12 setembro, 2026

NO RESCALDO DA MOÇÃO CHUMBADA COM "GOLEADA"...

 

Há dias em que uma votação parlamentar não é apenas uma votação parlamentar. É um RETRATO. E o retrato que ficou ontem na Assembleia da República, durante a discussão da Moção de Censura apresentada pelo Chega, foi particularmente esclarecedor: de um lado, a DEMOCRACIA PARLAMENTAR, com as suas regras, os seus limites e a legitimidade que resulta do voto!... Do outro, um partido de ARRUACEIROS, que parece cada vez mais convencido de que pode transformar a Casa da Democracia num palco de INSULTOS, de AMEAÇAS, de PROVOCAÇÕES e de exercícios de PODER IMAGINÁRIO.

André Ventura, levou à Assembleia da República, uma Moção de Censura que era uma PURA CONFISSÃO DE ARROGÂNCIA política. Comportou-se, como se já tivesse ADQUIRIDO o direito de derrubar Governos, ESCOLHER Ministros, impor SOLUÇÕES, e no limite, até reescrever as regras do regime.

Teve azar!... O resultado foi aquilo que se viu: uma derrota política ESTRONDOSA e de GOLEADA, que não pode ser disfarçada por gritos, gesticulações ou pela habitual teatralidade de André Ventura. A Moção CAÍU!... E com ela, caiu também a FANTASIA de que a Assembleia da República é propriedade de quem berra mais alto, interrompe mais vezes ou consegue produzir o mais desavergonhado insulto.

O espectáculo – porque foi a isso que André Ventura e o Chega se propuseram, foi mais do que lamentável e desrespeitoso. Foi revelador do carácter dos 60 arruaceiros que o compõem. Revelador de uma concepção de democracia em que a maioria só é respeitada quando serve os interesses do Chega; revelador de que as Instituições só são boas quando lhe dão palco, e más quando lhe impõem limites; reveladora de que a liberdade de expressão é ali apresentada por esta gente, como um direito absoluto para atacar adversários, e em que a palavra "povo" é invocada a toda a hora e a cada minuto, precisamente para tentar SUBSTITUIR a vontade concreta do povo expressa nas urnas.

Esta, é a grande mistificação de André Ventura: APRESENTAR-SE como o único intérprete legítimo da indignação popular, como se todos os portugueses que não votam Chega fossem portugueses de segunda categoria, ou como se a democracia fosse um plebiscito permanente à sua própria pessoa.

SÓ QUE NÃO É!... A democracia não é André Ventura, a Assembleia da República não é André Ventura e Portugal não é André Ventura – graças a Deus. E muito menos o Estado de Direito pode ficar dependente dos seus HUMORES, das suas PROVOCAÇÕES ou das suas AMBIÇÕES. ANDRÉ VENTURA É UM DITADOR com todas as letras...

E sendo assim, talvez o mais preocupante seja perceber que aquilo a que ontem assistimos em Portugal não é um fenómeno isolado. Como se sabe, o Chega FAZ PARTE de uma corrente política europeia que tem crescido, explorando o MEDO, a INSEGURANÇA, a IMIGRAÇÃO e a DESCRENÇA nas instituições. E é precisamente por isso, que o ENTUSIASMO de André Ventura perante a vitória da AfD na Saxónia-Anhalt, não pode ser tratada como uma simples manifestação de simpatia política.

A AfD alcançou cerca de 43,8% dos votos naquela região alemã – um espaço da antiga Alemanha comunista com 2 milhões de habitantes, dos 83 milhões, do actual país reunificado em 1990. Um resultado que a colocou à beira de poder governar uma região, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

AfD, que apresenta posições duríssimas contra a imigração e defende a chamada "remigração", ao mesmo tempo que é fiel a Putin e à Rússia, favorável ao levantamento das sanções contra Moscovo e ao fim do apoio da Europa à Ucrânia.

E É ISTO que André Ventura APLAUDE!... E é isto que deveria preocupar Portugal e o seu GOVERNO. E arazão é simples: é que há uma diferença entre RESPEITAR o resultado de uma eleição democrática, e FESTEJAR politicamente a ascensão de uma força que a própria Alemanha e outros países consideram, de extrema-direita fascista – conforme o documenta a capa do jornal francês LIBÉRATION - tal qual o fez André Ventura.

