12 setembro, 2026

NO RESCALDO DA MOÇÃO CHUMBADA COM "GOLEADA"...

 

Há dias em que uma votação parlamentar não é apenas uma votação parlamentar. É um RETRATO. E o retrato que ficou ontem na Assembleia da República, durante a discussão da Moção de Censura apresentada pelo Chega, foi particularmente esclarecedor: de um lado, a DEMOCRACIA PARLAMENTAR, com as suas regras, os seus limites e a legitimidade que resulta do voto!... Do outro, um partido de ARRUACEIROS, que parece cada vez mais convencido de que pode transformar a Casa da Democracia num palco de INSULTOS, de AMEAÇAS, de PROVOCAÇÕES e de exercícios de PODER IMAGINÁRIO.

André Ventura, levou à Assembleia da República, uma Moção de Censura que era uma PURA CONFISSÃO DE ARROGÂNCIA política. Comportou-se, como se já tivesse ADQUIRIDO o direito de derrubar Governos, ESCOLHER Ministros, impor SOLUÇÕES, e no limite, até reescrever as regras do regime.

Teve azar!... O resultado foi aquilo que se viu: uma derrota política ESTRONDOSA e de GOLEADA, que não pode ser disfarçada por gritos, gesticulações ou pela habitual teatralidade de André Ventura. A Moção CAÍU!... E com ela, caiu também a FANTASIA de que a Assembleia da República é propriedade de quem berra mais alto, interrompe mais vezes ou consegue produzir o mais desavergonhado insulto.

O espectáculo – porque foi a isso que André Ventura e o Chega se propuseram, foi mais do que lamentável e desrespeitoso. Foi revelador do carácter dos 60 arruaceiros que o compõem. Revelador de uma concepção de democracia em que a maioria só é respeitada quando serve os interesses do Chega; revelador de que as Instituições só são boas quando lhe dão palco, e más quando lhe impõem limites; reveladora de que a liberdade de expressão é ali apresentada por esta gente, como um direito absoluto para atacar adversários, e em que a palavra "povo" é invocada a toda a hora e a cada minuto, precisamente para tentar SUBSTITUIR a vontade concreta do povo expressa nas urnas.

Esta, é a grande mistificação de André Ventura: APRESENTAR-SE como o único intérprete legítimo da indignação popular, como se todos os portugueses que não votam Chega fossem portugueses de segunda categoria, ou como se a democracia fosse um plebiscito permanente à sua própria pessoa.

SÓ QUE NÃO É!... A democracia não é André Ventura, a Assembleia da República não é André Ventura e Portugal não é André Ventura – graças a Deus. E muito menos o Estado de Direito pode ficar dependente dos seus HUMORES, das suas PROVOCAÇÕES ou das suas AMBIÇÕES. ANDRÉ VENTURA É UM DITADOR com todas as letras...

E sendo assim, talvez o mais preocupante seja perceber que aquilo a que ontem assistimos em Portugal não é um fenómeno isolado. Como se sabe, o Chega FAZ PARTE de uma corrente política europeia que tem crescido, explorando o MEDO, a INSEGURANÇA, a IMIGRAÇÃO e a DESCRENÇA nas instituições. E é precisamente por isso, que o ENTUSIASMO de André Ventura perante a vitória da AfD na Saxónia-Anhalt, não pode ser tratada como uma simples manifestação de simpatia política.

A AfD alcançou cerca de 43,8% dos votos naquela região alemã – um espaço da antiga Alemanha comunista com 2 milhões de habitantes, dos 83 milhões, do actual país reunificado em 1990. Um resultado que a colocou à beira de poder governar uma região, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

AfD, que apresenta posições duríssimas contra a imigração e defende a chamada "remigração", ao mesmo tempo que é fiel a Putin e à Rússia, favorável ao levantamento das sanções contra Moscovo e ao fim do apoio da Europa à Ucrânia.

E É ISTO que André Ventura APLAUDE!... E é isto que deveria preocupar Portugal e o seu GOVERNO. E arazão é simples: é que há uma diferença entre RESPEITAR o resultado de uma eleição democrática, e FESTEJAR politicamente a ascensão de uma força que a própria Alemanha e outros países consideram, de extrema-direita fascista – conforme o documenta a capa do jornal francês LIBÉRATION - tal qual o fez André Ventura.

E quando esse entusiasmo vem de um dirigente, que em Portugal não esconde a sua ambição de transformar radicalmente o NOSSO REGIME político, a coincidência deixa de ser simplesmente circunstancial. Torna-se pelo contrário ainda mais séria, quando se olha para o papel desempenhado pela Rússia de Vladimir Putin na construção de redes de influência política dentro da Europa.

Putin, que gasta 25 MILHÕES DE EUROS POR HORA – não há engano - na guerra contra a Ucrânia, mas ainda lhe sobram verbas para financiar estes partidos da extrema-direita radical. E não se trata de uma teoria conspirativa. Putin, está a fazer com a Alemanha, aquilo que vem fazendo com os nacionalistas da Ucrânia, na zona do Dombass, desde 2014.

O próprio Parlamento Europeu, tem chamado a atenção para a existência de redes de influência do Kremlin, para o financiamento russo de actividades políticas na União Europeia e para o apoio a partidos e políticos de extrema-direita europeus. O Parlamento Europeu recorda, entre outros casos, o empréstimo de 9,4 milhões de euros concedido ao partido de Marine Le Pen por um banco russo.

