Há dias em que uma votação parlamentar não é
apenas uma votação parlamentar. É um RETRATO. E o retrato que ficou ontem na
Assembleia da República, durante a discussão da Moção de Censura apresentada
pelo Chega, foi particularmente esclarecedor: de um lado, a DEMOCRACIA
PARLAMENTAR, com as suas regras, os seus limites e a legitimidade que resulta
do voto!... Do outro, um partido de ARRUACEIROS, que parece cada vez mais
convencido de que pode transformar a Casa da Democracia num palco de INSULTOS,
de AMEAÇAS, de PROVOCAÇÕES e de exercícios de PODER IMAGINÁRIO.
André Ventura, levou à Assembleia da República,
uma Moção de Censura que era uma PURA CONFISSÃO DE ARROGÂNCIA política.
Comportou-se, como se já tivesse ADQUIRIDO o direito de derrubar Governos,
ESCOLHER Ministros, impor SOLUÇÕES, e no limite, até reescrever as regras do
regime.
Teve azar!... O resultado foi aquilo que se viu:
uma derrota política ESTRONDOSA e de GOLEADA, que não pode ser disfarçada por
gritos, gesticulações ou pela habitual teatralidade de André Ventura. A Moção
CAÍU!... E com ela, caiu também a FANTASIA de que a Assembleia da República é
propriedade de quem berra mais alto, interrompe mais vezes ou consegue produzir
o mais desavergonhado insulto.
O espectáculo – porque foi a isso que André
Ventura e o Chega se propuseram, foi mais do que lamentável e desrespeitoso.
Foi revelador do carácter dos 60 arruaceiros que o compõem. Revelador de uma
concepção de democracia em que a maioria só é respeitada quando serve os
interesses do Chega; revelador de que as Instituições só são boas quando lhe
dão palco, e más quando lhe impõem limites; reveladora de que a liberdade de
expressão é ali apresentada por esta gente, como um direito absoluto para
atacar adversários, e em que a palavra "povo" é invocada a toda a
hora e a cada minuto, precisamente para tentar SUBSTITUIR a vontade concreta do
povo expressa nas urnas.
Esta, é a grande mistificação de André Ventura:
APRESENTAR-SE como o único intérprete legítimo da indignação popular, como se
todos os portugueses que não votam Chega fossem portugueses de segunda
categoria, ou como se a democracia fosse um plebiscito permanente à sua própria
pessoa.
SÓ QUE NÃO É!... A democracia não é André
Ventura, a Assembleia da República não é André Ventura e Portugal não é André
Ventura – graças a Deus. E muito menos o Estado de Direito pode ficar
dependente dos seus HUMORES, das suas PROVOCAÇÕES ou das suas AMBIÇÕES. ANDRÉ
VENTURA É UM DITADOR com todas as letras...
E sendo assim, talvez o mais preocupante seja
perceber que aquilo a que ontem assistimos em Portugal não é um fenómeno
isolado. Como se sabe, o Chega FAZ PARTE de uma corrente política europeia que
tem crescido, explorando o MEDO, a INSEGURANÇA, a IMIGRAÇÃO e a DESCRENÇA nas
instituições. E é precisamente por isso, que o ENTUSIASMO de André Ventura
perante a vitória da AfD na Saxónia-Anhalt, não pode ser tratada como uma
simples manifestação de simpatia política.
A AfD alcançou cerca de 43,8% dos votos naquela
região alemã – um espaço da antiga Alemanha comunista com 2 milhões de
habitantes, dos 83 milhões, do actual país reunificado em 1990. Um resultado
que a colocou à beira de poder governar uma região, pela primeira vez desde a
Segunda Guerra Mundial.
AfD, que apresenta posições duríssimas contra a
imigração e defende a chamada "remigração", ao mesmo tempo que é fiel
a Putin e à Rússia, favorável ao levantamento das sanções contra Moscovo e ao
fim do apoio da Europa à Ucrânia.