E quando esse entusiasmo vem de um dirigente, que em Portugal não esconde a sua ambição de transformar radicalmente o NOSSO REGIME político, a coincidência deixa de ser simplesmente circunstancial. Torna-se pelo contrário ainda mais séria, quando se olha para o papel desempenhado pela Rússia de Vladimir Putin na construção de redes de influência política dentro da Europa.

Putin, que gasta 25 MILHÕES DE EUROS POR HORA – não há engano - na guerra contra a Ucrânia, mas ainda lhe sobram verbas para financiar estes partidos da extrema-direita radical. E não se trata de uma teoria conspirativa. Putin, está a fazer com a Alemanha, aquilo que vem fazendo com os nacionalistas da Ucrânia, na zona do Dombass, desde 2014.

O próprio Parlamento Europeu, tem chamado a atenção para a existência de redes de influência do Kremlin, para o financiamento russo de actividades políticas na União Europeia e para o apoio a partidos e políticos de extrema-direita europeus. O Parlamento Europeu recorda, entre outros casos, o empréstimo de 9,4 milhões de euros concedido ao partido de Marine Le Pen por um banco russo.

O objectivo estratégico de Moscovo, é por isso evidente: uma Europa dividida é uma Europa mais fraca. Uma Europa onde crescem nacionalismos agressivos, onde se destrói a confiança nas instituições comunitárias, onde se alimenta a desconfiança entre povos e onde se apresenta a DEMOCRACIA LIBERAL como um inimigo, é uma Europa MUITO MAIS FÁCIL de pressionar e de desestabilizar.

E não é preciso que Putin governe os países europeus!... Basta-lhe que existam dentro deles, forças políticas dispostas a CORROER as suas instituições, a DESACREDITAR a União Europeia, a RELATIVIZAR a AMEAÇA russa e a transformar cada crise numa oportunidade para incendiar a sociedade. E André Ventura e o Chega, fazem parte dessa ONDA!... Mantêm uma forte ligação com partidos e líderes que partilham desta visão crítica das instituições europeias e integram oficialmente o grupo parlamentar europeu "PATRIOTAS PELA EUROPA", uma bancada no Parlamento Europeu que junta partidos alinhados com o ex.primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e com figuras da extrema-direita europeia, como a AfD.

E é portanto aqui que o caso português merece especial atenção.

André Ventura não esconde a sua admiração por essas forças da extrema-direita fascistas europeia - como teve ocasião de o demonstrar em tudo que é televisão, no dia que antecedeu a discussão da Moção de Censura. Mas não só!... Também, porque o Chega tem demonstrado repetidamente, que a sua estratégia passa pela RADICALIZAÇÃO do DISCURSO – como ontem se viu com a berraria no final dos trabalhos na AR, pela criação permanente de inimigos e pela tentativa de apresentar o sistema democrático como um OBSTÁCULO à vontade do "povo".

Ontem – como referi, tivemos mais uma demonstração disso. Os gritos, os insultos e a permanente provocação, não são apenas MAU COMPORTAMENTO parlamentar. São PARTE de uma ESTRATÉGIA. A estratégia de transformar a política num combate de TRINCHEIRA, onde já não interessa convencer, discutir ou construir maiorias, mas apenas DESTRUIR o adversário.

É assim que as democracias começam a morrer: não necessariamente com tanques nas ruas, mas com a banalização do desprezo pelas instituições, com a transformação do adversário em inimigo, com a mentira REPETIDA até PARECER verdade, e com a ideia de que os direitos só devem existir para quem pertence ao "lado certo".

Foi precisamente por isso que a vitória da AfD na Saxónia-Anhalt provocou um verdadeiro choque na Alemanha. Não porque uma eleição tenha deixado de ser democrática, mas porque uma força de extrema-direita alcançou uma dimensão eleitoral que a aproxima perigosamente do poder.