O objectivo estratégico de Moscovo, é por isso evidente: uma Europa dividida é uma Europa mais fraca. Uma Europa onde crescem nacionalismos agressivos, onde se destrói a confiança nas instituições comunitárias, onde se alimenta a desconfiança entre povos e onde se apresenta a DEMOCRACIA LIBERAL como um inimigo, é uma Europa MUITO MAIS FÁCIL de pressionar e de desestabilizar.

E não é preciso que Putin governe os países europeus!... Basta-lhe que existam dentro deles, forças políticas dispostas a CORROER as suas instituições, a DESACREDITAR a União Europeia, a RELATIVIZAR a AMEAÇA russa e a transformar cada crise numa oportunidade para incendiar a sociedade. E André Ventura e o Chega, fazem parte dessa ONDA!... Mantêm uma forte ligação com partidos e líderes que partilham desta visão crítica das instituições europeias e integram oficialmente o grupo parlamentar europeu "PATRIOTAS PELA EUROPA", uma bancada no Parlamento Europeu que junta partidos alinhados com o ex.primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e com figuras da extrema-direita europeia, como a AfD.

E é portanto aqui que o caso português merece especial atenção.

André Ventura não esconde a sua admiração por essas forças da extrema-direita fascistas europeia - como teve ocasião de o demonstrar em tudo que é televisão, no dia que antecedeu a discussão da Moção de Censura. Mas não só!... Também, porque o Chega tem demonstrado repetidamente, que a sua estratégia passa pela RADICALIZAÇÃO do DISCURSO – como ontem se viu com a berraria no final dos trabalhos na AR, pela criação permanente de inimigos e pela tentativa de apresentar o sistema democrático como um OBSTÁCULO à vontade do "povo".

Ontem – como referi, tivemos mais uma demonstração disso. Os gritos, os insultos e a permanente provocação, não são apenas MAU COMPORTAMENTO parlamentar. São PARTE de uma ESTRATÉGIA. A estratégia de transformar a política num combate de TRINCHEIRA, onde já não interessa convencer, discutir ou construir maiorias, mas apenas DESTRUIR o adversário.

É assim que as democracias começam a morrer: não necessariamente com tanques nas ruas, mas com a banalização do desprezo pelas instituições, com a transformação do adversário em inimigo, com a mentira REPETIDA até PARECER verdade, e com a ideia de que os direitos só devem existir para quem pertence ao "lado certo".

Foi precisamente por isso que a vitória da AfD na Saxónia-Anhalt provocou um verdadeiro choque na Alemanha. Não porque uma eleição tenha deixado de ser democrática, mas porque uma força de extrema-direita alcançou uma dimensão eleitoral que a aproxima perigosamente do poder.

O chanceler Friedrich Merz, já advertiu para a gravidade das posições da AfD sobre a chamada "remigração", enquanto os partidos tradicionais continuam a manter uma barreira política à sua entrada no Governo.

É esta a LIÇÃO que Portugal deve retirar, enquanto é tempo, designadamente quando se fala de REVISÃO CONSTITUCIONAL.

Não deveremos estender a passadeira para que a extrema-direita chegue ao Poder para depois descobrirmos finalmente, que é perigosa e tardia.

Devemos olhar para aquilo que diz, para aquilo que propõe, e sobretudo, para aquilo que FAZ quando tem PODER. E o Chega já nos mostrou a sua verdadeira face: mostrou-a ontem na Assembleia da República; mostrou-a na linguagem e nas atitudes; mostrou-a na intolerância; mostrou-a na forma como trata os adversários políticos; mostrou-a na permanente tentativa de transformar a indignação em instrumento de poder – de que é exemplo a sádica tentativa de por sua conta e risco demitir Luis Neves; e mostrou sobretudo uma tal ambição que não pode ser ignorada - a de fazer acreditar aos portugueses que a democracia que temos é o PROBLEMA e que a solução está num NOVO REGIME e num HOMEM providencial, num partido providencial e numa RUPTURA com o sistema.

É verdade que a democracia portuguesa não é perfeita!... Isso não existe. Nunca foi e nunca será. Mas corrige-se pela democracia, reforma-se pela democracia e fortalece-se pela democracia. Não se destrói para entregar o país a quem se apresenta como seu único salvador.

Portugal já conheceu uma ditadura!... Conhece demasiado bem o preço da liberdade perdida, conhece demasiado bem o que acontece quando a crítica é silenciada, quando as instituições são submetidas, quando o pluralismo é destruído e quando um regime se apresenta como eterno.

Por isso, quando vemos o chefe do Chega a aplaudir o avanço eleitoral da extrema-direita alemã, enquanto, no Parlamento português, o seu partido transforma uma discussão política num espectáculo degradante, de gritos e de confrontação, a pergunta que fica não é apenas o que André Ventura QUER DERRUBAR.

É saber o que pretende colocar no lugar.

E essa é uma pergunta que todos os democratas portugueses – PRINCIPALMENTE LUIS MONTENEGRO - independentemente da sua filiação partidária, devem fazer. É que uma coisa é combater os defeitos da democracia. Outra muito diferente, é usar os seus defeitos como pretexto para a destruir.

E é precisamente aí que André Ventura e o Chega TÊM DE ENCONTRAR uma barreira intransponível: a CONSTITUIÇÃO, as instituições, o Parlamento, a liberdade, o pluralismo, e acima de tudo, a consciência democrática dos portugueses.

Ontem, André Ventura sofreu uma derrota parlamentar PESADÍSSIMA. Mas a verdadeira batalha não se ganha nem se perde numa única votação. Ganha-se ou perde-se todos os dias, sempre que os democratas deixam passar uma mentira, uma ameaça, uma intolerância ou uma provocação como se fossem apenas mais uma excentricidade política. E é por isso que o espectáculo de ontem na Assembleia da República não deve ser esquecido. DEVE SER LEMBRADO.

