Afinal de contas, olhando para o lamaçal em que o debate político se
afundou, somos forçados a admitir que Passos Coelho não deixa de ter uma certa
razão!... É demasiado “deprimente”, para quem ainda guarda na memória a matriz
fundadora da democracia portuguesa, assistir à “PROSTITUIÇÃO POLITICA” deste
PSD.
Entregar o que ainda lhe restava da sua alma social-democrata, para se
agarrar desesperadamente ao Poder; alimentar uma máquina de clientelas cem
vezes pior do que tudo o que já tínhamos visto; e fazer uma vista grossa
monumental ao seu próprio programa eleitoral e de Governo, é sem margem para
dúvidas, a maior BURLA POLITICA alguma vez testemunhada nesta III República.
Perante tamanha desfaçatez, já não chega comentar!... Já não é possível
assistir a isto de braços cruzados, como se estivéssemos perante uma novela de
ficção ou um simples folhetim de bastidores. Esgotou-se a paciência para
tolerar tamanha DESONESTIDADE.
O que está a acontecer em Portugal é uma MUTAÇÃO POLITICA perigosa: a
destruição deliberada do PSD por dentro, e a tentativa de criação de uma
máquina de terraplanagem dos direitos dos trabalhadores; dos mais fracos; dos
mais pobres; e dos mais fáceis de culpar — precisamente tudo aquilo que a
verdadeira social-democracia SEMPRE REJEITOU.
Luís Montenegro e Hugo Soares ERGUERAM-SE como os principais coveiros desta
orgia política. É pelas mãos de ambos, e dos lóbis cujos interesses procuram
salvar a todo o custo e em tempo útil, que o Partido acaba de levar um COICE
MONUMENTAL da extrema-direita, que os ATIROU ao TAPETE sem DÓ nem PIEDADE.
O Chega e André Ventura, "xingou-os" e humilhou-os quanto quis,
neste NEGÓCIO chamado "PACOTE LABORAL", usando-os apenas para apalpar
terreno, e ver até onde poderia esticar a corda para os ACERTOS de calendário.
Luis Montenegro e o seu líder parlamentar, sucumbiram de tal forma, ao ponto de
ficarem quedos, mudos e prostrados, perante as câmaras de televisão, ao som de
desculpas esfarrapadas.
O FIM DA LINHA VERMELHA
Dito de outro modo: o Chega EXIGIU o seu PREÇO e o PSD pagou-o de joelhos:
aceitou rasgar a Constituição, cedeu na Prestação Social Única e abriu a porta
a uma lei migratória medieval que permite a detenção de menores — crianças
enfiadas na máquina administrativa de detenção do Estado.
Tudo isto, depois de aprovarem diplomas falhados para perseguir bandeiras
que simbolizam a igualdade que a própria Lei Fundamental protege. E no meio
deste pântano, Montenegro e Soares continuaram cinicamente a fingir que existe
uma "linha vermelha". Mas que linha vermelha, quando se troca toda a
dignidade pela manutenção do cargo?!... Que linha vermelha, quando se finge que
se governa, que se resolvem os problemas do SNS, que se melhora a escola
pública ou que se combatem as rendas especulativas?!...
Quando um Partido que diz defender a democracia passa a depender da
extrema-direita para esmagar os mais pobres, domesticar os símbolos de
igualdade e desmantelar a Constituição, deixa de haver POLITICA NORMAL. Estamos
isso sim, perante uma emergência democrática, daquelas que devem mover nações
inteiras.
Este PSD, já mostrou a sua verdadeira matriz: precisa de sobreviver em nome
dos boys, dos lugares de privilégio, das muitas Spinumvivas do país e dos lóbis
instalados. O Chega, por sua vez, só precisa de legitimação, de aparecer nos
telejornais como os "salvadores da Pátria" e de distribuir poder aos
seus, enquanto mantém a massa entretida com vídeos de TikTok e deixa a
LIDERANÇA LARANJA PROSTRADA.
Desiludam-se os "prostitutos políticos" — recorrendo à expressão
de Passos Coelho. Historicamente, os Partidos tradicionais de direita que
aceitaram alianças com a extrema-direita, achavam sempre que os conseguiriam
domesticar e conter dentro das instituições democráticas. Uma estratégia que
correu invariavelmente mal na Europa dos anos 30, e que passados cem anos,
continua a correr tragicamente mal aos Partidos que ocupavam o espaço da
direita moderada.
Julgando APLICAR essa CARTILHA ultrapassada, o duo dinâmico
Montenegro-Soares assumiu o Governo em minoria achando que conseguiriam assim
construir uma GAIOLA DOURADA para conter o Chega, e simultaneamente beneficiar
dos seus deputados para obter a maioria que os portugueses lhe recusaram nas
urnas, transformando até o “NÃO é NÃO”, em “SIM é SIM”.
O que esta direita não percebeu, é que a armadilha funciona ao contrário: a
governação tornou-se ela sim a verdadeira gaiola, e o isco foi a própria ilusão
de estabilidade. O PSD mantém-se formalmente no Poder, mas cada votação é um
exercício humilhante de cativeiro.
Nesta aliança enjaulada, a chave da sobrevivência legislativa está no bolso
da extrema-direita, que vai abrindo e fechando a porta num jogo calculista de
bate-e-foge. Quanto ao PSD, descobrirá tarde demais, que a fera controla o
ritmo dos seus passos e que são Montenegro e o seu elenco, que estão dentro da
jaula. A este PSD. Só lhe faltou mesmo, CONVIDAR André Ventura para
Vice-Primeiro-Ministro.
