A vida pública e a demografia têm uma virtude
inflexível: não se vergam ao populismo, nem a cartazes VAMOS SALVAR PORTUGAL.
Hoje, a fatia de cidadãos com mais de 65 anos cresce cinco vezes mais depressa
do que a proporção dos que estão em idade de trabalhar. Somos o terceiro país
mais envelhecido da U.E. - contabilizando 182 idosos por cada 100 jovens. Mas
é, perante este quadro dramático de sustentabilidade que o Chega e o seu líder
— o "Trump Lusitano" de serviço — surge a vender o
CONTO do VIGÁRIO: a promessa de baixar a idade da reforma para os 65 anos, que
pediam como contra-partida, à aprovação do Pacote Laboral. Uma proposta, que
soa àqueles anúncios manhosos em que já ninguém cai: "Ligue agora e
fique rico em seis meses." Contudo, quando o assunto é o Estado — essa
entidade tratada por muitos como um saco sem fundo —, há quem prefira
fechar os olhos à matemática e abraçar o ilusionismo.
Já se sabe, que a demagogia de André Ventura é uma
máquina bem oleada de caça ao voto imediato, guiada pelo lema "que se
lixe quem virá atrás" - o que lhe intressa é “facturar”. O que o líder
do Chega esconde com mestria nos seus cartazes de propaganda, é o preço real do
seu "presente“ envenenado. Baixar a idade da reforma para os 65 anos - numa
altura em que a idade legal caminha para os 67 - significaria, em termos
práticos, um gasto público adicional e permanente na ordem dos 2,6 mil milhões de
euros por ano. E como se financiaria este rombo?!... Na prática, o cálculo é
simples e cruel: significaria o corte do 14.º mês e uma redução
superior a 30% no valor das futuras pensões, daqueles que hoje trabalham e
descontam. Ou seja: o ilusionista promete o descanso mais cedo, mas omite a
factura da miséria na velhice.
É muito fácil alimentar a ilusão quando se ignora o
funcionamento elementar do nosso sistema de Repartição. O dinheiro que hoje
entregamos à Segurança Social não fica guardado num cofre com o nosso nome!...
Serve, para pagar no imediato as pensões de quem já as venceu e pagou para
elas. Assim, como esses as pagaram a quem os antecedeu – o ritmo é este.
Confiar que os excedentes conjunturais recentes — impulsionados em grande
parte pelo aumento das contribuições de imigrantes — vão durar para sempre,
é de uma irresponsabilidade criminosa, até porque a extrema-direita rejeita
essa mesma imigração.
Um líder com responsabilidade e vergonha na cara, não
enganaria os portugueses com promessas que colapsam a Segurança Social. Em vez
de acenar com facilidades irrealistas, do que o país precisa, é de quem pugne
pela transformação profunda da economia: subir os salários miseráveis através
da produtividade e do sucesso empresarial, apostar na literacia financeira,
aliviar a sufocante carga fiscal sobre a classe média e incentivar se
necessário regimes complementares de poupança privada. Reduzir a idade da
reforma sem antes criar riqueza é condenar o país à falência.
Sem dinheiro não há redistribuição, não há saúde, não há educação e não haverá reformas para ninguém. O "salvador da pátria", que até hoje nada deu à sociedade e nem para a demografia contribuíu, aquilo que prefere é distribuir ilusões vendáveis em vez de encarar a realidade. Só que a matemática não vota, e a história não perdoará a quem por simples sede de Poder, aceita vender o futuro dos portugueses a troco de um punhado de votos.