Perante o avanço da extrema-direita na Europa, perante o exemplo da AfD na Alemanha e perante a crescente influência das redes políticas e propagandísticas favoráveis ao Kremlin e até ao Trumpismo, a democracia portuguesa não pode baixar a guarda.

E não se trata de ter medo de André Ventura - ERA SÓ O QUE FALTAVA. Trata-se de não ter medo de lhe dizer que Portugal não é dele, que a democracia não é dele e que a República não é dele.

Portugal pertence aos portugueses e a democracia a todos nós. 


06 setembro, 2026

A MOÇÃO DE CENSURA DO CHEGA: CEDER AO “TERRORISMO” DA EXTREMA-DIREITA, SIGNIFICA A CAPITULAÇÃO DO REGIME...


A MOÇÃO DE CENSURA DO CHEGA: CEDER AO “TERRORISMO” DA EXTREMA-DIREITA, SIGNIFICA A CAPITULAÇÃO DO REGIME...

André Ventura descobriu mais um inimigo!... Desta vez, chama-se Luís Neves, a arma para o combater é uma Moção de Censura, e o palco, o Parlamento.

Mas por detrás da espuma, da indignação fabricada e da permanente convocação do medo, começa a ouvir-se uma pergunta incómoda: e se desta vez, o ALVO NÃO CAIR?!...

Há políticos que procuram soluções, outros procuram votos, e outros ainda, precisam desesperadamente de inimigos.

André Ventura pertence a esta última casta. Precisa de um culpado para cada desilusão. De uma conspiração para cada derrota. De um adversário para cada silêncio. De um escândalo para cada dia. E finalmente, precisa de manter o país permanentemente sobressaltado, porque o sobressalto é o combustível do populismo, e o medo a sua mais rentável matéria-prima.

Agora, descobriu Luís Neves e decidiu disparar uma Moção de Censura. Não, contra uma política concreta do Governo. Não, contra uma reforma estrutural. Não, contra uma medida económica que esteja a destruir salários, emprego ou serviços públicos. Não, contra uma opção global de governação. Sim, contra um homem.

E é aqui que começa a ficar claro o verdadeiro tamanho desta "operação". Uma Moção de Censura é uma arma constitucional séria e jamais deveria servir como um foguete de festa popular. Não deveria servir para produzir MANCHETES durante VINTE E QUATRO HORAS, ALIMENTAR as REDES SOCIAIS durante QUARENTA E OITO, e desaparecer depois na espuma do ciclo noticioso.

Uma Moção de Censura, deveria ter por detrás uma razão política de dimensão nacional - MAS ESTA NÃO TEM!... Mas o que temos então?!...

Temos um Ministro que vai comparecer no Parlamento, a 8 de Setembro. Um Ministro que se dispõe a responder ao que lhe for perguntado. Um Ministro que não foge ao contraditório. E um LIDER PARTIDÁRIO, que ainda não deu como certa a sua presença, mas que antes desse confronto, corre para anunciar uma Moção de Censura.

Convenhamos: ninguém me queira convenvencer que não há qualquer coisa de estranho nesta pressa!... Quem tem certezas não costuma ter medo das perguntas. Quem tem provas não teme os factos. Quem tem argumentos não precisa de incendiar o palco antes de começar o debate.

O CONTRADITÓRIO é o TERROR SECRETO de todo o populista. E porquê?!... Porque o populista é forte enquanto fala sozinho. É imbatível enquanto escolhe a pergunta, e é invencível enquanto controla o vídeo. Mas basta aparecer alguém que responda, alguém que diga “não”, alguém que apresente factos, alguém que não se deixe intimidar, para de repente, o GIGANTE COM PÉS DE BARRO sossobrar e descobrir que há também quem tenha pés de chumbo.

E Luís Neves parece ser esse alguém. O seu percurso na Polícia Judiciária dá-lhe uma experiência que não se fabrica num estúdio de televisão. E é precisamente nesse território — criminalidade, investigação, segurança — que Luis Neves construiu uma parte essencial da sua personagem política. Ventura fala de crime. Neves combateu-o. Ventura fala de segurança. Neves conhece as instituições que a garantem. Ventura constrói narrativas. Neves está habituado a trabalhar com processos, investigações e prova – UMA DIFERENÇA MONUMENTAL.

E talvez seja essa a diferença que explica a dimensão da ofensiva!... Durante anos, André Ventura fez da criminalidade e da imigração uma espécie de eixo moral da sua política. A simplificação é conhecida: mais imigração, mais crime; mais medo, mais Chega; mais indignação, mais votos.

Mas quando alguém com experiência na matéria contesta essa associação automática, o edifício começa a ranger. E sendo assim, é então que o adversário deixa de ser adversário e PASSA A SER O ALVO. É uma velha técnica política: se não se consegue vencer o argumento, tenta-se destruir o argumentista. Se não se consegue desmontar o facto, ataca-se quem o apresenta. Se não se consegue ganhar o debate, muda-se o assunto. E O ASSUNTO PASSA A SER LUIS NEVES – SEMPRE LUIS NEVES.

Tudo isso, como se Portugal tivesse deixado de ter hospitais com problemas, escolas com dificuldades, famílias esmagadas pelo preço da habitação, salários insuficientes, pensões que não acompanham o custo de vida ou uma economia que exige respostas sérias – TUDO ISTO PODE ESPERAR. O que não pode esperar, é o DERRUBE DE LUIS NEVES.

