A
MOÇÃO DE CENSURA DO CHEGA: CEDER AO “TERRORISMO” DA EXTREMA-DIREITA, SIGNIFICA
A CAPITULAÇÃO DO REGIME...
André
Ventura descobriu mais um inimigo!... Desta vez, chama-se Luís Neves, a arma
para o combater é uma Moção de Censura, e o palco, o Parlamento.
Mas
por detrás da espuma, da indignação fabricada e da permanente convocação do
medo, começa a ouvir-se uma pergunta incómoda: e se desta vez, o ALVO NÃO
CAIR?!...
Há
políticos que procuram soluções, outros procuram votos, e outros ainda,
precisam desesperadamente de inimigos.
André
Ventura pertence a esta última casta. Precisa de um culpado para cada
desilusão. De uma conspiração para cada derrota. De um adversário para cada
silêncio. De um escândalo para cada dia. E finalmente, precisa de manter o país
permanentemente sobressaltado, porque o sobressalto é o combustível do
populismo, e o medo a sua mais rentável matéria-prima.
Agora,
descobriu Luís Neves e decidiu disparar uma Moção de Censura. Não, contra uma
política concreta do Governo. Não, contra uma reforma estrutural. Não, contra
uma medida económica que esteja a destruir salários, emprego ou serviços
públicos. Não, contra uma opção global de governação. Sim, contra um homem.
E
é aqui que começa a ficar claro o verdadeiro tamanho desta
"operação". Uma Moção de Censura é uma arma constitucional séria e
jamais deveria servir como um foguete de festa popular. Não deveria servir para
produzir MANCHETES durante VINTE E QUATRO HORAS, ALIMENTAR as REDES SOCIAIS
durante QUARENTA E OITO, e desaparecer depois na espuma do ciclo noticioso.
Uma
Moção de Censura, deveria ter por detrás uma razão política de dimensão
nacional - MAS ESTA NÃO TEM!... Mas o que temos então?!...
Temos
um Ministro que vai comparecer no Parlamento, a 8 de Setembro. Um Ministro que
se dispõe a responder ao que lhe for perguntado. Um Ministro que não foge ao
contraditório. E um LIDER PARTIDÁRIO, que ainda não deu como certa a sua
presença, mas que antes desse confronto, corre para anunciar uma Moção de
Censura.
Convenhamos:
ninguém me queira convenvencer que não há qualquer coisa de estranho nesta
pressa!... Quem tem certezas não costuma ter medo das perguntas. Quem tem
provas não teme os factos. Quem tem argumentos não precisa de incendiar o palco
antes de começar o debate.
O
CONTRADITÓRIO é o TERROR SECRETO de todo o populista. E porquê?!... Porque o
populista é forte enquanto fala sozinho. É imbatível enquanto escolhe a
pergunta, e é invencível enquanto controla o vídeo. Mas basta aparecer alguém
que responda, alguém que diga “não”, alguém que apresente factos, alguém que
não se deixe intimidar, para de repente, o GIGANTE COM PÉS DE BARRO sossobrar e
descobrir que há também quem tenha pés de chumbo.
E
Luís Neves parece ser esse alguém. O seu percurso na Polícia Judiciária dá-lhe
uma experiência que não se fabrica num estúdio de televisão. E é precisamente
nesse território — criminalidade, investigação, segurança — que Luis Neves
construiu uma parte essencial da sua personagem política. Ventura fala de
crime. Neves combateu-o. Ventura fala de segurança. Neves conhece as
instituições que a garantem. Ventura constrói narrativas. Neves está habituado
a trabalhar com processos, investigações e prova – UMA DIFERENÇA MONUMENTAL.
E
talvez seja essa a diferença que explica a dimensão da ofensiva!... Durante
anos, André Ventura fez da criminalidade e da imigração uma espécie de eixo
moral da sua política. A simplificação é conhecida: mais imigração, mais crime;
mais medo, mais Chega; mais indignação, mais votos.
Mas
quando alguém com experiência na matéria contesta essa associação automática, o
edifício começa a ranger. E sendo assim, é então que o adversário deixa de ser
adversário e PASSA A SER O ALVO. É uma velha técnica política: se não se
consegue vencer o argumento, tenta-se destruir o argumentista. Se não se
consegue desmontar o facto, ataca-se quem o apresenta. Se não se consegue
ganhar o debate, muda-se o assunto. E O ASSUNTO PASSA A SER LUIS NEVES – SEMPRE
LUIS NEVES.