A CAPITALIZAÇÃO DA MISÉRIA E A CONSTITUIÇÃO COMO ALVO
No fim, todos trabalham para a mesma operação: tirar força aos de baixo e
dar mais poder aos de cima. E nós!... Vamos ficar a ver?!... Vamos continuar
sentados enquanto transformam o país num circo, com toda a gente aos berros por
causa de pedaços de pano, fracturas ideológicas artificiais, e sustentando nas
televisões que temos de ser "flexíveis"?!...
Esta é a triste realidade em que transformaram o país: um território de
chico-espertos, negócios imobiliários obscuros, criptomoedas, casinos online e
turismo de baixo valor, a vender pastéis de nata a espanhóis enquanto os
espanhóis nos vendem comboios. Está na hora de todos os verdadeiros
sociais-democratas, de todos os socialistas democráticos, de todos os
trabalhadores e de todos os que acreditam que um país, se afirmarem e dizerem
que Portugal não é uma quinta privada dos poderosos.
A Prestação Social Única – essa, transformou-se na segunda frente desta
guerra aos mais desfavorecidos. Juntar prestações sociais poderia até ser uma
boa ideia de gestão, só que nas mãos deste Governo, a simplificação
transformou-se em vigilância pidesca, punição e populismo rasteiro para agradar
a quem acha que tudo é "malandragem a viver de subsídios".
O que vemos não é apenas o corte de apoios — é a humilhação deliberada de
quem precisa deles - incluindo crianças, para ensinar os pobres a serem
submissos. O beneficiário deixa de ser tratado como alguém empurrado pela
doença, pela exclusão ou por salários miseráveis, para passar a ser rotulado
como um preguiçoso que deve ser castigado. O pobre no dizer desta gente, deve
trabalhar sem salário digno, sem sindicato, sem descontos para a Segurança
Social e sem direitos!... Chegámos ao ponto, onde até a miséria é capitalizada,
a mesma lógica que agora vende o trabalho de reclusos a limpar florestas como
se isso fosse uma grande solução nacional.
O trabalho prisional já existe, a floresta não se resolve com performances
penais para telejornais e redes sociais. Uma táctica, que serve apenas para
alimentar a FANTASIA TABERNEIRA de ver "criminosos" a trabalhar,
evitando falar de ORDENAMENTO do TERRITÓRIO, do ABANDONO RURAL, do LUCRO FÁCIL,
da ECONOMIA PARALELA e da ausência de fiscalização do Estado. Este GOVERNO
SIMPLESMENTE NÃO PRESTA.
É o Governo que apenas se preocupa em tornar o trabalho mais barato,
agitando ameaças em cada bandeira. Até a bandeira arco-íris, que simboliza a
igualdade básica de direitos, passa a ser tratada como um perigo ideológico.
Tratam os direitos humanos como propaganda para distrair o povo dos problemas
reais: o SNS em ruptura; a escola pública cansada; o custo de vida a disparar;
e as rendas impossíveis. Dão-lhes um INIMIGO para ODIAREM enquanto lhes ROUBAM
o FUTURO pelas costas.
A revisão constitucional é a terceira frente — e a mais grave de todas. A
Constituição de 1976 guarda a memória de que a democracia não é apenas o acto
de votar; é ESCOLA PÚBLICA; SAÚDE PÚBLICA; são DIREITOS LABORAIS; e são LIMITES
ao poder económico.
Só que para a direita neoliberal e a extrema-direita, essa memória é um
INCÓMODO que querem APAGAR. Querem uma Constituição menos social, menos
antifascista, mais compatível com um país onde o MERCADO MANDA sem freios e o
ESTADO CASTIGA; onde os mais pobres são ENSINADOS a culpar os ciganos e os
imigrantes ou as minorias pela sua PRÓPRIA MISÉRIA. É a OBSCENIDADE política do
momento: uma direita que favorece os que ganham milhões, enquanto convence o
homem que ganha 1.000 euros de que a culpa de tudo é do "malandro"
que recebe um apoio de 200 euros.
Dito isto, já não restam dúvidas: este PSD está a prostituir-se
politicamente ao Chega, porque aceita depender dele. E quem aceita depender da
extrema-direita acaba sempre por lhe pagar uma pesada RENDA IDEOLÓGICA.
Primeiro cede na linguagem. Depois cede nos temas. Depois cede nos favores.
Depois entrega a Constituição. E quando der por si, o PSD já não está a usar o
Chega — tornou-se o próprio Chega.
Ventura não precisa de governar formalmente para vencer!... Aliás, governar
seria o seu fim. Para eles, basta contaminar o debate, fazer barulho para ter
tempo de antena e obrigar o PSD a falar como eles, transformando menores em
detidos, reclusos em propaganda e a democracia num espectáculo de ódio.
É um pouco por tudo isso, que Portugal enfrenta hoje uma aliança de
conveniência entre o neoliberalismo e o populismo punitivo: o neoliberalismo
trata da parte material, reduzindo direitos e barateando o trabalho; o
populismo trata da parte emocional, espalhando a paranoia e CONVENCENDO quem
SOFRE de que o CULPADO é quem ESTÁ ainda mais ABAIXO.
É a carroça da desigualdade — puxada por burros a zurrar contra bandeiras,
alimentados por algoritmos e comentadores de televisão, enquanto na carroça bem
sentados, os “spinumvivas” se riem de nós.
VIVA A LIBERDADE!