Mas porquê - essa é a pergunta que Ventura ainda não respondeu de forma convincente, e quanto mais berra, mais ela se ouve. Eu respondo: porque o Chega gosta de apresentar-se como partido contra os “casos e casinhos”. Contra os privilégios e contra os políticos que segundo a sua retórica, deveriam prestar contas.

Muito bem!... Mas então, que se aplique a mesma régua e esquadro a todos. E também a André Ventura - o verdadeiro herdeiro de Alves dos Reis. E já agora, também ao Chega. Também aos seus dirigentes, e também aos seus próprios episódios.

A moralidade não pode ser uma arma de uso exclusivo contra os adversários!... Não se pode exigir aos outros uma transparência absoluta e depois pedir ao eleitorado que esqueça quando a lupa se vira para o próprio. Quem distribui sentenças políticas deve aceitar ser julgado pela mesma balança. E é aqui que o discurso moralista de André Ventura, começa a perder o brilho.

A política não pode ser uma espécie de Tribunal popular permanente onde o “maestro” de Algueirão, desempenha simultaneamente os papéis de acusador, juiz e carrasco. Portugal tem Tribunais. Portugal tem Parlamento. Portugal tem instituições. Portugal tem leis. E nenhuma delas foi entregue em exclusivo a André Ventura.

Mas mais inquietante, é quando a “guerra partidária” começa a envolver instituições de investigação criminal!... Se são correctas as referências a alegadas insinuações sobre ACESSO A INFORMAÇÃO confidencial da Polícia Judiciária, então é necessário exigir esclarecimentos. É que uma coisa, é criticar uma instituição, outra bem diferente, é LANÇAR SOBRE ELA uma nuvem de suspeição.

Neste caso, TEM A PALAVRA O MINISTÉRIO PÚBLICO!... André Ventura tem de esclarecer aquilo que afirmou.

Mas outra ainda mais grave, é insinuar que informações reservadas circulam ao sabor de interesses partidários. As Polícias não podem ser trincheiras eleitorais e a Justiça não pode servir de MUNIÇÃO.

A Polícia Judiciária não pode transformar-se num campo de batalha entre Partidos. Quem brincar com isso, estará a brincar com uma das colunas fundamentais do Estado de Direito, e o Estado de Direito não é um brinquedo – também aqui André Ventura, terá que se explicar.

Chegados então a outro ponto da equação, talvez o episódio mais revelador deste “filme de terror”, esteja na discussão sobre os bens apreendidos à criminalidade organizada.

Será que André Ventura já esqueceu, que apresentou como NOVIDADE POLITICA no seu programa eleitoral, a utilização de património apreendido que já encontrava enquadramento na legislação portuguesa, desde 2007?!...

Mais: de acordo com a dita Lei, é ou não verdade que além de Luis Neves, vários outros Ministros de vários Governos utilizaram viaturas confiscadas às centenas, às máfias criminosas?!... .

E tendo sido assim, então a pergunta impõe-se: onde estava o escândalo antes de Luís Neves se tornar o alvo?!...

E mais: Se utilizar património apreendido à criminalidade é uma boa ideia quando consta do programa eleitoral do Chega, porque razão se transforma em escândalo quando é praticado dentro da lei?!...

A POLITICA NÃO PODE SER ISTO!... Não pode ser hoje inovação aquilo que ontem já existia. Não pode ser hoje crime, aquilo que ontem era permitido. Não pode ser hoje virtude aquilo que amanhã - dependendo do adversário, passa a ser pecado. Isso não é coerência - é conveniência. E a conveniência é precisamente o ALIMENTO preferido do POPULISMO FASCIZANTE.

Já sabemos, que o populismo precisa de uma realidade muito simples!... De bons e maus, de vítimas e de culpados, de nós e deles, de portugueses contra estrangeiros, de povo contra sistema, de gente “normal” contra elites e de alguns “filhos daquela senhora”.

Só que a realidade exige documentos, faz perguntas, mas não cabe num vídeo de trinta segundos ou em milhares de contas falsas nas redes sociais. E é por isso mesmo, que o Chega e André Ventura vivem tão bem debaixo dos holofotes e tão mal quando chega a hora de abrir os dossiers. O megafone é poderoso, mas por muito que queiram, não substitui o argumento.

André Ventura construiu uma máquina política extraordinariamente eficaz a transformar frustração em espectáculo, só que Portugal não se governa com espectáculo. Governa-se com decisões. Com competência. Com instituições. Com leis. Com responsabilidade. E sobretudo com a capacidade de explicar ao país aquilo que se pretende fazer depois de se destruir aquilo que existe.

E é aqui que a máscara começa a escorregar!... Destruir é fácil, derrubar é fácil, acusar é fácil e prometer que tudo será diferente é fácil. Difícil é construir, governar e resolver. Difícil é apresentar uma alternativa completa e sustentável para um país inteiro. Mas André Ventura e o Chega, não querem saber disso!... Do que querem saber, é de INCENDIAR a casa. E talvez seja por isso que precisa tanto de atear novos fogos. Um fogo em cada semana. Um inimigo em cada esquina. Uma crise em cada declaração e uma Moção em cada intervalo, até que o país já não saiba onde termina a Oposição e começa a propaganda.

Porém, há um problema para André Ventura!...O calendário. O Parlamento. O contraditório. E... LUIS NEVES.

O Ministro confirmou e vai comparecer e responder ao que lhe for perguntado, no sitio certo em 8 de Setembro. E não há aqui um inimigo escondido atrás de uma porta. Há um HOMEM disposto a enfrentar perguntas.

E agora Ventura terá de decidir. Ou VAI, ou NÃO vai – cá estaremos, para ficarmos a saber quem é afinal o “filho daquela senhora”. Se FOR, terá de perguntar e OUVIR respostas.