O chanceler Friedrich Merz, já advertiu para a gravidade das posições da AfD sobre a chamada "remigração", enquanto os partidos tradicionais continuam a manter uma barreira política à sua entrada no Governo.

É esta a LIÇÃO que Portugal deve retirar, enquanto é tempo, designadamente quando se fala de REVISÃO CONSTITUCIONAL.

Não deveremos estender a passadeira para que a extrema-direita chegue ao Poder para depois descobrirmos finalmente, que é perigosa e tardia.

Devemos olhar para aquilo que diz, para aquilo que propõe, e sobretudo, para aquilo que FAZ quando tem PODER. E o Chega já nos mostrou a sua verdadeira face: mostrou-a ontem na Assembleia da República; mostrou-a na linguagem e nas atitudes; mostrou-a na intolerância; mostrou-a na forma como trata os adversários políticos; mostrou-a na permanente tentativa de transformar a indignação em instrumento de poder – de que é exemplo a sádica tentativa de por sua conta e risco demitir Luis Neves; e mostrou sobretudo uma tal ambição que não pode ser ignorada - a de fazer acreditar aos portugueses que a democracia que temos é o PROBLEMA e que a solução está num NOVO REGIME e num HOMEM providencial, num partido providencial e numa RUPTURA com o sistema.

É verdade que a democracia portuguesa não é perfeita!... Isso não existe. Nunca foi e nunca será. Mas corrige-se pela democracia, reforma-se pela democracia e fortalece-se pela democracia. Não se destrói para entregar o país a quem se apresenta como seu único salvador.

Portugal já conheceu uma ditadura!... Conhece demasiado bem o preço da liberdade perdida, conhece demasiado bem o que acontece quando a crítica é silenciada, quando as instituições são submetidas, quando o pluralismo é destruído e quando um regime se apresenta como eterno.

Por isso, quando vemos o chefe do Chega a aplaudir o avanço eleitoral da extrema-direita alemã, enquanto, no Parlamento português, o seu partido transforma uma discussão política num espectáculo degradante, de gritos e de confrontação, a pergunta que fica não é apenas o que André Ventura QUER DERRUBAR.

É saber o que pretende colocar no lugar.

E essa é uma pergunta que todos os democratas portugueses – PRINCIPALMENTE LUIS MONTENEGRO - independentemente da sua filiação partidária, devem fazer. É que uma coisa é combater os defeitos da democracia. Outra muito diferente, é usar os seus defeitos como pretexto para a destruir.

E é precisamente aí que André Ventura e o Chega TÊM DE ENCONTRAR uma barreira intransponível: a CONSTITUIÇÃO, as instituições, o Parlamento, a liberdade, o pluralismo, e acima de tudo, a consciência democrática dos portugueses.

Ontem, André Ventura sofreu uma derrota parlamentar PESADÍSSIMA. Mas a verdadeira batalha não se ganha nem se perde numa única votação. Ganha-se ou perde-se todos os dias, sempre que os democratas deixam passar uma mentira, uma ameaça, uma intolerância ou uma provocação como se fossem apenas mais uma excentricidade política. E é por isso que o espectáculo de ontem na Assembleia da República não deve ser esquecido. DEVE SER LEMBRADO.

Perante o avanço da extrema-direita na Europa, perante o exemplo da AfD na Alemanha e perante a crescente influência das redes políticas e propagandísticas favoráveis ao Kremlin e até ao Trumpismo, a democracia portuguesa não pode baixar a guarda.

E não se trata de ter medo de André Ventura - ERA SÓ O QUE FALTAVA. Trata-se de não ter medo de lhe dizer que Portugal não é dele, que a democracia não é dele e que a República não é dele.

Portugal pertence aos portugueses e a democracia a todos nós. 


06 setembro, 2026

A MOÇÃO DE CENSURA DO CHEGA: CEDER AO “TERRORISMO” DA EXTREMA-DIREITA, SIGNIFICA A CAPITULAÇÃO DO REGIME...


A MOÇÃO DE CENSURA DO CHEGA: CEDER AO “TERRORISMO” DA EXTREMA-DIREITA, SIGNIFICA A CAPITULAÇÃO DO REGIME...