Tudo
isso, como se Portugal tivesse deixado de ter hospitais com problemas, escolas
com dificuldades, famílias esmagadas pelo preço da habitação, salários
insuficientes, pensões que não acompanham o custo de vida ou uma economia que
exige respostas sérias – TUDO ISTO PODE ESPERAR. O que não pode esperar, é o
DERRUBE DE LUIS NEVES.
Mas
porquê - essa é a pergunta que Ventura ainda não respondeu de forma
convincente, e quanto mais berra, mais ela se ouve. Eu respondo: porque o Chega
gosta de apresentar-se como partido contra os “casos e casinhos”. Contra os
privilégios e contra os políticos que segundo a sua retórica, deveriam prestar
contas.
Muito
bem!... Mas então, que se aplique a mesma régua e esquadro a todos. E também a
André Ventura - o verdadeiro herdeiro de Alves dos Reis. E já agora, também ao
Chega. Também aos seus dirigentes, e também aos seus próprios episódios.
A
moralidade não pode ser uma arma de uso exclusivo contra os adversários!... Não
se pode exigir aos outros uma transparência absoluta e depois pedir ao
eleitorado que esqueça quando a lupa se vira para o próprio. Quem distribui
sentenças políticas deve aceitar ser julgado pela mesma balança. E é aqui que o
discurso moralista de André Ventura, começa a perder o brilho.
A
política não pode ser uma espécie de Tribunal popular permanente onde o
“maestro” de Algueirão, desempenha simultaneamente os papéis de acusador, juiz
e carrasco. Portugal tem Tribunais. Portugal tem Parlamento. Portugal tem
instituições. Portugal tem leis. E nenhuma delas foi entregue em exclusivo a
André Ventura.
Mas
mais inquietante, é quando a “guerra partidária” começa a envolver instituições
de investigação criminal!... Se são correctas as referências a alegadas
insinuações sobre ACESSO A INFORMAÇÃO confidencial da Polícia Judiciária, então
é necessário exigir esclarecimentos. É que uma coisa, é criticar uma
instituição, outra bem diferente, é LANÇAR SOBRE ELA uma nuvem de suspeição.
Neste
caso, TEM A PALAVRA O MINISTÉRIO PÚBLICO!... André Ventura tem de esclarecer
aquilo que afirmou.
Mas
outra ainda mais grave, é insinuar que informações reservadas circulam ao sabor
de interesses partidários. As Polícias não podem ser trincheiras eleitorais e a
Justiça não pode servir de MUNIÇÃO.
A
Polícia Judiciária não pode transformar-se num campo de batalha entre Partidos.
Quem brincar com isso, estará a brincar com uma das colunas fundamentais do
Estado de Direito, e o Estado de Direito não é um brinquedo – também aqui André
Ventura, terá que se explicar.
Chegados
então a outro ponto da equação, talvez o episódio mais revelador deste “filme
de terror”, esteja na discussão sobre os bens apreendidos à criminalidade
organizada.
Será
que André Ventura já esqueceu, que apresentou como NOVIDADE POLITICA no seu
programa eleitoral, a utilização de património apreendido que já encontrava
enquadramento na legislação portuguesa, desde 2007?!...
Mais:
de acordo com a dita Lei, é ou não verdade que além de Luis Neves, vários
outros Ministros de vários Governos utilizaram viaturas confiscadas às
centenas, às máfias criminosas?!... .
E
tendo sido assim, então a pergunta impõe-se: onde estava o escândalo antes de
Luís Neves se tornar o alvo?!...
E
mais: Se utilizar património apreendido à criminalidade é uma boa ideia quando
consta do programa eleitoral do Chega, porque razão se transforma em escândalo
quando é praticado dentro da lei?!...
A
POLITICA NÃO PODE SER ISTO!... Não pode ser hoje inovação aquilo que ontem já
existia. Não pode ser hoje crime, aquilo que ontem era permitido. Não pode ser
hoje virtude aquilo que amanhã - dependendo do adversário, passa a ser pecado.
Isso não é coerência - é conveniência. E a conveniência é precisamente o
ALIMENTO preferido do POPULISMO FASCIZANTE.