Se não FOR, ficará a pergunta: onde está o homem que prometia não ter medo de ninguém?!... É que coragem política não é berrar mais alto. É ficar quando a resposta chega. É olhar nos olhos de quem discorda. É ouvir aquilo que não se quer ouvir. É aceitar que também podemos estar errados. E é sobretudo respeitar as instituições quando elas não fazem aquilo que desejamos.

André Ventura gosta de se apresentar como o homem que não se cala. Pois muito bem!... Agora terá de demonstrar que também sabe ouvir. A democracia não é um monólogo. E PORTUGAL NÃO É UM PALCO PROPRIEDADE DE ANDRÉ VENTURA. O PAÍS É MAIOR - MUITO MAIOR QUE ELE. E a República é maior – muito maior do que o Chega.

É por isso que esta batalha poderá revelar mais sobre André Ventura do que sobre Luís Neves. Poderá revelar um líder que descobriu que a provocação tem limites. Que a ameaça permanente tem custos. Que a indignação também se desgasta. E que um partido que vive exclusivamente de inimigos, acaba inevitavelmente por ficar sem programa quando os inimigos deixam de assustar.

É esse o grande vazio que esta Moção de Censura vai expor. Não o vazio de Luís Neves. Isso sim o vazio da estratégia de Ventura.

Portugal não precisa de um homem que todos os dias descubra um novo culpado. Precisa de homens e mulheres capazes de resolver problemas. Não precisa de mais medo. Precisa de mais confiança. Não precisa de mais trincheiras. Precisa de mais pontes.

Não precisa de mais berros. Precisa de mais verdade.

E aqui está a ironia final.

André Ventura passou anos a dizer que vinha denunciar o sistema. Mas agora é o sistema democrático que lhe exige aquilo que ele exige aos outros: PROVAS.

O país é muito maior do que o seu próprio ruído.

Por isso, que venha o debate. Que venham as perguntas. Que venham as respostas. Que venham os documentos. Que venham os factos. Que venha o contraditório.

E QUE ANDRÉ VENTURA ESTEJA LÁ – QUE NÃO FALTE.

 


22 julho, 2026

REFORMAS : a nova Banha da Cobra da Extrema-Direita...

 

A vida pública e a demografia têm uma virtude inflexível: não se vergam ao populismo, nem a cartazes VAMOS SALVAR PORTUGAL. Hoje, a fatia de cidadãos com mais de 65 anos cresce cinco vezes mais depressa do que a proporção dos que estão em idade de trabalhar. Somos o terceiro país mais envelhecido da U.E. - contabilizando 182 idosos por cada 100 jovens. Mas é, perante este quadro dramático de sustentabilidade que o Chega e o seu líder — o "Trump Lusitano" de serviço — surge a vender o CONTO do VIGÁRIO: a promessa de baixar a idade da reforma para os 65 anos, que pediam como contra-partida, à aprovação do Pacote Laboral. Uma proposta, que soa àqueles anúncios manhosos em que já ninguém cai: "Ligue agora e fique rico em seis meses." Contudo, quando o assunto é o Estado — essa entidade tratada por muitos como um saco sem fundo —, há quem prefira fechar os olhos à matemática e abraçar o ilusionismo.


Já se sabe, que a demagogia de André Ventura é uma máquina bem oleada de caça ao voto imediato, guiada pelo lema "que se lixe quem virá atrás" - o que lhe intressa é “facturar”. O que o líder do Chega esconde com mestria nos seus cartazes de propaganda, é o preço real do seu "presente“ envenenado. Baixar a idade da reforma para os 65 anos - numa altura em que a idade legal caminha para os 67 - significaria, em termos práticos, um gasto público adicional e permanente na ordem dos 2,6 mil milhões de euros por ano. E como se financiaria este rombo?!... Na prática, o cálculo é simples e cruel: significaria o corte do 14.º mês e uma redução superior a 30% no valor das futuras pensões, daqueles que hoje trabalham e descontam. Ou seja: o ilusionista promete o descanso mais cedo, mas omite a factura da miséria na velhice.

É muito fácil alimentar a ilusão quando se ignora o funcionamento elementar do nosso sistema de Repartição. O dinheiro que hoje entregamos à Segurança Social não fica guardado num cofre com o nosso nome!... Serve, para pagar no imediato as pensões de quem já as venceu e pagou para elas. Assim, como esses as pagaram a quem os antecedeu – o ritmo é este. Confiar que os excedentes conjunturais recentes — impulsionados em grande parte pelo aumento das contribuições de imigrantes — vão durar para sempre, é de uma irresponsabilidade criminosa, até porque a extrema-direita rejeita essa mesma imigração.


Um líder com responsabilidade e vergonha na cara, não enganaria os portugueses com promessas que colapsam a Segurança Social. Em vez de acenar com facilidades irrealistas, do que o país precisa, é de quem pugne pela transformação profunda da economia: subir os salários miseráveis através da produtividade e do sucesso empresarial, apostar na literacia financeira, aliviar a sufocante carga fiscal sobre a classe média e incentivar se necessário regimes complementares de poupança privada. Reduzir a idade da reforma sem antes criar riqueza é condenar o país à falência.

Sem dinheiro não há redistribuição, não há saúde, não há educação e não haverá reformas para ninguém. O "salvador da pátria", que até hoje nada deu à sociedade e nem para a demografia contribuíu, aquilo que prefere é distribuir ilusões vendáveis em vez de encarar a realidade. Só que a matemática não vota, e a história não perdoará a quem por simples sede de Poder, aceita vender o futuro dos portugueses a troco de um punhado de votos.

