoje, passados que são 41 anos e à beirinha de mais um acto eleitoral que terá lugar já no próximo dia 1 de Outubro de 2017, chegou o tempo de se repensar e reflectir sobre o Poder Local como pilar de um Estado de Direito Democrático que mais fez pela consolidação e reforço da democracia, e dentro da estrutura político-administrativa nacional, aquele que mais é escrutinado, seja pela referenciada proximidade com o cidadão e entidades, seja pelas próprias estruturas fiscalizadores do Poder Político, Administrativo e Judicial do país.
Curiosamente, depois do papel que as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia tiveram no desenvolvimento do pais e das comunidades - faltava o saneamento básico, a rede de distribuição de água, as infra-estruturas rodoviárias municipais, a electricidade, o desenvolvimento empresarial e económico, os transportes públicos e até o apoio social e a escola - volvidos os tais ditos 41 anos, o Poder Local encontra-se hoje como a realidade político-administrativa do país mais mal tratada, mais desvalorizada, mais desajustada da sociedade, mais criticada e mais menosprezada. Isto, apesar de continuar a ser a mais escrutinada, a mais fiscalizada, a mais próxima dos cidadãos e das comunidades, e aquela a quem mais recorrem as pessoas nas “aflições e desesperos” do seu dia-a-dia.
Infelizmente, e como se tudo isto não bastasse, acresce ainda o alheamento dos cidadãos na participação activa da vida política das suas comunidades. À data de 1976, os cerca de 35% de abstenções registadas nas primeiras eleições autárquicas, podem ter sido justificados pelo facto de naquele ano terem ocorrido três processos eleitorais e se ter registado um vazio e desconhecimento face à realidade política autárquica.
Hoje porém, tendo em conta os valores das últimas eleições autárquicas realizadas em 2013 - cerca de 48% dos cidadãos que não votaram, e aqueles que em 1 de Outubro próximo seguirão o mesmo exemplo, levam-nos à necessidade urgente de repensar o panorama do Poder Local, relembrando sempre o papel dos pioneiros na implementação e no desenvolvimento da democracia nas comunidades.
Se é verdade que alguns políticos e a prática política em geral, têm contribuído para o afastamento dos cidadãos do momento privilegiado e único da decisão democrática que reside no direito ao voto, não menos verdade é, a responsabilidade que o Poder Central tem tido na desvalorização, na depreciação do Poder Local, das Autarquias, das Freguesias e de todos quantos aí vão resistindo. Se nada mudar, tudo se desmoronará com o fim das gerações de 30, 40 e 50.
Houve-se agora o Primeiro-Ministro António Costa, falar em descentralização e responsabilização!... Apesar de ser indiscutível, lembrando a própria história autárquica, o papel do Poder Local no desenvolvimento das comunidades e do país e a sua significativa importância na gestão das infra-estruturas e serviços, a afirmação assusta e preocupa. E assusta e preocupa pelo seguinte: como poderão os autarcas dos Municipios do interior fazer face ao drama da desertificação, quando o próprio Governo e à semelhança de todos quantos o antecederam, mais uma vez os esquece, e pelo contrário avança com investimentos de milhões a suportar pelo Orçamento de 2018, para financiar projectos em áreas como a aeronáutica, a energia, a industria dos moldes ou a industria automóvel, em distritos como Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa e Porto?!... Será que o bom momento que a economia portuguesa está a atravessar, não seria motivo suficiente para investir igualmente na revitalização do interior?!....
Por muito que os autarcas façam para agradar aos seus municipes e às suas estruturas, a grande verdade, é que o Poder Local continua a ter um grave problema de estruturação, de definição administrativa, de poder, de responsabilidades e de definição legal nomeadamente no âmbito das atribuições financeiras que já vem de longe. Ora como já ficou dito no artigo anterior, das duas uma: ou o Poder Central se assume ou delega!... Sem ovos não se fazem omeletes, mas já que se fala em descentralização pergunta-se: para quando a revisão Lei Eleitoral Autárquica dando maior responsabilidades aos seus órgãos?!... Para quando a revisão da obsoleta Lei das Finanças Locais?!...
Pois é!... Não basta falar em descentralização. Com a aprovação do Orçamento do Estado para 2017 perdeu-se uma excelente oportunidade para revitalizar o sistema, mas pior do que isso, é que pelos vistos o Orçamento para 2018 também não tráz nada de novo. Para quando por exemplo, a atribuição directa de verbas dos Orçamentos para as Autarquias?!... Para quando a redefinição das competências e responsabilidades - independência administrativa e política - dos Municípios e Freguesias?!...
Descentralizar por descentralizar, incutindo responsabilidades acrescidas no Poder Local onde o Poder Central falha, não resolve o problema, antes pelo contrário. Sem qualquer reestruturação de competências e de governação/gestão dos órgãos autárquicos, a descentralização que se adivinha servirá apenas para tornar mais complexa a realidade autárquica e o papel dos autarcas no desenvolvimento das suas comunidades.
Em resumo!... Das duas uma: ou o Poder Central pega o “boi pelos cornos” e assume por ele a responsabilidade de acudir à interioridade, ou delega competências através de um pacote legislativo a quem o possa fazer. Portugal foi sempre ao longo da sua história um país essencialmente centralista. Durante a I e II Repúblicas, a própria expansão ultramarina contribuíu ainda mais para esse centralismo - os preparativos, a burocracia de apoio e as partidas e as chegadas, centraram-se sempre na “capital do Império”. Todo o poder administrativo foi aí desenvolvido e durou até ao final do periodo designado por Estado Novo. Hoje, ainda que tarde e a más horas, chegou o tempo de mudar!... O actual modelo de organização territorial, apenas ditou ao longo dos anos o desenvolvimento de assimetrias entre o Norte e o Sul, entre o Interior e o Litoral, de que são exemplos a fuga das populações para o litoral, a emigração, e fruto disso a desvalorização do próprio património.
O que eram, o que faziam e como viviam os nossos conterrâneos em tempos passados, foi já aqui dissecado no inicio deste trabalho e é por todos conhecido. Com a III República saída do 25 de Abril de 1974 nada mudou!... Ninguém quis ou foi capáz até hoje, de resolver ou até minorar este problema, antes pelo contrário. A tendência centralista acentuou-se e criou e continua a criar um país cada vez mais desiquilibrado, que levou já várias aldeias à “morte prematura”.
No sentido de contrariar esta tendência, chegou pois o momento de todos nós, cidadãos em geral, e autarcas em particular, trazerem à discussão pública o tema de uma DESCENTRALIZAÇÃO que sirva efectivamente as regiões do interior. Será a única via que poderá minorar este estado de coisas. Em época de eleições autárquicas, é preciso incluir este tema na agenda politica, sob pena de vermos o interior ser sufocado pelo tempo.
As aldeias estão a “morrer” e os nossos concidadãos que tão desamparados têm sido, assim o exigem. Aos autarcas, cabe interpretar a vóz dos cidadãos e aos “profissionais da politica” decidir o destino do país. Portugal, não é apenas LISBOA e PORTO!... Para além destas àreas metropolitanas, que são obviamente importantes, há também um país a precisar de ser visto com outros olhos...