André Ventura descobriu mais um inimigo!... Desta vez, chama-se Luís Neves, a arma para o combater é uma Moção de Censura, e o palco, o Parlamento.

Mas por detrás da espuma, da indignação fabricada e da permanente convocação do medo, começa a ouvir-se uma pergunta incómoda: e se desta vez, o ALVO NÃO CAIR?!...

Há políticos que procuram soluções, outros procuram votos, e outros ainda, precisam desesperadamente de inimigos.

André Ventura pertence a esta última casta. Precisa de um culpado para cada desilusão. De uma conspiração para cada derrota. De um adversário para cada silêncio. De um escândalo para cada dia. E finalmente, precisa de manter o país permanentemente sobressaltado, porque o sobressalto é o combustível do populismo, e o medo a sua mais rentável matéria-prima.

Agora, descobriu Luís Neves e decidiu disparar uma Moção de Censura. Não, contra uma política concreta do Governo. Não, contra uma reforma estrutural. Não, contra uma medida económica que esteja a destruir salários, emprego ou serviços públicos. Não, contra uma opção global de governação. Sim, contra um homem.

E é aqui que começa a ficar claro o verdadeiro tamanho desta "operação". Uma Moção de Censura é uma arma constitucional séria e jamais deveria servir como um foguete de festa popular. Não deveria servir para produzir MANCHETES durante VINTE E QUATRO HORAS, ALIMENTAR as REDES SOCIAIS durante QUARENTA E OITO, e desaparecer depois na espuma do ciclo noticioso.

Uma Moção de Censura, deveria ter por detrás uma razão política de dimensão nacional - MAS ESTA NÃO TEM!... Mas o que temos então?!...

Temos um Ministro que vai comparecer no Parlamento, a 8 de Setembro. Um Ministro que se dispõe a responder ao que lhe for perguntado. Um Ministro que não foge ao contraditório. E um LIDER PARTIDÁRIO, que ainda não deu como certa a sua presença, mas que antes desse confronto, corre para anunciar uma Moção de Censura.

Convenhamos: ninguém me queira convenvencer que não há qualquer coisa de estranho nesta pressa!... Quem tem certezas não costuma ter medo das perguntas. Quem tem provas não teme os factos. Quem tem argumentos não precisa de incendiar o palco antes de começar o debate.

O CONTRADITÓRIO é o TERROR SECRETO de todo o populista. E porquê?!... Porque o populista é forte enquanto fala sozinho. É imbatível enquanto escolhe a pergunta, e é invencível enquanto controla o vídeo. Mas basta aparecer alguém que responda, alguém que diga “não”, alguém que apresente factos, alguém que não se deixe intimidar, para de repente, o GIGANTE COM PÉS DE BARRO sossobrar e descobrir que há também quem tenha pés de chumbo.

E Luís Neves parece ser esse alguém. O seu percurso na Polícia Judiciária dá-lhe uma experiência que não se fabrica num estúdio de televisão. E é precisamente nesse território — criminalidade, investigação, segurança — que Luis Neves construiu uma parte essencial da sua personagem política. Ventura fala de crime. Neves combateu-o. Ventura fala de segurança. Neves conhece as instituições que a garantem. Ventura constrói narrativas. Neves está habituado a trabalhar com processos, investigações e prova – UMA DIFERENÇA MONUMENTAL.

E talvez seja essa a diferença que explica a dimensão da ofensiva!... Durante anos, André Ventura fez da criminalidade e da imigração uma espécie de eixo moral da sua política. A simplificação é conhecida: mais imigração, mais crime; mais medo, mais Chega; mais indignação, mais votos.

Mas quando alguém com experiência na matéria contesta essa associação automática, o edifício começa a ranger. E sendo assim, é então que o adversário deixa de ser adversário e PASSA A SER O ALVO. É uma velha técnica política: se não se consegue vencer o argumento, tenta-se destruir o argumentista. Se não se consegue desmontar o facto, ataca-se quem o apresenta. Se não se consegue ganhar o debate, muda-se o assunto. E O ASSUNTO PASSA A SER LUIS NEVES – SEMPRE LUIS NEVES.