DO CIRCO POLITICO À JUSTIÇA DO PELOURINHO...

 

Há pecados que a Bíblia não cataloga com nome próprio, mas que a consciência comum reconhece sem hesitar!... E há também uma regra não escrita na política, que a história e a experiência nos ensinam com precisão: quando um partido populista passa do ruído habitual para o ataque cerrado a instituições essenciais do Estado de Direito, não estamos perante uma simples chicana parlamentar. Estamos perante o desespero... A recente e insidiosa ofensiva de André Ventura e do Chega contra o Ministro da Administração Interna, Luís Neves — um servidor público de carreira rigorosa, tecnicamente irrepreensível e de idoneidade amplamente reconhecida —, bem como as pressões exercidas sobre o Primeiro-Ministro e sobre o Ministério da Justiça, ultrapassam todos os limites do razoável e do debate democrático.

E sobre isto, não tenhamos dúvidas: trata-se de uma “receita” já velha! Uma receita que nos mostra, com clareza cristalina, que Ventura — tal como outros o fizeram no passado — não faz este caminho sozinho. Para que este ataque tenha eficácia, entra em campo o habitual "jogo sujo" de certa imprensa a coberto de um suposto jornalismo de investigação. E a esta, juntam-se os tais aliados de conveniência: sectores mediáticos, que em busca do clique fácil, das audiências famintas ou por cumplicidades indisfarçáveis, funcionam como verdadeiras caixas de ressonância da hipocrisia e da demagogia. Falo de gente que não questiona; falo de gente que não investiga e não cruza informação e se limita a plantar e a amplificar notícias sem qualquer aderência aos factos, ainda que a sua origem provenha das sarjetas do jornalismo de bordel, para normalizar o ataque pessoal. Estamos por isso, perante a simbiose perfeita: o populismo cria o circo e essa comunicação social fornece a lona, ajudando a erguer narrativas artificiais para desgastar quem apenas cumpre o seu dever com independência, com rigor e com espinha dorsal.

E sendo assim, pergunto: de onde vem afinal, este pânico e esta fúria desenfreada?!... A resposta é simples e límpida: Luís Neves foi o homem que com determinação e coragem, acabou com o "Movimento Zero" nas Forças de Segurança; e foi o homen que acabou com a instrumentalização dessas mesmas mesmas Forças de Segurança, onde determinadas franjas, movidas pelo ódio, pelo ressentimento e pelo racismo, deram naquilo que deram. Alguém tem dúvidas, que casos como os ocorridos em Esquadras da PSP, resultaram do “nada”?!... Alguém tem dúvidas, de que uma das principais figuras do partido Chega, chegou a afirmar, que “se os polícias disparassem mais a matar, o país estava mais na ordem"?!... E já agora, o que é que temos do outro lado?!...  Olhemos para os factos: mais de 20% do grupo parlamentar do Partido Chega esteve ou continua a estar sob a alçada da Justiça por suspeitas de crimes variados e processos judiciais. Análises mais alargadas elevam este número para 23 a 25 deputados se forem contabilizados casos que envolvem polémicas públicas graves, insolvências pessoais, irregularidades administrativas e questões fiscais. Isto para já não falar do partido que continua a funcionar com Órgãos inválidos, por decisão do Trbunal Constitucional.

E como se tal não bastasse, temos ainda os grupos de marginais que vários deputados do Chega apoiam sem qualquer reserva — e que, como recentemente se veio a saber, tinham vários alvos a abater neste país, entre os quais o actual Primeiro-Ministro. A estes, só escapava, veja-se bem, gente do Chega e da IL.

É evidente que tudo isto causa danos irreparáveis e um nervosismo incontrolável num neo-fascista e revisionista, como André Ventura!.. E sendo assim, é exactamente por tudo isto, que não admira que venha agora pedir a cabeça de Luís Neves, que por acaso foi Director da Policia Judiciária, é hoje Ministro e conhece todos os seus “podres”.

De malucos... nada se espera!... Podiam as suas maluqueiras dar-lhe para fazer o bem. Mas não!... As suas maluqueiras, só lhe dão para fazer o mal!

Mas como se este circo não bastasse, assistimos ainda à exibição impudica de juízos de valor que revelam uma vergonhosa política de dois pesos e duas medidas.

Relembro aqui, o caso de Miguel Macedo, que se demitiu perante acusações que lhe foram imputadas, submetendo-se a um longo calvário do julgamento público e da praça mediática, para no final vir a ser plenamente absolvido pela Justiça. Relembro aqui da mesma forma, o recente caso de António Costa, acusado pelos mesmíssimos intervenientes, de "à boleia" do processo Influencer, ter abandonado o país e desprezado quem lhe havia concedido uma maioria absoluta, acusando-o  de se ter demitido sem que nada o justificasse, apenas para "tratar da sua vidinha" em Bruxelas.

E o que vemos agora?!...

Os mesmíssimos que atacaram António Costa por se ter demitido, a pedirem a cabeça de Luís Neves por este não se demitir, respaldando-se nas mesmas parangonas e capas de jornais de sarjeta, sem que o Ministro se encontre sequer, sob a alçada da Justiça. Ou seja: a uns pedem a demissão só porque sim; a outros criticam-nos por se terem demitido.

Ora a isto, não se chama política!... Chama-se canalhice. Gente sem vergonha, sem coerência e movida estritamente pelo oportunismo do momento!