E É ISTO que André Ventura APLAUDE!... E é isto
que deveria preocupar Portugal e o seu GOVERNO. E arazão é simples: é que há
uma diferença entre RESPEITAR o resultado de uma eleição democrática, e
FESTEJAR politicamente a ascensão de uma força que a própria Alemanha e outros
países consideram, de extrema-direita fascista – conforme o documenta a capa do
jornal francês LIBÉRATION - tal qual o fez André Ventura.
E quando esse entusiasmo vem de um dirigente,
que em Portugal não esconde a sua ambição de transformar radicalmente o NOSSO
REGIME político, a coincidência deixa de ser simplesmente circunstancial.
Torna-se pelo contrário ainda mais séria, quando se olha para o papel
desempenhado pela Rússia de Vladimir Putin na construção de redes de influência
política dentro da Europa.
Putin, que gasta 25 MILHÕES DE EUROS POR HORA –
não há engano - na guerra contra a Ucrânia, mas ainda lhe sobram verbas para
financiar estes partidos da extrema-direita radical. E não se trata de uma
teoria conspirativa. Putin, está a fazer com a Alemanha, aquilo que vem fazendo
com os nacionalistas da Ucrânia, na zona do Dombass, desde 2014.
O próprio Parlamento Europeu, tem chamado a
atenção para a existência de redes de influência do Kremlin, para o
financiamento russo de actividades políticas na União Europeia e para o apoio a
partidos e políticos de extrema-direita europeus. O Parlamento Europeu recorda,
entre outros casos, o empréstimo de 9,4 milhões de euros concedido ao partido
de Marine Le Pen por um banco russo.
O objectivo estratégico de Moscovo, é por isso
evidente: uma Europa dividida é uma Europa mais fraca. Uma Europa onde crescem
nacionalismos agressivos, onde se destrói a confiança nas instituições
comunitárias, onde se alimenta a desconfiança entre povos e onde se apresenta a
DEMOCRACIA LIBERAL como um inimigo, é uma Europa MUITO MAIS FÁCIL de pressionar
e de desestabilizar.
E não é preciso que Putin governe os países
europeus!... Basta-lhe que existam dentro deles, forças políticas dispostas a
CORROER as suas instituições, a DESACREDITAR a União Europeia, a RELATIVIZAR a
AMEAÇA russa e a transformar cada crise numa oportunidade para incendiar a
sociedade. E André Ventura e o Chega, fazem parte dessa ONDA!... Mantêm uma
forte ligação com partidos e líderes que partilham desta visão crítica das
instituições europeias e integram oficialmente o grupo parlamentar europeu
"PATRIOTAS PELA EUROPA", uma bancada no Parlamento Europeu que junta
partidos alinhados com o ex.primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e com
figuras da extrema-direita europeia, como a AfD.
E é portanto aqui que o caso português merece
especial atenção.
André Ventura não esconde a sua admiração por
essas forças da extrema-direita fascistas europeia - como teve ocasião de o
demonstrar em tudo que é televisão, no dia que antecedeu a discussão da Moção
de Censura. Mas não só!... Também, porque o Chega tem demonstrado
repetidamente, que a sua estratégia passa pela RADICALIZAÇÃO do DISCURSO – como
ontem se viu com a berraria no final dos trabalhos na AR, pela criação
permanente de inimigos e pela tentativa de apresentar o sistema democrático
como um OBSTÁCULO à vontade do "povo".
Ontem – como referi, tivemos mais uma
demonstração disso. Os gritos, os insultos e a permanente provocação, não são
apenas MAU COMPORTAMENTO parlamentar. São PARTE de uma ESTRATÉGIA. A estratégia
de transformar a política num combate de TRINCHEIRA, onde já não interessa
convencer, discutir ou construir maiorias, mas apenas DESTRUIR o adversário.
É assim que as democracias começam a morrer: não
necessariamente com tanques nas ruas, mas com a banalização do desprezo pelas
instituições, com a transformação do adversário em inimigo, com a mentira
REPETIDA até PARECER verdade, e com a ideia de que os direitos só devem existir
para quem pertence ao "lado certo".