Tudo isso, como se Portugal tivesse deixado de ter hospitais com problemas, escolas com dificuldades, famílias esmagadas pelo preço da habitação, salários insuficientes, pensões que não acompanham o custo de vida ou uma economia que exige respostas sérias – TUDO ISTO PODE ESPERAR. O que não pode esperar, é o DERRUBE DE LUIS NEVES.

Mas porquê - essa é a pergunta que Ventura ainda não respondeu de forma convincente, e quanto mais berra, mais ela se ouve. Eu respondo: porque o Chega gosta de apresentar-se como partido contra os “casos e casinhos”. Contra os privilégios e contra os políticos que segundo a sua retórica, deveriam prestar contas.

Muito bem!... Mas então, que se aplique a mesma régua e esquadro a todos. E também a André Ventura - o verdadeiro herdeiro de Alves dos Reis. E já agora, também ao Chega. Também aos seus dirigentes, e também aos seus próprios episódios.

A moralidade não pode ser uma arma de uso exclusivo contra os adversários!... Não se pode exigir aos outros uma transparência absoluta e depois pedir ao eleitorado que esqueça quando a lupa se vira para o próprio. Quem distribui sentenças políticas deve aceitar ser julgado pela mesma balança. E é aqui que o discurso moralista de André Ventura, começa a perder o brilho.

A política não pode ser uma espécie de Tribunal popular permanente onde o “maestro” de Algueirão, desempenha simultaneamente os papéis de acusador, juiz e carrasco. Portugal tem Tribunais. Portugal tem Parlamento. Portugal tem instituições. Portugal tem leis. E nenhuma delas foi entregue em exclusivo a André Ventura.

Mas mais inquietante, é quando a “guerra partidária” começa a envolver instituições de investigação criminal!... Se são correctas as referências a alegadas insinuações sobre ACESSO A INFORMAÇÃO confidencial da Polícia Judiciária, então é necessário exigir esclarecimentos. É que uma coisa, é criticar uma instituição, outra bem diferente, é LANÇAR SOBRE ELA uma nuvem de suspeição.

Neste caso, TEM A PALAVRA O MINISTÉRIO PÚBLICO!... André Ventura tem de esclarecer aquilo que afirmou.

Mas outra ainda mais grave, é insinuar que informações reservadas circulam ao sabor de interesses partidários. As Polícias não podem ser trincheiras eleitorais e a Justiça não pode servir de MUNIÇÃO.

A Polícia Judiciária não pode transformar-se num campo de batalha entre Partidos. Quem brincar com isso, estará a brincar com uma das colunas fundamentais do Estado de Direito, e o Estado de Direito não é um brinquedo – também aqui André Ventura, terá que se explicar.

Chegados então a outro ponto da equação, talvez o episódio mais revelador deste “filme de terror”, esteja na discussão sobre os bens apreendidos à criminalidade organizada.

Será que André Ventura já esqueceu, que apresentou como NOVIDADE POLITICA no seu programa eleitoral, a utilização de património apreendido que já encontrava enquadramento na legislação portuguesa, desde 2007?!...

Mais: de acordo com a dita Lei, é ou não verdade que além de Luis Neves, vários outros Ministros de vários Governos utilizaram viaturas confiscadas às centenas, às máfias criminosas?!... .

E tendo sido assim, então a pergunta impõe-se: onde estava o escândalo antes de Luís Neves se tornar o alvo?!...

E mais: Se utilizar património apreendido à criminalidade é uma boa ideia quando consta do programa eleitoral do Chega, porque razão se transforma em escândalo quando é praticado dentro da lei?!...

A POLITICA NÃO PODE SER ISTO!... Não pode ser hoje inovação aquilo que ontem já existia. Não pode ser hoje crime, aquilo que ontem era permitido. Não pode ser hoje virtude aquilo que amanhã - dependendo do adversário, passa a ser pecado. Isso não é coerência - é conveniência. E a conveniência é precisamente o ALIMENTO preferido do POPULISMO FASCIZANTE.

Já sabemos, que o populismo precisa de uma realidade muito simples!... De bons e maus, de vítimas e de culpados, de nós e deles, de portugueses contra estrangeiros, de povo contra sistema, de gente “normal” contra elites e de alguns “filhos daquela senhora”.