Termino por isso, com uma nota que quero que seja cristalina, inequívoca e audível em todo o lado: Nunca alinharei em "cercos"!... Sejam eles dirigidos a governantes em funções, a políticos, a autarcas ou a um qualquer "Manel da Esquina". Nunca alinharei na justiça de pelourinho, na retaliação, na condenação prévia pela praça pública ou na devassa da vida e da dignidade de quem quer que seja.

A minha postura será intransigentemente a de sempre: à Justiça o que é da Justiça e à política o que é da política...


 

22 junho, 2026

PACOTE LABORAL: O EMBUSTE DO CHEGA E A HUMILHAÇÃO DE MONTENEGRO E HUGO SOARES...

 

Afinal de contas, olhando para o lamaçal em que o debate político se afundou, somos forçados a admitir que Passos Coelho não deixa de ter uma certa razão!... É demasiado “deprimente”, para quem ainda guarda na memória a matriz fundadora da democracia portuguesa, assistir à “PROSTITUIÇÃO POLITICA” deste PSD.

Entregar o que ainda lhe restava da sua alma social-democrata, para se agarrar desesperadamente ao Poder; alimentar uma máquina de clientelas cem vezes pior do que tudo o que já tínhamos visto; e fazer uma vista grossa monumental ao seu próprio programa eleitoral e de Governo, é sem margem para dúvidas, a maior BURLA POLITICA alguma vez testemunhada nesta III República.

Perante tamanha desfaçatez, já não chega comentar!... Já não é possível assistir a isto de braços cruzados, como se estivéssemos perante uma novela de ficção ou um simples folhetim de bastidores. Esgotou-se a paciência para tolerar tamanha DESONESTIDADE.

O que está a acontecer em Portugal é uma MUTAÇÃO POLITICA perigosa: a destruição deliberada do PSD por dentro, e a tentativa de criação de uma máquina de terraplanagem dos direitos dos trabalhadores; dos mais fracos; dos mais pobres; e dos mais fáceis de culpar — precisamente tudo aquilo que a verdadeira social-democracia SEMPRE REJEITOU.

Luís Montenegro e Hugo Soares ERGUERAM-SE como os principais coveiros desta orgia política. É pelas mãos de ambos, e dos lóbis cujos interesses procuram salvar a todo o custo e em tempo útil, que o Partido acaba de levar um COICE MONUMENTAL da extrema-direita, que os ATIROU ao TAPETE sem DÓ nem PIEDADE.

O Chega e André Ventura, "xingou-os" e humilhou-os quanto quis, neste NEGÓCIO chamado "PACOTE LABORAL", usando-os apenas para apalpar terreno, e ver até onde poderia esticar a corda para os ACERTOS de calendário. Luis Montenegro e o seu líder parlamentar, sucumbiram de tal forma, ao ponto de ficarem quedos, mudos e prostrados, perante as câmaras de televisão, ao som de desculpas esfarrapadas.

O FIM DA LINHA VERMELHA

Dito de outro modo: o Chega EXIGIU o seu PREÇO e o PSD pagou-o de joelhos: aceitou rasgar a Constituição, cedeu na Prestação Social Única e abriu a porta a uma lei migratória medieval que permite a detenção de menores — crianças enfiadas na máquina administrativa de detenção do Estado.

Tudo isto, depois de aprovarem diplomas falhados para perseguir bandeiras que simbolizam a igualdade que a própria Lei Fundamental protege. E no meio deste pântano, Montenegro e Soares continuaram cinicamente a fingir que existe uma "linha vermelha". Mas que linha vermelha, quando se troca toda a dignidade pela manutenção do cargo?!... Que linha vermelha, quando se finge que se governa, que se resolvem os problemas do SNS, que se melhora a escola pública ou que se combatem as rendas especulativas?!...

Quando um Partido que diz defender a democracia passa a depender da extrema-direita para esmagar os mais pobres, domesticar os símbolos de igualdade e desmantelar a Constituição, deixa de haver POLITICA NORMAL. Estamos isso sim, perante uma emergência democrática, daquelas que devem mover nações inteiras.

Este PSD, já mostrou a sua verdadeira matriz: precisa de sobreviver em nome dos boys, dos lugares de privilégio, das muitas Spinumvivas do país e dos lóbis instalados. O Chega, por sua vez, só precisa de legitimação, de aparecer nos telejornais como os "salvadores da Pátria" e de distribuir poder aos seus, enquanto mantém a massa entretida com vídeos de TikTok e deixa a LIDERANÇA LARANJA PROSTRADA.

Desiludam-se os "prostitutos políticos" — recorrendo à expressão de Passos Coelho. Historicamente, os Partidos tradicionais de direita que aceitaram alianças com a extrema-direita, achavam sempre que os conseguiriam domesticar e conter dentro das instituições democráticas. Uma estratégia que correu invariavelmente mal na Europa dos anos 30, e que passados cem anos, continua a correr tragicamente mal aos Partidos que ocupavam o espaço da direita moderada.

Julgando APLICAR essa CARTILHA ultrapassada, o duo dinâmico Montenegro-Soares assumiu o Governo em minoria achando que conseguiriam assim construir uma GAIOLA DOURADA para conter o Chega, e simultaneamente beneficiar dos seus deputados para obter a maioria que os portugueses lhe recusaram nas urnas, transformando até o “NÃO é NÃO”, em “SIM é SIM”.

O que esta direita não percebeu, é que a armadilha funciona ao contrário: a governação tornou-se ela sim a verdadeira gaiola, e o isco foi a própria ilusão de estabilidade. O PSD mantém-se formalmente no Poder, mas cada votação é um exercício humilhante de cativeiro.