Foi precisamente por isso que a vitória da AfD
na Saxónia-Anhalt provocou um verdadeiro choque na Alemanha. Não porque uma
eleição tenha deixado de ser democrática, mas porque uma força de
extrema-direita alcançou uma dimensão eleitoral que a aproxima perigosamente do
poder.
O chanceler Friedrich Merz, já advertiu para a
gravidade das posições da AfD sobre a chamada "remigração", enquanto
os partidos tradicionais continuam a manter uma barreira política à sua entrada
no Governo.
É esta a LIÇÃO que Portugal deve retirar,
enquanto é tempo, designadamente quando se fala de REVISÃO CONSTITUCIONAL.
Não deveremos estender a passadeira para que a
extrema-direita chegue ao Poder para depois descobrirmos finalmente, que é
perigosa e tardia.
Devemos olhar para aquilo que diz, para aquilo
que propõe, e sobretudo, para aquilo que FAZ quando tem PODER. E o Chega já nos
mostrou a sua verdadeira face: mostrou-a ontem na Assembleia da República;
mostrou-a na linguagem e nas atitudes; mostrou-a na intolerância; mostrou-a na
forma como trata os adversários políticos; mostrou-a na permanente tentativa de
transformar a indignação em instrumento de poder – de que é exemplo a sádica
tentativa de por sua conta e risco demitir Luis Neves; e mostrou sobretudo uma
tal ambição que não pode ser ignorada - a de fazer acreditar aos portugueses
que a democracia que temos é o PROBLEMA e que a solução está num NOVO REGIME e
num HOMEM providencial, num partido providencial e numa RUPTURA com o sistema.
É verdade que a democracia portuguesa não é
perfeita!... Isso não existe. Nunca foi e nunca será. Mas corrige-se pela
democracia, reforma-se pela democracia e fortalece-se pela democracia. Não se
destrói para entregar o país a quem se apresenta como seu único salvador.
Portugal já conheceu uma ditadura!... Conhece
demasiado bem o preço da liberdade perdida, conhece demasiado bem o que
acontece quando a crítica é silenciada, quando as instituições são submetidas,
quando o pluralismo é destruído e quando um regime se apresenta como eterno.
Por isso, quando vemos o chefe do Chega a
aplaudir o avanço eleitoral da extrema-direita alemã, enquanto, no Parlamento
português, o seu partido transforma uma discussão política num espectáculo
degradante, de gritos e de confrontação, a pergunta que fica não é apenas o que
André Ventura QUER DERRUBAR.
É saber o que pretende colocar no lugar.
E essa é uma pergunta que todos os democratas
portugueses – PRINCIPALMENTE LUIS MONTENEGRO - independentemente da sua
filiação partidária, devem fazer. É que uma coisa é combater os defeitos da
democracia. Outra muito diferente, é usar os seus defeitos como pretexto para a
destruir.
E é precisamente aí que André Ventura e o Chega
TÊM DE ENCONTRAR uma barreira intransponível: a CONSTITUIÇÃO, as instituições,
o Parlamento, a liberdade, o pluralismo, e acima de tudo, a consciência
democrática dos portugueses.
Ontem, André Ventura sofreu uma derrota
parlamentar PESADÍSSIMA. Mas a verdadeira batalha não se ganha nem se perde
numa única votação. Ganha-se ou perde-se todos os dias, sempre que os
democratas deixam passar uma mentira, uma ameaça, uma intolerância ou uma
provocação como se fossem apenas mais uma excentricidade política. E é por isso
que o espectáculo de ontem na Assembleia da República não deve ser esquecido.
DEVE SER LEMBRADO.
Perante o avanço da extrema-direita na Europa,
perante o exemplo da AfD na Alemanha e perante a crescente influência das redes
políticas e propagandísticas favoráveis ao Kremlin e até ao Trumpismo, a
democracia portuguesa não pode baixar a guarda.
E não se trata de ter medo de André Ventura -
ERA SÓ O QUE FALTAVA. Trata-se de não ter medo de lhe dizer que Portugal não é
dele, que a democracia não é dele e que a República não é dele.
Portugal pertence aos portugueses e a democracia
a todos nós.




