A América votou, e a vitória foi para o republicano Donald
Trump, quando todas as sondagens e previsões indiciavam que Hillary Clinton
seria eleita como a primeira mulher a atingir a presidência dos Estados Unidos.
O populismo que tem crescido na Europa, chegou também e em força aos Estados
Unidos, e a maioria do eleitorado americano deixou-se convencer, o que
significa, que a maior potência mundial também atravessa dificuldades, e que
por lá, tal como por cá, o povo aspira a melhores condições de vida, e está
farto das tutelas habituais, e do domínio das garras do poder financeiro.
Mas será este o caminho?!... Acredita-se que não, e que a
ilusão supera em grande escala a realidade. Porém, o que está à vista escusa
candeia, e o que vale a pena meditar no imediato isso sim, é como foi possível,
que a uma personalidade com a dimensão de Barak Obama, suceda um tipo do
calibre de Donald Trump. Chegados então aqui, a justificação é óbvia: por um lado,
a campanha eleitoral de Trump, ao conseguir estabelecer uma relação directa com
o eleitorado e sem a mediação do seu próprio partido, usando uma linguagem
populista e a despertar esperanças nos mais marginalizados da sociedade
americana; pelo outro, a derrota da politica tal qual ela deve concebida e
exercida. À semelhança do que se passa por toda esta Europa em desagregação,
também por lá o sistema está tão pôdre, tão descontrolado e tão incapaz de se
transformar, que a vontade do povo americano em mudá-lo, musculou o braço de
quem prometeu esmurrá-lo. O que não foi a bem, há-de ir a mal – pensaram os
americanos.
Agora, não há que chover no molhado!... Daqui para a frente,
nada será como dantes. As razões sócio-políticas da vitória eleitoral de
Trump são diversas, complexas e difíceis de explicar. Quem acredita na
democracia, terá pois que reconhecer, que há razões profundas para este “voto
de protesto” dos eleitores americanos, e que também as poderá haver, para
outros “votos de protesto”, que no futuro próximo, possam ocorrer noutros
pontos do globo. Há por isso que trilhar novos caminhos que invertam esta
situação!... Nos Estados Unidos, aquilo que as eleições nos disseram, é que
a barreira da democracia, sendo o pior de todos os sistemas com excepção de
todos os outros – como diria Churchil - foi derrubada. O que não sabemos, é
qual a nova barreira que agora se procurará erguer sobre ela, um pouco por todo
o lado. Uma coisa é certa: a intolerância, a saturação, a adesão
convicta ao discurso xenófobo, chauvinista, machista, racista e bélico de
Donald Trump, marcaram pontos e falaram mais alto. Depois, incapazes de
suportar uma mulher, após 8 anos de um negro, os americanos “entraram em rota
de colisão com o sistema”, e defenderam o pior que o populismo lhes disse ser o
melhor para eles. Esqueceram Lincoln, e entregaram-se a um aldrabão reles e
perigoso, acreditando votar contra o sistema político instalado, rejeitando-o e
criticando-o através do voto, pelo sentimento generalizado de desilusão,
desencanto, frustração, contra a falta de esperança, contra a corrupção e o
poder financeiro, contra os interesses dos grandes grupos e famílias.
Nesta altura, qualquer comentário sobre o futuro dos Estados
Unidos e da comunidade internacional com Donald Trump ao leme dos destinos da
maior potência geo-política e económica do mundo, é fazer futurologia
ou transpôr em palavras um evidente sentimento de desilusão, decepção e
receio. Pelo que foi a deplorável campanha eleitoral do agora eleito
Presidente, juntando as previsíveis pressões dos evangélicos e de grupos
extremistas, seria fácil prever problemas sérios com a inclusão social, com a
imigração, com a equidade, com os direitos humanos, com o racismo e a
xenofobia, com a economia e as relações internacionais, mas tudo não passaria
de especulação. Entramos por isso, numa fase com consequências globais
imprevisíveis. Putin, Le Pen, Erdogan e Viktor Orban, à semelhança de tantos
outros populistas um pouco por todo o mundo, já rejubilam e agitam bandeiras e
enquanto isso, a Europa e o mundo estremecem. Valeu sem sombra de dúvida, a
coragem da senhora Merkel – a única a falar grosso. A incerteza está assim
instalada, porque a incógnita e a apreensão no que se viu e ouviu no
passado recente, são incontroláveis sobre o futuro do globo, e
consequentemente sobre o futuro de todos nós.
(Crónica publicada no Jornal Noticias de Barroso - 15
Novembro)