Nesta aliança enjaulada, a chave da sobrevivência legislativa está no bolso da extrema-direita, que vai abrindo e fechando a porta num jogo calculista de bate-e-foge. Quanto ao PSD, descobrirá tarde demais, que a fera controla o ritmo dos seus passos e que são Montenegro e o seu elenco, que estão dentro da jaula. A este PSD. Só lhe faltou mesmo, CONVIDAR André Ventura para Vice-Primeiro-Ministro.

A CAPITALIZAÇÃO DA MISÉRIA E A CONSTITUIÇÃO COMO ALVO

No fim, todos trabalham para a mesma operação: tirar força aos de baixo e dar mais poder aos de cima. E nós!... Vamos ficar a ver?!... Vamos continuar sentados enquanto transformam o país num circo, com toda a gente aos berros por causa de pedaços de pano, fracturas ideológicas artificiais, e sustentando nas televisões que temos de ser "flexíveis"?!...

Esta é a triste realidade em que transformaram o país: um território de chico-espertos, negócios imobiliários obscuros, criptomoedas, casinos online e turismo de baixo valor, a vender pastéis de nata a espanhóis enquanto os espanhóis nos vendem comboios. Está na hora de todos os verdadeiros sociais-democratas, de todos os socialistas democráticos, de todos os trabalhadores e de todos os que acreditam que um país, se afirmarem e dizerem que Portugal não é uma quinta privada dos poderosos.

A Prestação Social Única – essa, transformou-se na segunda frente desta guerra aos mais desfavorecidos. Juntar prestações sociais poderia até ser uma boa ideia de gestão, só que nas mãos deste Governo, a simplificação transformou-se em vigilância pidesca, punição e populismo rasteiro para agradar a quem acha que tudo é "malandragem a viver de subsídios".

O que vemos não é apenas o corte de apoios — é a humilhação deliberada de quem precisa deles - incluindo crianças, para ensinar os pobres a serem submissos. O beneficiário deixa de ser tratado como alguém empurrado pela doença, pela exclusão ou por salários miseráveis, para passar a ser rotulado como um preguiçoso que deve ser castigado. O pobre no dizer desta gente, deve trabalhar sem salário digno, sem sindicato, sem descontos para a Segurança Social e sem direitos!... Chegámos ao ponto, onde até a miséria é capitalizada, a mesma lógica que agora vende o trabalho de reclusos a limpar florestas como se isso fosse uma grande solução nacional.

O trabalho prisional já existe, a floresta não se resolve com performances penais para telejornais e redes sociais. Uma táctica, que serve apenas para alimentar a FANTASIA TABERNEIRA de ver "criminosos" a trabalhar, evitando falar de ORDENAMENTO do TERRITÓRIO, do ABANDONO RURAL, do LUCRO FÁCIL, da ECONOMIA PARALELA e da ausência de fiscalização do Estado. Este GOVERNO SIMPLESMENTE NÃO PRESTA.

É o Governo que apenas se preocupa em tornar o trabalho mais barato, agitando ameaças em cada bandeira. Até a bandeira arco-íris, que simboliza a igualdade básica de direitos, passa a ser tratada como um perigo ideológico. Tratam os direitos humanos como propaganda para distrair o povo dos problemas reais: o SNS em ruptura; a escola pública cansada; o custo de vida a disparar; e as rendas impossíveis. Dão-lhes um INIMIGO para ODIAREM enquanto lhes ROUBAM o FUTURO pelas costas.

A revisão constitucional é a terceira frente — e a mais grave de todas. A Constituição de 1976 guarda a memória de que a democracia não é apenas o acto de votar; é ESCOLA PÚBLICA; SAÚDE PÚBLICA; são DIREITOS LABORAIS; e são LIMITES ao poder económico.

Só que para a direita neoliberal e a extrema-direita, essa memória é um INCÓMODO que querem APAGAR. Querem uma Constituição menos social, menos antifascista, mais compatível com um país onde o MERCADO MANDA sem freios e o ESTADO CASTIGA; onde os mais pobres são ENSINADOS a culpar os ciganos e os imigrantes ou as minorias pela sua PRÓPRIA MISÉRIA. É a OBSCENIDADE política do momento: uma direita que favorece os que ganham milhões, enquanto convence o homem que ganha 1.000 euros de que a culpa de tudo é do "malandro" que recebe um apoio de 200 euros.

Dito isto, já não restam dúvidas: este PSD está a prostituir-se politicamente ao Chega, porque aceita depender dele. E quem aceita depender da extrema-direita acaba sempre por lhe pagar uma pesada RENDA IDEOLÓGICA. Primeiro cede na linguagem. Depois cede nos temas. Depois cede nos favores. Depois entrega a Constituição. E quando der por si, o PSD já não está a usar o Chega — tornou-se o próprio Chega.

Ventura não precisa de governar formalmente para vencer!... Aliás, governar seria o seu fim. Para eles, basta contaminar o debate, fazer barulho para ter tempo de antena e obrigar o PSD a falar como eles, transformando menores em detidos, reclusos em propaganda e a democracia num espectáculo de ódio.

É um pouco por tudo isso, que Portugal enfrenta hoje uma aliança de conveniência entre o neoliberalismo e o populismo punitivo: o neoliberalismo trata da parte material, reduzindo direitos e barateando o trabalho; o populismo trata da parte emocional, espalhando a paranoia e CONVENCENDO quem SOFRE de que o CULPADO é quem ESTÁ ainda mais ABAIXO.

É a carroça da desigualdade — puxada por burros a zurrar contra bandeiras, alimentados por algoritmos e comentadores de televisão, enquanto na carroça bem sentados, os “spinumvivas” se riem de nós.

VIVA A LIBERDADE!