Já
sabemos, que o populismo precisa de uma realidade muito simples!... De bons e
maus, de vítimas e de culpados, de nós e deles, de portugueses contra
estrangeiros, de povo contra sistema, de gente “normal” contra elites e de
alguns “filhos daquela senhora”.
Só
que a realidade exige documentos, faz perguntas, mas não cabe num vídeo de
trinta segundos ou em milhares de contas falsas nas redes sociais. E é por isso
mesmo, que o Chega e André Ventura vivem tão bem debaixo dos holofotes e tão
mal quando chega a hora de abrir os dossiers. O megafone é poderoso, mas por
muito que queiram, não substitui o argumento.
André
Ventura construiu uma máquina política extraordinariamente eficaz a transformar
frustração em espectáculo, só que Portugal não se governa com espectáculo.
Governa-se com decisões. Com competência. Com instituições. Com leis. Com
responsabilidade. E sobretudo com a capacidade de explicar ao país aquilo que
se pretende fazer depois de se destruir aquilo que existe.
E
é aqui que a máscara começa a escorregar!... Destruir é fácil, derrubar é
fácil, acusar é fácil e prometer que tudo será diferente é fácil. Difícil é
construir, governar e resolver. Difícil é apresentar uma alternativa completa e
sustentável para um país inteiro. Mas André Ventura e o Chega, não querem saber
disso!... Do que querem saber, é de INCENDIAR a casa. E talvez seja por isso
que precisa tanto de atear novos fogos. Um fogo em cada semana. Um inimigo em
cada esquina. Uma crise em cada declaração e uma Moção em cada intervalo, até
que o país já não saiba onde termina a Oposição e começa a propaganda.
Porém,
há um problema para André Ventura!...O calendário. O Parlamento. O
contraditório. E... LUIS NEVES.
O
Ministro confirmou e vai comparecer e responder ao que lhe for perguntado, no
sitio certo em 8 de Setembro. E não há aqui um inimigo escondido atrás de uma
porta. Há um HOMEM disposto a enfrentar perguntas.
E
agora Ventura terá de decidir. Ou VAI, ou NÃO vai – cá estaremos, para ficarmos
a saber quem é afinal o “filho daquela senhora”. Se FOR, terá de perguntar e
OUVIR respostas.
Se
não FOR, ficará a pergunta: onde está o homem que prometia não ter medo de
ninguém?!... É que coragem política não é berrar mais alto. É ficar quando a
resposta chega. É olhar nos olhos de quem discorda. É ouvir aquilo que não se
quer ouvir. É aceitar que também podemos estar errados. E é sobretudo respeitar
as instituições quando elas não fazem aquilo que desejamos.
André
Ventura gosta de se apresentar como o homem que não se cala. Pois muito bem!...
Agora terá de demonstrar que também sabe ouvir. A democracia não é um monólogo.
E PORTUGAL NÃO É UM PALCO PROPRIEDADE DE ANDRÉ VENTURA. O PAÍS É MAIOR - MUITO
MAIOR QUE ELE. E a República é maior – muito maior do que o Chega.
É
por isso que esta batalha poderá revelar mais sobre André Ventura do que sobre
Luís Neves. Poderá revelar um líder que descobriu que a provocação tem limites.
Que a ameaça permanente tem custos. Que a indignação também se desgasta. E que
um partido que vive exclusivamente de inimigos, acaba inevitavelmente por ficar
sem programa quando os inimigos deixam de assustar.
É
esse o grande vazio que esta Moção de Censura vai expor. Não o vazio de Luís
Neves. Isso sim o vazio da estratégia de Ventura.
Portugal
não precisa de um homem que todos os dias descubra um novo culpado. Precisa de
homens e mulheres capazes de resolver problemas. Não precisa de mais medo.
Precisa de mais confiança. Não precisa de mais trincheiras. Precisa de mais
pontes.
Não
precisa de mais berros. Precisa de mais verdade.
E
aqui está a ironia final.
André
Ventura passou anos a dizer que vinha denunciar o sistema. Mas agora é o
sistema democrático que lhe exige aquilo que ele exige aos outros: PROVAS.
O
país é muito maior do que o seu próprio ruído.
Por
isso, que venha o debate. Que venham as perguntas. Que venham as respostas. Que
venham os documentos. Que venham os factos. Que venha o contraditório.
E
QUE ANDRÉ VENTURA ESTEJA LÁ – QUE NÃO FALTE.