Só que a realidade exige documentos, faz perguntas, mas não cabe num vídeo de trinta segundos ou em milhares de contas falsas nas redes sociais. E é por isso mesmo, que o Chega e André Ventura vivem tão bem debaixo dos holofotes e tão mal quando chega a hora de abrir os dossiers. O megafone é poderoso, mas por muito que queiram, não substitui o argumento.

André Ventura construiu uma máquina política extraordinariamente eficaz a transformar frustração em espectáculo, só que Portugal não se governa com espectáculo. Governa-se com decisões. Com competência. Com instituições. Com leis. Com responsabilidade. E sobretudo com a capacidade de explicar ao país aquilo que se pretende fazer depois de se destruir aquilo que existe.

E é aqui que a máscara começa a escorregar!... Destruir é fácil, derrubar é fácil, acusar é fácil e prometer que tudo será diferente é fácil. Difícil é construir, governar e resolver. Difícil é apresentar uma alternativa completa e sustentável para um país inteiro. Mas André Ventura e o Chega, não querem saber disso!... Do que querem saber, é de INCENDIAR a casa. E talvez seja por isso que precisa tanto de atear novos fogos. Um fogo em cada semana. Um inimigo em cada esquina. Uma crise em cada declaração e uma Moção em cada intervalo, até que o país já não saiba onde termina a Oposição e começa a propaganda.

Porém, há um problema para André Ventura!...O calendário. O Parlamento. O contraditório. E... LUIS NEVES.

O Ministro confirmou e vai comparecer e responder ao que lhe for perguntado, no sitio certo em 8 de Setembro. E não há aqui um inimigo escondido atrás de uma porta. Há um HOMEM disposto a enfrentar perguntas.

E agora Ventura terá de decidir. Ou VAI, ou NÃO vai – cá estaremos, para ficarmos a saber quem é afinal o “filho daquela senhora”. Se FOR, terá de perguntar e OUVIR respostas.

Se não FOR, ficará a pergunta: onde está o homem que prometia não ter medo de ninguém?!... É que coragem política não é berrar mais alto. É ficar quando a resposta chega. É olhar nos olhos de quem discorda. É ouvir aquilo que não se quer ouvir. É aceitar que também podemos estar errados. E é sobretudo respeitar as instituições quando elas não fazem aquilo que desejamos.

André Ventura gosta de se apresentar como o homem que não se cala. Pois muito bem!... Agora terá de demonstrar que também sabe ouvir. A democracia não é um monólogo. E PORTUGAL NÃO É UM PALCO PROPRIEDADE DE ANDRÉ VENTURA. O PAÍS É MAIOR - MUITO MAIOR QUE ELE. E a República é maior – muito maior do que o Chega.

É por isso que esta batalha poderá revelar mais sobre André Ventura do que sobre Luís Neves. Poderá revelar um líder que descobriu que a provocação tem limites. Que a ameaça permanente tem custos. Que a indignação também se desgasta. E que um partido que vive exclusivamente de inimigos, acaba inevitavelmente por ficar sem programa quando os inimigos deixam de assustar.

É esse o grande vazio que esta Moção de Censura vai expor. Não o vazio de Luís Neves. Isso sim o vazio da estratégia de Ventura.

Portugal não precisa de um homem que todos os dias descubra um novo culpado. Precisa de homens e mulheres capazes de resolver problemas. Não precisa de mais medo. Precisa de mais confiança. Não precisa de mais trincheiras. Precisa de mais pontes.

Não precisa de mais berros. Precisa de mais verdade.

E aqui está a ironia final.

André Ventura passou anos a dizer que vinha denunciar o sistema. Mas agora é o sistema democrático que lhe exige aquilo que ele exige aos outros: PROVAS.

O país é muito maior do que o seu próprio ruído.

Por isso, que venha o debate. Que venham as perguntas. Que venham as respostas. Que venham os documentos. Que venham os factos. Que venha o contraditório.

E QUE ANDRÉ VENTURA ESTEJA LÁ – QUE NÃO FALTE.