Nos dias que correm, por toda a Europa existem regiões administrativas ou instituições regionais equiparadas. Se quisermos “apanhar o comboio”, Portugal não poderá fugir a essa regra, porque se nada mudar e como já foi referido, tudo se desmoronará com o fim das gerações de 30, 40 e 50.

01 setembro 2017

A TRISTE RESSURREIÇÃO DE CAVACO…

Sem ter a noção de que o seu tempo já passou, de que nada tem de importante ou de interesse para dizer aos portugueses e ao país, Cavaco Silva não percebeu que o convite que lhe fizeram para falar na Universidade de Verão do PSD, foi apenas uma simples deferência que o próprio decidiu aceitar - e até aí nada a dizer.
O que há isso sim a dizer, é que na sua palestra, não vimos um antigo Presidente da República confiante, experiente, conselheiro e sábio, mas apenas um indivíduo ressabiado e ridículo.
Esperava-se de facto muito mais!... Esperava-se um comentário pequeno que fosse sobre a incerteza no mundo e sobre a nova “guerra-fria”, a evolução do país, ou mesmo uma palavra que fosse de incentivo e de confiança dirigida aos jovens que o ouviam. Mas não!... Aquela figura não foi capaz de sair da sua pequenez e dos seus complexos culturais profundos, ao não conseguir libertar-se da sua esfera de antigo contabilista.
Não realçou o crescimento económico nem a paz social, não mostrou contentamento pela redução do desemprego, não salientou a confiança dos agentes económicos, muito menos se referiu ao clima positivo que os nossos parceiros europeus vão demonstrando, face à recuperação do país no seu todo.
Como não podia deixar de ser, os alvos da critica de Cavaco Silva foram “os do costume”, chamando até a atenção para a "verborreia frenética" da maioria dos políticos e para as relações entre a política e o jornalismo, numa lamentável e pindérica referência ao actual Presidente da República que tanto tem agradado aos portugueses, mesmo daqueles que não votaram nele.
Terá Cavaco já esquecido as intrigas das escutas forjadas na sua Casa Civil contra um antigo Primeiro-Ministro, que Fernando Lima se encarregava de levar a José Manuel Fernandes nos encontros previamente marcados numa pastelaria da Avenida de Roma em Lisboa, para este as colocar no jornal Público onde era director e "referência ética do jornalismo e da política"?!... Afinal quem é o “pai” das relações entre a política e jornalismo?!...
Foi de facto lamentável ver um antigo Presidente da República fazer uma figura destas, num papel em que a ignorância e a mesquinhez se fundem na mesma pessoa. Porque razão nos veio Cavaco incomodar e não se ficou pelas praias algarvias a apanhar caranguejos?!...
Ao entregar a formação ideológica dos seus jovens a Cavaco Silva, o PSD prestou um péssimo serviço ao país e a si próprio, já que a história não volta para trás por muito que tentem. Depois do apoio ao candidato racista de Loures e do discurso xenófobo do Pontal, nada melhor do que uma aula de Cavaco Silva para compôr o ramalhete.
Dito isto, sempre ouvi dizer que quem tem telhados de vidro não deve andar à pedrada, mas enfim…